Nove coisas aleatórias sobre mim

As maravilhosas e queridonas Gabi Bianco e Marina Santa Helena me convidaram para um meme sobre nove coisas sobre mim. Pra quem é um zero em matéria de listas e lembranças para estas, farei um esforço hercúleo pra contar tantas coisas legais quanto elas. 🙂 O meme fica pra quem quiser continuar, a vonts.

1 – Muito antes do “dê RT nesta mensagem para ganhar um alfinete”, vendi minha dignidade participando de um concurso de lambada num clube de Teresina. Tinha… uns nove anos [engraçado que na minha memória, tudo da infância eu tinha 9, 10 anos e tudo da adolescência, 14, 15 anos. Anos longos, esses…]. Perdi e me cobrei por isso aquele sábado inteiro.

2 – Muito antes da lambada, quis enxotar a toque de cabo de vassoura aquela cara de joelho que tinha se apossado do meu berço. Era minha irmã, recém chegada da maternidade. Isso é amor, hein?

3 – Meu doce de padaria predileto é sonho. Descobri o dito numa padariazinha que ainda hoje sobrevive em Teresina e cujos dias melhores foram quando descobri o doce. Bote aí uns… 17 anos. Um dia, chegando com meu pai à padaria, fui pedindo três sonhos e ele foi me perguntando: “E o dinheiro pra pagar, Pedro Augusto?” “Ah, pai, eu fiz um bolão na escola pro jogo da copa”. “Mas filho, você precisa saber o resultado do jogo e ninguém ter ganho pra você poder ficar com o dinheiro”. TÓIM!

4 – Meu nome é Pedro Augusto da Cunha Jansen Ferreira. Poisé.

5 – Joguei basquete por maravilhosos 7 anos da minha vida. O último ano eu nem deveria contar, já que entrei na faculdade e a casa da minha namorada ficava na metade do caminho para o meu treino. Junto disso, descobri que era muito melhor beijar na boca [dentre outras coisas] que me esfregar num bando de machos. Parabéns, Jansen. 😉

6 – Quem me conhece um tico que seja fora da internet, já deve ter me ouvido contar que já quis ser advogado. Agora o motivo é o melhor da coisa: para ajudar as pessoas. Depois que desisti do Direito, fui para o Jornalismo com a mesmíssima intenção. “Vou escrever sobre os problemas das pessoas, resolver as broncas dos bairros, ajudar as pessoas…” Nada contra a preocupação social, óbvio, mas era muito mais romantismo que consciência do que a profissão tinha como prática. Depois disso, aprendi que profissão ajuda as pessoas, mas que quem ajuda pessoas são pessoas mesmo.

7 – Já fui militante do movimento estudantil, frequentador de encontros estudantis [te amarei pra sempre, João Pessoa!], adorava dormir em alojamento, tomar banho em bica improvisada em universidade… Suficiente, né?

8 – Em 2009 comecei a cozinhar, não sabia o ponto de um ovo cozido [não sei ainda!]. Aqui em 2010, estou pensando seriamente em me preparar pra trocar o jornalismo daqui uns [bons] anos por outra profissão. 🙂

9 – Nenhuma – registre-se – sogra minha jamais foi com a minha cara. Sempre fui tratado com: a) indiferença, b) falsidade, c) cordialidade forçada e d) total desconhecimento de quem eu era. A razão, nunca saberei. ~ assobia ~ Então veio ela, e com ela, Dona Marilu – uma das pessoas mais fantásticas que já conheci. ;D

Anúncios

De baunilha e fitas verdes de por no cabelo

Bati palmas no portão da casa, vi aquela senhora levantando lá dentro, coçando o ombro e fazendo cara de quem não queria ter levantado por nada nesse mundo, “oquêqueémeufilho?”, ela cuspiu e quando eu disse que queria ver Loana, que tinha esse nome por culpa do escrivão do cartório da rua dos Absurdos, a velha então cuspiu no chão e gritou forte para dentro de casa: “LOAAAAAAANA” e a menina veio enfeitada de raio de sol com um laço verde no cabelo, cheirando a baunilha. Ela passou e disse que ia brincar na pracinha em frente de casa. “Arrumada desse jeito?”, cuspiu de novo e Loana então disse: “Sim, Marilda, só brincar com o Etevaldo, meu amigo”.

Não gosto desse rapaz, desse menino, não gosto que me chamem no meio da minha novela, eu já trabalho a semana inteira e ainda tenho que ficar atendendo a porta pra essa molecada ficar fazendo barulho na frente da minha casa, atrapalhando a minha novela? Essa menina vai se perder, essa Loana, nunca vi essa história de menina ter amigo homem, de brincarem juntos, de rirem tanto, as caras que essa menina faz quando tá perto desse Etevaldo, esse chamar de amigo, essa fita no cabelo… Eu não sei, acho que essa menina vai acabar se perdendo, o Francisco não acha e ele não precisa saber que eu só respeito a vontade dele por que é ele que paga minhas contas e me deixa ficar em casa cuidando das minhas coisas, ruim era no tempo em que eu tinha de acordar pra ir para o trabalho, mas agora eu herdei essa menina, com esse nome estranho, agora que o Francisco me quer só pra ficar em casa eu não vou reclamar. A filha não é minha, o problema no fim das contas é dele.

Eu quase nunca tenho um motivo bom para sorrir que não seja quando o Etevaldo aparece na porta de casa, de banho tomado e cara lavada, e boca cheirando a pasta de dente, me chamando pra brincar na pracinha em frente de casa. Essa mulher não é minha mãe, a minha mãe morreu e me deixou um apelido secreto, só meu e dela e uma fita verde de por no cabelo. “Pros dias especiais, minha filha”, então quando o Etevaldo vem eu ponho a fita e eu vejo pelo olho dele que ele acha bonito. Essa mulher ai sente inveja da minha mãe, eu sei, por isso que ela é tão zangada comigo. Mas meu pai esqueceu minha mãe e gosta dela e eu sou só uma criança, então eu não posso fazer nada a não ser chorar à noite ou sorrir bastante quando o Etevaldo aparece aqui. Acho que da próxima vez que eu precisar ir na padaria comprar o pão do café da tarde eu vou dar um jeito de pegar umas moedas pra mim então eu vou apostar com o Etevaldo uma corrida boba e perder e ai dar as moedas pra ele e sugerir como quem não quer nada pra gente ir tomar um sorvete. Ai eu sei que ele vai me pagar esse sorvete e eu venço essa besteira dele de achar que eu não posso pagar nada, nem um bombom nem uma maria-mole ou um quindim. Nessa vida a gente tem que ser esperta, senão vem uma velha dessas e nem deixa a gente tomar sorvete.

Quando a minha mulher morreu eu não soube muito bem o que fazer, a Loana tinha pouco mais que quatro anos e esses quatro anos seguintes foram bem difíceis, mas no fim das contas eu consegui arrumar uma mulher boa para ficar em casa e que gostasse de mim e fizesse bem para a Loana. Ah!, como a Marilda gosta dessa menina, eu vejo no jeito dela que ali tem um carinho bom. Eu tenho muita sorte de poder contar com essas duas meninas na minha vida, por que a Marilda pode ter sua idade, mas é uma menina, um anjo, uma coisa linda. O Etevaldo… o Etevaldo é uma outra história…

Do lado de fora da casa, enquanto a criança brinca e a menina do olho dança e o sol se põe devagar, Marilda observa o jardim e conta os botões de rosa dando um tempo pra novela voltar do comercial. Aponta longe o carro de Francisco, subindo a rua, e Loana pensa “meu pai vai gostar de me ver com a fita verde que minha mãe me deu” e pede para Etevaldo esperar um pouco. O pai, Francisco, breca o carro, bate a porta e a filha chega e o abraça “oi, pai”, o pai retribui o abraço, diz que está cansado e que quer entrar logo, a chama para o jantar, Marilda já está na sala e beija o marido, Etevaldo está longe e esquecido, mais uma vez imagina, o portão já vai fechando e Loana, no último segundo libera o menino para respirar de novo, “Amanhã eu quero apostar uma coisa contigo”, ele ri, sabe que vai ganhar e desce a rua feliz, pensando na fita verde, em Marilda e no carro novo do seu Francisco. Etevaldo sabe que ama Loana e espera logo logo poder fugir com ela. “Toda vez que ela usa aquela fita verde ela fica tão linda”.

Chuta mais uma pedra e o lusco-fusco fica mais intenso. Um vento forte traz o cheiro de baunilha de Loana de volta para o nariz dele e ele ri.

Texto publicado originalmente em 2008, lá no dois dedos na garganta