Economizando na terapia

Vai parecer o cúmulo do óbvio, mas para economizar na terapia, tudo que você tem que fazer é encontrar alguém para conversar.

Claro que, para ser um substituto à altura do tratamento formal, o “alguém” deve ser uma pessoa da mais alta confiança. Ou uma pessoa com quem você se sinta à vontade para conversar por tempo e assuntos indefinidos.

Isso porque, mesmo eu nunca tendo pisado em um único consultório de terapeuta na vida [tirando aquela vez em que eu era guri, toquei fogo em uns papéis no quintal da minha avó e meio mundo de parentes achou que eu era o novo Nero e me levou no “psicólogo”], imagino que não se faça nada por lá além de conversar. Uma conversa expositiva, reveladora e incrivelmente capaz de fazer você lembrar das coisas mais distantes, frustrantes, alegres, … da sua vida, claro, mas ainda assim uma conversa.

Uma vantagem sobre o terapeuta é que na sala de casa, sentados ao janelão, vendo a noite correr, é permitido e incentivado abrir uma garrafa de vinho tinto, ou que servir uma rodada de bourbon, ou que se abra uma cerveja… Além de serem bebidas deliciosas [deu até sede], servem de lubrificante para a língua. Depois da terceira dose, é difícil impedir que as palavras escorreguem.

Com ela e comigo acontece porque somos muito curiosos, gostamos muito das histórias um do outro e falamos mais que a mulher da cobra [eu bem mais do que ela]. Então, é de praxe que um dos dois jogue na mesa a pergunta que vai conduzir a “sessão”. “Tu já se boicotou?”, perguntamos em uma dessas vezes. E foram horas e horas falando a respeito de boicote, de insegurança, de receio, de trabalhos antigos, revelando situações que nunca havíamos contado para mais ninguém.

Mas e o resultado? E os conselhos do terapeuta? E as anotações, as interpretações? Bem, entortando a música do Cidadão Instigado, às vezes tudo que você quer é conversar com alguém.

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