s/t zerodois

despite all my rage, I’m still just a rat in a cage

[smashing pumpkins]

 

tira de Laerte®

tira de Laerte®

Não, caro amigo, não estranhe, por favor. Não estranhe a boca molhada e o nariz escorrendo, a face vermelha e a respiração intermitente, entrecortada por um soluço que não passa, por uma dor que não se esconde. Nem mesmo depois do vinho e do sono.

Ok, então também não se espante com a cena: dois amigos, um colchão e um vídeo na tela. Um clipe. Palavra-por-palavra como na recitação adolescente. O venerar de quem diz “como há dez anos atrás”. Como forma de libertação final da angústia ou passo último do ritual de aceitação da mesma dentro do peito que, “desiste, bate por costume”. E nós? Nós seguimos somente por não sabermos morrer. E nossos amigos, todos, todos, estão procurando emprego, sentido, abrigo ou fim.

Se acorda para o mundo e se fala de angústia. Mas também se fala de raiva e de dor. E de torpor, auto-destruição, saudade e amor. Uma pitada de amor para sacramentar abraços e enfeitar sorrisos. E todo o resto para mostrar que o sofrimento é a base da estruturação do ser humano. Do ser. De ser algo, algo firme, algo centrado.

E mesmo que não se busque centros ou certezas, sofrer é a preparação que o mundo nos mostra para que o espírito saiba aproveitar qualquer segundo de prazer. Distante disso, tudo é exagero e dele sabemos que não se tira quase nada.

Silêncio. Pensa, matuta, reflete. E-s-c-o-l-h-e.

quando cedia, na solidão de suas noites intermináveis, à tentação de telefonar para um deles, sempre se sentia triste depois, triste e derrotado

[philip roth]

E não há derrota pior do que se sentir sozinho mesmo no meio de tanta gente. E essa é uma reclamação recorrente, é um choro que já nasce abafado, já sai do canal lacrimal com vergonha de se mostrar ao mundo.

É quando a barriga da gente cresce mais do que a cerveja e os sanduíches na alta madrugada são capazes e tornam nosso umbigo a força que move o universo, mantendo tudo no seu campo gravitacional, sendo mais pesado que um buraco negro e mais guloso que um também, sugando toda a atenção disponível num recinto qualquer. É uma eterna disputa de quem está mais fudido, de quem mais  precisa da mão estendida, de quem mais precisa de colo. Invariavelmente o resultado aponta para o seu próprio umbigo. Péssima a sensação constrangedora e a absoluta e vergonhosa certeza do egoísmo. “Mas eu preciso!!!”, diriam todos.

Enquanto isso, os analistas de porta de boate esfregam as mãos e riem.

Um olha um garoto e pensa.

Chapado, bêbado e de pau duro, achando que sabe fuder alguém além de si próprio. Esse vai ser bem feliz no meu divã, vai ser ótimo lhe incutir pequenas loucuras que sempre o trarão de volta para mim

Ao seu lado, o raciocínio de outro é quase mastigável, não fosse o amargor.

Maxilar travado, mamilo rasgando o vestido, sorriso débil e vergões no pescoço. Quando, amanhã de manhã, ela não for mais a dona do mundo, muito menos tão gostosa quanto a fizeram acreditar esse tempo todo, que delícia vai ser tomar o dinheiro do pó dela para comprar o meu próprio pó

Ou como disse outro, “há meia hora que procuro incutir-lhe as verdades eternas, mas ele resiste”.

Mas no fim, todos concordam: o mal do século é a solidão, o mal do século, o responsável pelos suicídios, pela destruição de lares e pelos filhos tão calados e tristonhos é a doce e falsa ilusão de que ser sozinho é bom.

Aí um dia você acorda, de ressaca, zerado, sem nada para fazer e fica olhando para o teto. Vomita um pouco. Olha no espelho e não consegue pensar em nada que não seja o seu umbigo. O seu lindo, tranquilo e tão aconchegante umbigo. E nem escuta a porta da rua bater, e nem lembra da menina largada na cama, e nem se importa com o que vai ser daqui pra frente, “afinal de contas, a vida é essa, não?”.

Eis que o ciclo se abre e novos personagens se mexem dentro dele, mas você sempre, sempre, sempre vai ser o sujeito voltando para casa sozinho. O último a pegar o metrô, o esquecido que não tem para quem ligar, o surdo-mudo que tenta gritar e, vejam que delicioso, NUNCA vai conseguir.

A angústia, meu caro, faz você conversar com a sua imagem no espelho, como se treinasse poses para um ensaio, como você fazia quando criança.

Um dia, no entanto, tudo isso explode e o que mais você pode fazer a não ser deixar as coisas fluírem? Acompanhar de longe a desgraça dos outros enquanto administra a sua?

De que me serve o amor próprio se não posso me dar carinho, me abraçar, me beijar, me fazer dormir, me fazer companhia, me fazer sorrir, me levar pra jantar, dizer que preciso de mim, se nem mesmo me pedir colo ou me fazer chorar eu posso?

Mas se for pra amar o próprio, prefiro a mim mesmo amar porque o próprio não tem a quem dar amor

[g.l.]

E então, numa tarde nublada, tudo que se quer é um lugar legal para ir, onde alguém lhe sufoque o silêncio que vibra dentro de você como uma força, tudo que se precisa é esquecer desta noite, já que “a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”…

Tudo que se precisa é de algo que aquiete ou mate o bicho que te rói por dentro, que te suga, te abusa, te maltrata.

Um bicho chamado você.

Não ache que isso é outra coisa senão dor

Não é imaginação, não é frescura, não é desalento. Quer dizer, pode até ser desalento, pode provocar desespero, mas não ache que isso é outra coisa senão dor intensa e verdadeira no seu mais genuíno motivo: estímulo desconfortável das terminações nervosas presentes na sua derme, a terceira camada do que se convencionou a chamar de pele. Não só isso causa dor, claro. Frio/calor extremados, desespero, desalento, paixão, amor, morte, partida, saudade, derrota. O mundo tem mais de um quaquilhão de formas de provocar dor ao ser humano. Seja no seu frágil corpo ou na sua impressionável mente.

Dor, pessoas, como aquelas mais excruciantes do que você pode imaginar. A morte do seu cachorro, a saudade do pai distante, o chocolate suíço desperdiçado, o amor esquecido, a pane no seu vídeo-game, o soco do namorado ciumento, talvez nenhuma, creiam-me, nenhuma dor seja mais forte que a dor do crescimento imperceptível. Aquele que faz de você não só adolescente, adulto, idoso, mas, principalmente, faz você deixar de ser criança. Acordar e saber que quem trouxe sua bicicleta de Natal foi seu pai e não o Papai Natal, que não há céu para os cachorros [nem para você mesmo…], que nem tudo cabe no cartão de crédito da sua mãe, que é preciso compensar para receber, dar dois passos e voltar um, ceder para não perder, morrer um pouco a cada dia pela vida de outrem.

Nada, meus caros, nada é mais doloroso que crescer.

 

Recados

Eskimó – Canção pros amigos

Tudo o que eu deixei pra trás
Me traz um vazio tão grande
Me dói demais
Me tira a paz

[…]

Existe um tempo pra ficar
E um tempo pra partir
Me perco
Achando o tempo de por fim.

eu. eu vinha. eu vinha andando. pa-s-so-a-p-as-so. devagarzinho. um calor do cão.

eu vinha assim andando como quem não quer nada e passei por um hospital. ai eu pensei assim… “quanta gente deve estar sentido mais dor do que eu, hã? que puta egoísmo…”

e eu não sei exatamente se estou sendo egoísta, justo, verdadeiro.

eu só queria que essa palpitação passasse…