Um passo por vez

Quando minha primeira namorada terminou comigo, eu estava de recuperação em Química e Português, no 2º ano. Eu era bem “sixteen, clumsy and shy“, como diria Morrissey, e ela era linda, de cabelos castanhos quase ruivos e sorriso espontâneo, cheio de dentes. Ficamos juntos por alguns meses, namorando escondido (a família dela não apreciava que a filha de 14 anos estivesse num relacionamento…), falando ao telefone e se vendo em ocasiões muito específicas: nas tardes de quarta, depois da Educação Física, e sempre que o destino nos privilegiava com uma ida ao shopping, desacompanhados. Foram poucos, esse segundo tipo de encontro.

“And he told me all romantics meet the same fate someday:
Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe”
Joni Mitchell – The last time I saw Richard

Ainda lembro da manhã de dezembro em que nossa cupido (e algoz) se chegou pra mim no corredor do “prédio novo” do Diocesano com um envelopinho na mão. “A Lorenna te mandou uma carta”. Não lembro de uma palavra sequer do que dizia lá. Só sei que nela meu namoro acabava e essa foi minha primeira experiência com o fim do amor. Fim de modo prático, claro. Me senti bem mal por um tempo; lembro de chegar em casa da aula e passar o resto do dia lendo e relendo a carta (que hoje não tenho mais), até a noite, quando minha mãe chegou, me viu ainda de farda e perguntou se estava tudo bem.

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Não ficou por um bom tempo, não sei dizer quanto.


Num verão muito, muito distante, andava junto com minha tia Gê pelo centro de Teresina quando, descendo uma calçada, ela pisou em falso e torceu o pé. Eu nunca havia torcido o pé e fiquei um tempo tentando entender porque ela não conseguia andar mais, parou para pedir um taxi e ir para casa. Falta de repertório. A torção, no fim, se mostrou séria, pediu gesso e analgésico.

Eu quase já nem lembrava mais dessa história, só mais do desfecho: findo o período em que a imobilização era necessária, fui com minha tia Gê até uma clínica ortopédica para retirar o gesso. Usavam uma serra muito esperta que, de acordo com o técnico que a operava, só cortava o gesso, nunca a carne. Até testou na própria mão, diante da insegurança de minha tia. “Sei que parou aí na sua mão, moço, mas vai saber se vai parar quando for a minha vez”.

Resultado: uma operação que deveria durar cinco minutos, levou 25, com esforço extra para amolecer e cortar o gesso. Quando eu torci o tornozelo pela primeira vez, já alguns anos depois de minha tia, não usei serra nem fui a clínica alguma para tirar o pé da “bota”: enchi um balde com água quente e fui tirando o gesso no banheiro dos fundos do apartamento.

“I just don’t know what to do
I’m too afraid to love you”
The Black Keys – Too afraid to love you

Gessos e amores certamente têm pouquíssimas coisas em comum quando se pensa de maneira prática. Quando se estica a corda do argumento, no entanto, é possível chegar a algumas conexões.

Conheço gente que remenda o osso do coração com um amor por sobre o outro, sufocando um término de história com o início de outra. “Desde os 17 anos, devo ter passado uns 4 meses sozinha, no total”. Sufocando talvez seja uma escolha de verbo muito tendenciosa, mas vamos deixar assim. Também conheço gente que acha que o amor é uma prisãozinha muito da cretina, que imobiliza a espontaneidade, que dificulta a locomoção, que exige muleta e saco de supermercado amarradinho ao redor do gesso na hora de tomar banho.

Ultimamente tenho pendido para o segundo grupo – infelizmente, devo confessar. Infelizmente inclusive porque durante muito, muito tempo eu fui um grande admirador do amor, fui seu defensor e entusiasta. Mas, como é comum quando a gente livra o pé depois de muito tempo imobilizado, fica a pisada ainda fraca, o vacilo quando se esforça o pé além de certo ponto, um pouco de receio, outro tanto de insegurança.

“The saddest part of a broken heart
Isn’t the ending so much as the start”
Feist – Let it die

Por mais que tu saiba que sim, que tu ainda vai voltar a andar sem vacilo, medo, insegurança ou fraqueza, durante um tempo – às vezes muito mais longo do que a recuperação de um membro recém-engessado exige, às vezes muito mais curto, é imprevisível – fica o receio à espreita. Eu sei, Xico Sá, eu sei “que o sujeito que tem medo do amor não merece sequer o adeus de uma daquelas mãozinhas de plástico que enfeitavam os carros antigamente“. O que eu posso fazer se é assim que eu me vejo hoje? Se é assim que se sentem não só os homens, como as mulheres também, quando se vêem sem, deixados ou deixando, perdidos do amor? Entendo a sanha imperativa e o conselho duro do nordestino que não tem tempo para gastar latim. Eu entendo, ele fala diretamente comigo.

O amor, essa célula revolucionária mais forte que um simples coração (um beijo, Edukators!), muitas vezes não respeita compasso algum, quer atravessar os ritmos e impor sua própria dinâmica. E a gente, tão castigado, quebrado, remendado e, principalmente, ressabiado, fica de orelha em pé e de olhos muito atentos aos movimentos do amor. Fugir, calar, atacar, sumir: os truques e reações são muitos. Podem ser muitos. Ainda assim, todos esses movimentos – a gente sabe, e por favor, pode concordar em silêncio – são só um duelo entre domador e fera indomável, cruzando e trocando de papéis a cada estalo do chicote. Uma dança em que os dois lados do par querem conduzir.

E ai, é como diz Jair Naves, ex-vocalista do Ludovic e atualmente em carreira solo. “Eu quase nunca me apaixono, não é assim que eu funciono. [...] É bom dar um passo por vez”.

Alguns pratos vão acabar caindo

A morte é tão objetiva. Lembro de quando morreu meu avô materno (o paterno morreu muito antes que meus pais se conhecessem): “meu filho, seu avô descansou”, então sair do estágio calado, descer a Sete de Setembro em direção à casa da minha avó, onde encontrei minha mãe muito calma, até aliviada, mas sim, muito triste. “Meu filho, vá buscar sua irmã no colégio, vou cuidar dos trâmites do velório, enterro, essas coisas”. Então ir até a Goiás, estacionar em qualquer lugar e ficar esperando minha irmã surgir pelo portão. “O vovô morreu”, eu disse baixinho quando ela saiu e eu a abracei; então ela chorou, entramos no carro e voltamos para casa. Almoçamos calados.

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Ninguém pode duvidar da objetividade da morte. Muito embora, quando se pense nas pessoas vivas que simplesmente deixamos para trás, no caminho da nossa história, ou nas pessoas que nos deixaram para trás no caminho da história delas, nos pareça absurda a ideia de comparar isso a morrer. Mas a verdade é que nem é.

O que nos impede de considerar isso de maneira mais natural é a nossa mania de querer ser bonitinhos, meigos e nostálgicos e crentes da resolução dos dramas da alma humana. Uma coisa meio Milton Nascimento cantando Canção da América, achando que qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar. Quando a gente sabe que não. Quando a gente sabe que, às vezes pela geografia, às vezes pela dificuldade em dar o primeiro passo, alguns laços foram rompidos para sempre.

Quando a coisa envolve uma situação mal resolvida, então, credo. Há um tanto de praticidade que te impulsiona a deixar as coisas como estão. Não, nada de mandar um e-mail depois de anos de intriga ou silêncio perguntando “E aí, como estão as crianças que você teve com a mulher que conheceu depois de mim?”. Faz algum sentido? “Ah, mas é um processo interessante esse de superar certas questões, colocar pontos finais nas histórias”. Concordo. Só me pergunto o porquê da nossa dificuldade em ver que os pontos finais já foram colocados. Há um daqueles posts compartilháveis que transitam pelo Facebook que me enervam demais. Na imagem, um casal de velhinhos acompanhado de um texto, que diz algo assim: “Como estamos juntos até hoje? É que nós somos de uma geração que aprendeu que, quando uma coisa quebra, ela deve ser consertada, e não que se deve comprar uma nova”. Ah, claro, vamos reforçar a necessidade da insistência a todo custo. Há coisas que não precisam (eu não disse que não merecem) de insistência. Precisam de tempo e distância. É um jeito simples de economizar paciência.

E nem sempre são histórias esperando pelo ponto final. Às vezes é só a vida que nos afasta mesmo. Sem drama e até sem contexto. Quando me mudei de São Paulo para Porto Alegre, isso ficou tão evidente. Alguns dirão, e eu concordarei, que é coisa do espírito da cidade, sem muita alma e com muitas distâncias. Por isso, a cada ida à Augusta parece haver menos e menos gente na lista do Whatsapp para convidar para fazer alguma coisa. Não que não haja queridos o suficiente, gente com que dividi histórias e momentos e que gostaria de rever. É que rareiam os que se dignem a enfrentar trânsito, fila e todas as intempéries paulistanas só para algumas horas de conversa talvez insossa – que necessariamente vai passar por trabalho e por histórias do tempo em que convivíamos, já tanto repetidas. Para esses, recados verdadeiramente carinhosos de aniversário via Facebook dão conta.

O que talvez, no fim, seja só mais uma maneira de nos fazer ver que precisamos valorizar o que temos, no momento em que temos. Pode parecer a frase mais clichê de todos os tempos, mas a mesma fofura, queridice e apego à nostalgia que nos impedem de entender que algumas pessoas vivas morreram tecnicamente para nós, também nos impede de entender que o momento é mais importante que a projeção e que há pontas soltas demais no acaso para saber quando vamos rir de novo, dividir de novo, conviver de novo. Junto a isso, também há a necessidade de entender que, se queremos resolver uma questão, ah, que se resolva logo, sabe? Depois de muito tempo, ela só deve se transformar em silêncio constrangido e ressentimento.

A gente, que vive nesse mundo em que lembrar é muito mais fácil do que esquecer (basta contar quantas das pessoas com quem tu se envolveu de maneira minimamente íntima nunca deixam de aparecer no teu feed de notícias), bem que podia aprender a deixar as coisas para trás. Ou entender que fomos deixados e lidar bem com isso. Sossega ai, Miltinho.

Quantos segredos você consegue guardar?

Certa vez, saindo com uma guria, sentamos em um bar e começamos a conversar sobre a vida, sobre o que já tínhamos feito e quais eram os planos para o futuro. Era uma conversa agitada, cheia de riso e interesse: mal havíamos aberto a primeira garrafa de vinho. Nessa época ainda fumávamos. Em dado momento, contei da minha intenção de nunca mais me envolver num relacionamento. Ao que ela retrucou: “tu é uma pessoa tão inteligente, por que tu diz uma coisa dessas?”.

Mas isso é assunto para outro texto.

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O que me marca até hoje e que me marcou tanto naquela noite foi a simplicidade e facilidade com que a frase foi dita. Talvez seja assim que as pessoas realmente sinceras e articuladas se expressem, sem tantas douradas de pílula. Acho que talvez ela nem se recorde de ter me dito isso naquela noite, e não seria eu a ir lembrá-la (muito embora esteja fazendo exatamente isso agora). Somos amigos, rimos sempre que nos encontramos, e pelo menos eu guardo com carinho aquelas taças de vinho.

Nosso encontro foi por acaso; tudo que aconteceu depois, não. Strangers in the Night não poderia ser trilha para a nossa história, e ainda assim Sinatra poderia dizer uma palavra ou duas sobre tudo isso. “Strangers in the night, two lonely people”. Pessoas sozinhas, pessoas interessadas, estranhas e dispostas. Quando as luzes se apagavam, imperava o silêncio, no entanto.

E a gente sabe que quase nunca é assim.

Principalmente porque a noite – essa coisa que no horário de verão em terras portoalegrenses começa às 21h15, depois de um invariavelmente belo por-do-sol – não tem só um formato. Não depende da falta de luzes para acontecer. É um estágio entre dois corpos dividindo uma cama no meio do sábado, uma rede numa varanda isolada, com um pouco de silêncio. Aquele silêncio que também é conversa, como também é música. Aquele silêncio que desperta a vontade de dizer coisas tão difíceis de dizer no dia seguinte (obrigado, Alex).

Essas coisas, estava pensando justamente hoje nisso, são como uma – perdão pelo exemplo tão trivial – picada de mosquito. Que coça. Que incomoda. Que exigem uma atitude e que levam a uma só atitude: coçar. Ou falar, para deixar as metáforas triviais de lado.

Então falamos. Dividimos. Olhos fechados por vergonha ou apreensão. Testa franzida pela dúvida. Digitação rápida e enter imediato para escapar do vacilo que o overthink traz. “Foi, tá dito, agora a outra parte que lide”. Como uma batata quente (sai de mim, trivialidade), que vai acabar retornando pra ti.

Nós, essas pessoas que habitam e frequentam esse mundo, lidamos muito mal com o imperativo. Assim, sendo genérico mesmo. Não nos damos nada bem com a negativa, também. As duas coisas combinadas, então…

E é por isso que coçamos tanto a tal picada de mosquito. Por mais que saibamos no que aquilo vai dar, num pataco vermelho e irritado, que só pede mais unha. “Não coça” é motivo de risada. Como não coçar?

Como não falar?

A gente fala e pode até se arrepender, depois. Mas só depois.
Talvez nem se arrependa.
Talvez só fique se perguntando se usou as palavras certas, se era aquilo mesmo que se queria dizer.
Se valeu a pena o pataco vermelho todo irritado no meio do braço.
“What’s easy in the night is always such a bite in the morning light”, como diz a Ida Maria.

Mas, se como eu, tu também acha que coceira foi feita pra se coçar, talvez tu nem se pergunte nada.

Só espere passar.

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Eu não tenho nenhuma atração por fogos, diferentemente que por fogo. No ano novo, quando a contagem se apruma para começar, todos com suas taças na mão e alguém encarregado em acender rojões e morteiros, eu geralmente fico quieto. Olho para além daquelas luzes estourando, olho as estrelas. Eu gosto de olhar as estrelas quando o ano vira, quando um dia começa igualzinho logo depois do outro, num tom de descrença e certeza de insignificância diante do que não podemos mudar e com um gosto de resignação e tristeza pelo que podemos mudar e simplesmente não vamos.

Mas o certo é que gosto de olhar as estrelas quando o ano vira. Elas lá, tão imóveis, distantes, sozinhas, conectadas mas sozinhas, tristes ou alegres pouco importa, elas estão lá, olhando de volta pra gente, sem dizer nada, apenas ali. Eu gosto quando nesses momentos a gente não sabe o que dizer e fica apenas por ali, por perto, sorri com o peito, ama com abraço, beija com os olhos, entende os silêncios e principalmente: não faz perguntas. As estrelas não fazem perguntas, elas esperam você contar o que te angustia. As estrelas seriam umas pessoas fantásticas.

Dois mil e treze foi um ano tão intenso, poluído, desviado, engraçado, terrível, temeroso, indeciso, prático, alucinado, chapado, bêbado, nicotinado, dormente, silencioso, distante, festivo, alegre, de encontros, de despedidas, de lembranças, de partidas, de partilhas, de muitos erros e uma porção de acertos, de decisões, de descobertas, de reencontros, de falhas, de acertos, de tudo que é rotina na vida de qualquer pessoa que eu não deveria me sentir nada especial em relação a ele. É apenas a vida, sabe? Seja a que levamos, seja a que nos leva. É só uma sequência de dias e noites e beijos e cigarros e salivas e doses de cachaça e agasalhos esquecidos no sofá e pulseiras deixadas sobre o criado-mudo. Com uns detalhes mais ou menos felizes/tristes a depender da tua sorte, mas de resto é tudo igual. Em 2014 quero lamentar menos que a vida seja o que ela é. Em 2014 quero aceitar mais o que eu não posso mudar. E não ficar triste pelo que posso mudar e simplesmente não vou.

Para 2014, deixo uns recados:

Pense mais nos sonhos que você tem.

No ano passado o Walkmen acabou e isso me deixou triste pra caralho. Tudo que eles escreveram e cantaram, por outro lado, segue por aí, para degustação pública irrestrita. Mas mais que falar da importância do Walkmen e da tristeza que foi vê-los partir, é importante que se diga: pense mais nos sonhos que você tem. Não porque são premonitórios, reveladores. Mas porque são sonhos. Se a vida já é nonsense sem ajuda de ninguém e a realidade está aí para humilhar a ficção o tempo inteiro, prestar um pouco de atenção nos teus sonhos pode ser um escape. Pra quê? Isso eu já não sei.

Saiba que acontece.

Sim, Paulinho. Sim, Cartola. Acontece. Acontece e ninguém tem o direito de deixar que aconteça impunemente, com ninguém, seja consigo, seja com outrem. Só acontece. A vida que siga (a vida sempre segue).

Faça, ao invés de falar.

Pois ação vale mais que mil palavras.

Seja o aquariano que a Capricórnio queria.

Não tô aqui pra falar de novo namorado, veja bem. A verdade é que: Energia sexual mal dirigida pode ser uma fria. E se pode. Pra corrigir essa vibe, leia a Garota Siririca.

Sempre vai ter outra tarde ensolarada.

“Dê tempo ao tempo e tenha paciência” foi o maior conselho que recebi esse ano. Da minha mãe, essa senhora que me ensinou a usar o relógio 10 minutos adiantado para nunca chegar atrasado a um compromisso. Dosar a ansiedade, se dedicar aos exercícios e aos estudos, comer bem, dar tempo ao tempo e ter paciência. Eu sempre fui mais fã dos Beatles que de Elvis, então que haja mais Tomorrow Never Knows que It’s Now or Never (muito embora dançar um It’s Now or Never de rostinho colado tenha seu valor demais). Serei eternamente grato ao Oasis por ter composto esta canção. Nesse vídeo aqui de cima, tem até Andy Bell tocando baixo.

Que tal se perdoar mais?

As pessoas têm padrões, critérios e coisas para se agarrar que implicam mais pecados do que deus é capaz de nos impor. Então porque ligar justamente para esse excesso de vigilância? Desde que a balança do karma se mantenha positiva, não há porque ligar para os critérios dos outros impedindo tua vida. Porém, atenção: deus, como a gente sabe, não só perdoa como pune. Os outros talvez só punam.

ainda vai levar um tempo.

Começou dentro de um bus lotado indo para o interior do estado, como naquela volta do interior de outro estado, naquela viagem que não foi nossa, tu nem tem como te lembrar: cheio de gente de pé, um calor sofrido, sol impedindo qualquer janela do lado esquerdo de ficar com as cortinas abertas. Remontei esse momento e aquela fuga para o feriado no litoral, vivido com outra história (engraçado parar pra pensar agora e me tocar que esse fim de semana esteve há exatamente sete anos daquele outro feriado) por acaso, mas é algo que me surge agora inevitavelmente. Talvez seja pelo assunto no geral.

Dessa vez, ao invés de uns caras mal encarados se escorando no braço da nossa poltrona, três crianças de traços asiáticos falavam misturando frases em idioma indecifrável e em português fofo (a mais nova tinha coisa de 9 anos e era uma graça de nariz minúsculo e sorriso de dentes fartos). Enquanto elas falavam, alguém perguntou “quem lembra daquela música do Lulu Santos, aquela que fala… como é mesmo?”. Toda a imprecisão do momento abriu espaço para que a biblioteca que carrego (e suspeito que tu e tu e tu carreguem também) do maior astro do pop nacional se abrisse na minha rádio mental. E começou aquela.

Aquela que ficou tão batida na abertura da Malhação.
Aquela que é tão cheia de clichês.
Aquela que fala tantas verdades inescapáveis.

Sim, ainda vai levar um tempo: seja pra fechar o que feriu por dentro, seja pra gente poder dar risada.

Sim, é natural que seja assim, tanto pra você quanto pra mim.

Quando você me pediu para contar a nossa história e eu me neguei; quando eu torci para que o nosso próximo encontro fosse fora daquele teto, em meio a outra rotina, envolto em outras expectativas; quando eu deixei para responder as suas mensagens depois; quando eu me mudei; quando eu silenciei e chorei e fiquei imóvel e preferi abdicar das noites e das madrugadas, nada disso foi por economia, por medo da terapia, por falta de louça na pia ou por preguiça.

As coisas da vida só precisam de um tempo, rotação e translação ao redor de si e de outros corpos celestes carregados de gravidade e atração inexplicáveis. Movimentos independentes da nossa vontade. Ninguém pergunta ao Sol se ele quer girar mais uma vez. A Terra não tem crises existenciais se precisa ou não de mais uma volta. Estamos em outro nível hierárquico, não mandamos em nada. Tudo isso também é inaplicável ao contexto do cotidiano. Não, eu nunca te quereria mal. Vê: quanto tempo se passou desde aquela manhã de domingo quando acordamos cheios de tristeza – tristeza capaz de secar todas as plantas do jardim, capaz de encobrir todo o sol das manhãs de domingo cheias de panquecas massudas demais (eu nunca sei e acho que nunca vou aprender o limite da farinha de trigo nas receitas que eu me meto a fazer)? Até hoje, nenhuma palavra. Tudo suprimido, engolido, negado.

Até hoje, nada de panquecas.
Até hoje, nunca café com canela.
Até hoje, nenhuma receita inventada torcendo pelo teu sorriso.
Até hoje, nenhum bolo de maçã feito com os restos do crumble.

Só uma tentativa mais que desesperada em dizer quantos sims fossem necessários para me levar para tão longe quanto fosse possível de tudo isso. Daquela manhã de domingo em que decidimos conversar.

Sabe, quando eu ouvi Paulinho falando que acontece, eu me senti tão, mas tão bem por dentro. Eu senti como se fosse abraçado por alguém que entendia de fato o que eu passava. Eu senti como se estivesse sendo perdoado. Eu me senti perdoado. Eu me senti algo como livre. Como se me fosse autorizado também sofrer do meu lado, sofrer como eu sofria. Sofrer em silêncio, maturando o que eu nem sabia como nomear. Tudo tão novo e tão triste (ainda que sempre cercado de sorrisos, tudo ímpeto de seguir dizendo sim e me distanciar…).

De todas as coisas que eu vi e aprendi desde aquela manhã, a que não só me surpreende como também me maravilha é que não quis deixar de ouvir nenhum dos nossos clássicos só porque aquilo que a gente sempre soube que um dia ia acabar enfim acabou. E essa sensação é maravilhosa. Eu me sentiria muito mal se isso acontecesse.

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Mas não me sinto mais mal pelas escolhas que fiz. Pelos passos que dei. Todos foram necessários, urgentes. Dolorosos. Como foram dolorosos. Essa é a primeira vez que falo tanto sobre isso sem que ninguém esteja ouvindo. Lembro como tu dizia sentir uma certa pontada de inveja das vezes em que rasguei o coração escrevendo sobre meus relacionamentos. Lembro quando te disse que em algum momento eu iria escrever e tu me respondeu com um “eu não vou ler”.

Bom…

Então ainda vai levar um tempo. Como eu te disse naquela nossa última ligação. Não sei quando aquele encontro embaixo de outro teto e com outro clima vai acontecer. Mas lembrar do Lulu, da música clichê e consequentemente de tudo isso que escrevi aqui em cima, putz, que alívio. Agora é esperar.

“devo estar preparado para acolher meu pai”

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Um dia minha avó paterna morreu e esse fato, triste mas ainda assim um tanto vazio de significado pra mim, serviu para que eu chorasse. Não pela senhora dona Madalena, com quem tive pouco tive contato amoroso e carinhoso. Acontece que quando dona Madalena faleceu, todos os tios e tias que viviam fora de Teresina regressaram à cidade para enterrarem a velha.

Essa reunião, depois do velório e do enterro, rendeu uma cervejada num restaurante lá nos confins do Poty Velho (talvez no Pesqueirinho?), com dois dos tios, meu pai, e mais uma renca dos amigos da infância que tinham apreço pela dona Madá. Um trabalhava no Ministério do Trabalho, outro tinha uma revendedora de carros e um Del Rey, outro eu não lembro o que fazia e o último, por fim, era advogado e poeta.

Durante a tal cervejada, mães e filhos foram sumindo, indo embora, ou nem foram – preciso considerar que a memória falhe. Calhou que eu fosse um dos únicos pequenos por lá, sentadinho num canto, ouvindo todos os homens falarem, contarem histórias do tempo em que tinham a minha idade. Foi então que, depois de sei lá quantas antarcticas, o advogado/poeta (não lembro teu nome, mestre) começou a recitar seus poemas. Não foram pouco e todos eram de alguma maneira muito bons, tocantes, sonoros, profundos. O tema de um deles ficou na memória e falava sobre o esforço de um filho que era pego de surpresa pela morte do pai e precisava correr a vizinhança inteira juntando tostões para cuidar do enterro do velho. Recitava muito bem, o poeta. Certo que fazia defesas igualmente inspiradas naquele escritório perdido entre a Rio Branco e a PII.

Pois bem: esse poema foi o que me fez chorar depois de todo o processo de ser acordado pela minha mãe numa certa manhã para saber que havia perdido minha avó (a primeira morte que vi acontecer), de passar por um velório, de receber minha Tia Gê em frangalhos no Aeroporto, de ouvir a ladainha dos terços encomendando a alma da senhora, de sentir o perfume da minha avó pela casa e pelo quarto dela (cânfora dentro do álcool e muito talco) e de todos os outros momentos que se seguiram do acordar até o verso final daquele poema auto-biográfico (como o Poeta contou depois).

Ao fim do poema, chorei. Mentira: já do meio pra frente, chorava como um cabrito esfomeado. Chorava de molhar a cara, de tentar esconder o choro, mesmo que de um jeito ou de outro, todos os homens ali naquela mesa, naquele momento, chorassem.

Um dos amigos dos meus tios e do meu pai, ao me flagrar chorando e com a voz igualmente embargada, deu tapas na minha perna esquerda emendando um “sei que tu vai ser um grande homem, só os grandes homens choram ouvindo um bom poema”. Imagino hoje que ele gostasse de ser bondoso consigo mesmo, já que também chorava. Mas eu, que já àquela época não dispensava um elogio, tomei naquilo uma das amostras de que seria alguém de valor, de coração bom, sensível para as coisas do mundo e da alma.

Outro ensinamento que o Poeta me deu foi quando, depois de tanto choro e mais algumas cervejas, finalmente levantou para ir ao banheiro. “Um dia tu vai tomar cerveja e vai sentir vontade de mijar, então aprende logo: depois que tu mija uma vez, não pára mais”.


O Poeta havia editado um livro, de capa rosa e que falava sobre amor. Nele também estava o poema sobre a morte do pai.

Quando fiz a sétima série, passava as tardes reforçando as aulas da manhã com uns professores particulares. Junto comigo, havia outras crianças e, lembro bem, duas gurias da oitava. Mais velhas, mais gostosas, mais cheias de malícia. Até aqui os dois fatos não se conectam.

Li o livro do Poeta e me emocionei bastante. Um dia, uma das gurias pediu meu livro emprestado para levar para uma aula no colégio, precisava apresentar algum livro de poesias. Eu havia falado bem do livro para ela e sua outra amiga – prima de um amigo meu.

Emprestei o livro e ela nunca me devolveu. Em retribuição, num dia em que conversávamos frivolidades pré-adolescentes longe dos olhares dos professores, baixou meu calção até a altura do joelho. A malícia dela certamente ainda não era sexual, mas sim em ser filhadaputa. Tudo bem (quando se está de cueca).

Nunca mais vi as duas gurias. O amigo primo de uma delas ainda é meu amigo.

Perdido o livro e muitos anos depois, volto a me emocionar com a poesia. Fabrício Corsaletti é o responsável. Só li um livro dele, Esquimó, que ainda me marca muito, profundamente.

Vez ou outra lembro de um poema dele em especial desse livro. Não, não é Seu Nome, uma obra prima fantástica e embasbacante.

O poema que mais me lembro é esse:

POESIA E SOCIEDADE

os móveis abandonados
e os óculos dos doentes

— não são imagens
do meu remorso

as janelas basculantes
e as grades dos edifícios

— vou criar porcos
em Araraquara

as embalagens de plástico
e as obras de artistas plásticos

— quero que a moça do telemarketing
venha comigo

as garagens numeradas
e as vozes do linchamento

— ouvirei o canto do galo
com amargura

a simpatia dos garçons
e o riso das professoras

— devo estar preparado
para acolher meu pai

as reuniões de condomínio
e os últimos lançamentos

— meu único gesto sincero
depende de garfo e faca

E me lembro dele sempre que lembro do meu pai. E em outras situações também. Mas sempre pelo mesmo verso, mesmo que eu não lembre do meu pai diretamente.

Não nos falamos há algum bom tempo. Desde 2011, se minhas contas não falham. Ele fala com ela de quando em vez, mas também não sei a última vez em que se falaram. Não sei como anda a gota. Não sei se ainda usa barba. Não sei se já viu a neta (muito provavelmente não). Não sei com que dinheiro vive, qual seu prato predileto hoje. Não sei se toma café ou se ainda torce pelo Vasco (deve se considerar vascaíno, ainda, mas torcerá?). Não sei se ainda vai a bares e não sei quem são seus amigos. Se vive pelas situações. Se sente saudade e de quem. Em quem meu pai pensa quando vai dormir? De quem será o nome que se forma quando ele sonha? Quais as lembranças mais caras que ele carrega consigo?

Sempre que eu começo a elencar essas perguntas, a enfileira-las como se fosse soldados inimigos que eu desejo matar com uma bala só, sempre que esse momento chega eu me sinto molhado no olhos e na alma. Como se caísse numa poça profunda de inadequação, culpa, egoísmo e incongruência. À medida que envelheço, por mais que nossos vícios não sejam os mesmos, mais me reconheço nele. Me reconheço nele até nos desvios que me obrigo a praticar. Ser mais educado. Ser mais atencioso. Ser menos ausente (nesse falho miseravelmente).

Quando ia ao Rio e visitava a casa de minha tia, onde ele mora, havia recortes de jornal pra mim, e fascículos de alguma série sobre música de algum jornal. Amareladas pela espera. Seria assim que ele demonstraria afeto?

Conversando com um parceiro recente numa viagem a trabalho para São Paulo, falamos sobre os amigos da vida inteira com os quais, infelizmente, perdemos a fluência no tratar pela distância. É inevitável, as coisas nunca são como esperamos e os rumos que a vida toma te surpreendem de maneiras que tu sequer tem capacidade de imaginar até que eles estejam diante de ti. Se hoje sentasse numa mesa com meu pai para conversar sobre a vida, imagino um momento superficial, quase vazio de significado e ainda carregado de ressentimentos. Então por quê? Que siga o silêncio, até que ele vire outra coisa (arrependimento?).

Um dia, aquele dia para o qual devo estar preparado vai chegar. E o que eu vou decidir?

Para isso o Poeta não me preparou.

Os pés verdes da galinha

Na frente da casa o velho esticava as pernas, olhando para o tempo, curiando por cima da mureta o que se dava na rua. Quase nunca dizia nada, falava como se jejuasse. Só observava, sentado na cadeira de balanço. Tomava três doses de remédio para diabetes todos os dias: uma logo de manhã com o café preto, uma depois do café seguinte ao almoço e uma por fim ao cair da noite, no café que encerrava o dia. O último era acompanhado de um cigarro de palha que ele mesmo enrolava, às vezes, fonte fugaz de prazer.

Os pés verdes da galinha

Do outro lado da casa, Köves conversava com as galinhas enquanto distribuia xerém às mãozadas. Chamava-as por nomes e se impacientava com a falta de resposta das frangas. Uma era Carlinda, outra era Beliza, mais uma, Esmeralda (tinha os pés verdes, veja que estranho). Os galos não ganhavam nome, e isso nada tinha a ver com sua porção de xerém. Toda a propriedade animal de Köves se resumia àquelas três galinhas com nomes de mulheres e dois galos, um vermelho e outro com as penugens do peito quase xadrezes em verde e azul. “Fico feito um rei toda vez que venho aqui em cima, dar de comer a vocês”, entreouvi de longe numa tarde de outubro. A recompensa era uns ovos, um despertador, um ritual, uma coisa para se amarrar à vida. Quando a corda de um dos bichos já estava próxima de arrebentar, Köves me contou que lhe esticava o pescoço até estalar e ainda peidava na cara do recém-morto, “que é pra garantir a morte ligeira e ainda fazer uma troça”. A avó havia ensinado a ele a técnica ridícula. (Na próxima posta separava um ovo para as galinhas chocarem, e o ciclo de Carlindas, Belizas e Esmeraldas seguiria sem fim – muito embora os pés da terceira nem sempre fossem verdes.)

A ave era preparada ao gosto da sorte: cozida bem, na pressão e ao molho pardo, se a bicha já ia velha; ou rapidinho numa canja forte com cenoura, maxixe, batata e abóbora, se a franga ainda era novinha. Chupávamos tudo, até os dedos, logo depois dos ossos. Em silêncio fomos aprendendo que partes eram nossas prediletas. Ao velho, as coxas – e disso eu já sabia das idas à varanda ou ao quarto (no quarto era pior) para lhe medicar -, Köves preferia a carne do pescoço, chupava as juntas até não sobrar lasca de carne. Eu gostava das asas, as comia em ritual (não há razão para revela-lo aqui). O velho era sempre o mais voraz, comendo tudo como se não pudesse suportar nossa companhia ou o som dos outros talheres batendo nos pratos. Assim que róia as cartilagens dos ossos das coxas das galinhas que Köves criava e matava, estalando pescoço e peidando na cara, levantava como as pernas permitiam, e seguia para a varanda, esperar o café que eu lhe faria e adoçaria com rapadura.

Quando janeiro chegou ao meio e faltava exatos 8 dias para o aniversário de Köves, o velho parou de tomar seu remédio. Algum problema para engolir ou coisa assim. Uma noite, por mais que eu insistisse, não levantou da cadeira para dormir e passou a madrugada na varanda. Acordou morto. Saímos para beber o corpo. Köves sorveu seu copo em um gole só, não queria sonhar com outro, não havia dinheiro para mais duas cervejas. Recebeu o copo cheio e não descansou até batê-lo na mesa já vazio. Voltamos para casa e enterramos o velho no quintal.

Passamos a dividir as coxas, como se ninguém houvesse morrido.