Economizando na terapia

Vai parecer o cúmulo do óbvio, mas para economizar na terapia, tudo que você tem que fazer é encontrar alguém para conversar.

Claro que, para ser um substituto à altura do tratamento formal, o “alguém” deve ser uma pessoa da mais alta confiança. Ou uma pessoa com quem você se sinta à vontade para conversar por tempo e assuntos indefinidos.

Isso porque, mesmo eu nunca tendo pisado em um único consultório de terapeuta na vida [tirando aquela vez em que eu era guri, toquei fogo em uns papéis no quintal da minha avó e meio mundo de parentes achou que eu era o novo Nero e me levou no "psicólogo"], imagino que não se faça nada por lá além de conversar. Uma conversa expositiva, reveladora e incrivelmente capaz de fazer você lembrar das coisas mais distantes, frustrantes, alegres, … da sua vida, claro, mas ainda assim uma conversa.

Uma vantagem sobre o terapeuta é que na sala de casa, sentados ao janelão, vendo a noite correr, é permitido e incentivado abrir uma garrafa de vinho tinto, ou que servir uma rodada de bourbon, ou que se abra uma cerveja… Além de serem bebidas deliciosas [deu até sede], servem de lubrificante para a língua. Depois da terceira dose, é difícil impedir que as palavras escorreguem.

Com ela e comigo acontece porque somos muito curiosos, gostamos muito das histórias um do outro e falamos mais que a mulher da cobra [eu bem mais do que ela]. Então, é de praxe que um dos dois jogue na mesa a pergunta que vai conduzir a “sessão”. “Tu já se boicotou?”, perguntamos em uma dessas vezes. E foram horas e horas falando a respeito de boicote, de insegurança, de receio, de trabalhos antigos, revelando situações que nunca havíamos contado para mais ninguém.

Mas e o resultado? E os conselhos do terapeuta? E as anotações, as interpretações? Bem, entortando a música do Cidadão Instigado, às vezes tudo que você quer é conversar com alguém.

Volta, Feist!

Um jeito diferente de usar o FormSpring

A onda pegou rapidão no Twitter essa semana. Como eu sou loser [ainda bem que não assino como especialista em redes/mídias sociais], nem sei dizer como surgiu, de onde veio, quem fez o primeiro e tudo o mais.

Sei que a info chegou até mim [se tem uma "teoria" que eu adoro é a de um professor lá da Faculdade de Jornalismo que dizia: se você não vai até a informação, ela acaba vindo até você - e tem coisa melhor pra isso que o Twitter? :) ] e, matutando de madruga com ela, chegamos à conclusão de que a ferramenta, por mais que esteja funcionando como um arremedo do caderno de confidências, com gente perguntando frivolidades, questionando limites sexuais e outras maravilhas, o Formspring.Me pode sim ter outras aplicações.

O blog Moda Para Homens, por exemplo, tem lá um perfil para responder sobre “moda e comportamento masculino”. Se você é um bronco e não sabe combinar nem camiseta com calça jeans e ainda assim quer sair bonitão por aí, pode mandar sua dúvida pra eles que a galera responde.

E isso é só uma possibilidade. Sugeri no Twitter o seguinte: e se uma professora de Ensino Médio abrisse um perfil no FormSpring para tira-dúvidas de seus alunos, será se funcionaria?

Pensando nisso, resolvi deixar meu perfil por lá com a seguinte proposta: posso te ajudar respondendo alguma coisa? mandaê, então!

Aí você pergunta: “mas o que você sabe o suficiente para ajudar alguém?” Sei lá, ué. Pergunta e a gente dá um jeito. Mas se você der um confere nos textos que eu já publiquei no Papo de Homem, vai sacar que eu me meto a entender de relacionamentos/mulheres. Quem sabe eu não possa te ajudar nisso?

Lembrando que um dos grandes chamarizes da ferramenta é que você pode mandar suas indagações anonimamente. Obviamente, abusos não serão permitidos. Pra todo o resto, fique à vontade. :)

UPDATE
Convido vocês, que leram esse texto até aqui, a se aventurarem da mesma forma e se disporem a ajudar a “internet”, criando um perfil no FormSpring e respondendo perguntas sobre as áreas que vocês dominam. Dividir é a real, e a melhor delas. :)

s/t zerotrês

Então mais uma vez é dezembro, e as ruas inteiras fazem o favor de cheirar a férias, a tranquilidade, a futebol na praça, a sorvete, a Rio de Janeiro, a faculdade, a saudade, a macarrona da mãe, a chatice de irmã, a chá de primo. O tempo passa em outro ritmo, as pessoas giram bem rápido de felicidade a cada cinco passos, os gritos de alegria vem das janelas, e de novo você sabe que um ano acabou e que aquela paz de três ou um mês [ou do seu recesso de 15, 10, 5 dias] acomete seu peito. É quando o ano pede trégua: correu tanto, o malino, que agora quer descanso, quer respirar.

Aí o peito sobre e desce como se sempre dormisse, como se sempre tivesse visto a cidade, como se todos os dias encontrasse na mesma mulher o meu amor.

Quero fazer um ensaio só com fotos do por do sol caindo na parede do prédio defronte ao nosso. Assim, mesmo bem clichê, como aquele cheiro dos corredores dos prédios com mais de 50 anos.

Quero de novo pegar o carro e subir para o litoral, quero mostrar a cidade a ela, apresentar meus cantos, ir no jantar da casa da avó, banho na piscina da casa do amigo. As tardes de dezembro em Teresina tiveram tantos detalhes e percepções que hoje, sentir o mês chegando e me envolvendo transborda em mim uma infinidade de sabores e texturas. Sou ao mesmo tempo eu com 5, com 10, com 15, com 20 e com 25.

Como a vida é boa.

A vida vem; a gente fica rindo

A louça não está lavada porque deu preguiça, agora que falta tão pouco para terminar o Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

Na sala, feito de sofá está um dos colchões de casal da casa, os três pufes [um que é ideal para sentar à tarde e ler um bocado], a tv apoiada em três bancos, o video game, o aparelho de dvd, o decoder da tv a cabo, o modem e o roteador no chão, os dvds de volta ao armário.

Um conjunto de panelas novo, um conjunto de facas novo, um monte de copos novos, uma vida inteira nova que vai se encaixando aos poucos. Primeiro a cozinha, embora falte o filtro, mais panos de prato e os bancos de volta. Não quisemos comprar tudo de uma vez [ficou faltando um monte de talheres propositalmente desencontrados e mais pratos, fundos] para não cansar os olhos com as mesmas referências. “Vários espíritos para decorar e montar uma casa, senão ela terá os ares de apenas um sábado”.

Um sono pra matar o sono, uma chuva para matar o tempo, um copo de tubaína para matar a sede. Você acorda para almoçar, almoçamos pensando, assistimos filme dormindo, domingo pedindo cachimbo e passeio na avenida. Malvados que somos, demos a ele muita faxina e encontros sabidos na passagem de um quarto para outro, da sala para a cozinha, de lá para cá.

Saindo da cozinha, a máquina de lavar roupas, compra vibrada e aplaudida. Agora falta o rack [possivelmente roxo], um sofá e, mesmo contra todas as minhas chatices, um tapete.

Supermercado para o almoço, frango assado com farofa e arroz branco [a receita, que dispensa arroz parboilizado e se agarra àquele outro tipo - ainda sou um cozinheiro meio fajuto -, foi me ensinada por ela]. Meu primeiro arroz. Solto, leve e com um pouco de pregado, como minha mãe não gostava de me deixar comer quando pequeno. Frango de padaria + farofa + arroz branco? Uma seca infeliz, sanada com a sugestão de um tomate, que logo vira salada com uma cebola. “Era só metade, guri”, chia. É, sou muito iniciante mesmo.

Antes de saber quantas xícaras de água adiciono à panela para preparar o arroz, já quero saber um jeito de adicionar um pouco de suco de maracujá à receita sem deixar louco o óleo. Tal qual um senhor Miyagi, que manda “wax on, right hand. wax off, left hand. wax on, wax off. breathe in through nose, out the mouth. wax on, wax off. don’t forget to breathe, very important”, ela puxa a minha orelha para a importância do básico. “Primeiro aprenda a receita, depois incremente”. Yes, sensei.

Mas agora eu cozinho, cuido da casa [ainda de um jeito que deixa a desejar, claro], olho a tarde passar ou dormir, trabalho de novo com jornalismo, reclamo junto com o porteiro do prédio pela primavera que nunca vem, dou um tempo na padoca na frente de casa para ouvir os balconistas discutirem o jogo do domingo, aproveito para matar uma abacatada e um misto quente.

Como não tem nada de ruim acontecendo na internet, nenhum dossiê ou texto mais robusto a ser escrito, nem argumentos a serem apresentados, então parece muito que minha vida [nossa vida] tem caminhado para aquele momento em que a câmera dos clássicos se distancia do casal que se beija, aspirando o desejo de “e viveram felizes para sempre”.  Sinto que agora começo a minha família, o meu clã, os meus.

E, até o próximo odioso e adorado conflito – responsável por parte dos risos, choros, gritos e afagos, essa será a cena que quero que nos ilustre.

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