A musa e o patinho feio

Stefhany é, como eu, piauiense. Estamos, os dois, e mais um monte de gente que é de lá, vítimas do que Fenelon Rocha, um dos melhores professores da minha época de faculdade de Jornalismo lá na Universidade Federal do Piauí, descreveu como “síndrome do Patinho Feio”.

Assim como na fábula, nós piauienses, damos atenção demais a coisas que teoricamente ofendem nossa origem e estado, mas que na verdade são apenas um pequeno pedaço do que realmente significamos e que incomoda apenas nosso brio superdesenvolvido. Resumindo, é apenas orgulho. Somos orgulhosos mesmo e a qualquer sinal de ameaça à nossa “soberania”, reagimos.

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Mas no último dia 08/06 tive oportunidade de conhecer Stefhany. A Stefhany do CrossFox, como conta o clipe e a música famosa e o site do youPIX, encontro tocado pela PIX e pela Gafanhoto no Espaço que está ali na rua Rebouças, em São Paulo, quase na Avenida Brigadeiro Faria Lima.

Legal, iria encontrar a cantora que saiu do interior do Piauí para o “estrelato” na Internet, para os comentários nos blogs de ironizar celebridades, para as referências por outras cantoras populares.

Na programação do evento, primeiro uma sessão de perguntas disparadas por convidados como Carlos Merigo, Didi, Pedro Beck, Phelipe Cruz, Thiago Ney e Wagner “MrManson” Martins, todas sendo mediadas por Bia Granja e logo depois uma festa que arrecadaria doações pela libertação da criança, cantora e apresentadora Maísa.

Das perguntas e das respostas, não vou falar nada, afinal já tinhamos dezenas de twitteiros lá cuidando da cobertura. Falarei apenas das minhas impressões daquela conterranea de voz poderosa mas ainda mal utlizada.

Pois bem.

A entrada da menina [mesmo que sua certidão de nascimento conte uma história de 17 anos] foi tímida, ainda que o sorriso aparelhado e largo não permitisse que a alegria de ali estar se escondesse. Simpática e “saliente” sempre, Stefhany foi logo perguntada sobre virgindade, figurino, rotina, escola. O tom passeava do sincero para o irônico a galopes, sem medo da indecisão. Natural. Natural quando se pensa que a MPB não representa o povo brasileiro, que as músicas que realmente tocam o povo – como organismo e não como vários indivíduos – não são as de Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Djavan. É do brega, do forró, do calipso, do funk carioca, do sertanejo esse mérito. O que efetivamente representa o povo não é o que está embaixo do guarda-chuva da MPB.

E, entre perguntas sérias, gaiatas, irônicas, capciosas, dúbias e engraçadas, Stefhany respondeu/se defendeu como pôde. Vinda de um ambiente em que 13 mil cópias de discos vendidos representa um sucesso inquestionável, Stefhany tem conhecimento impreciso do que é, realmente, a fama. Mesmo com os números vultuosos na internet, quem além deles [pouco mais de 40 milhões de brasileiros num país de mais de 180] conhece mesmo Stefhany? A amostragem ainda é pequena, se considerarmos interesses, faixas etárias… Ter 13 mil cópias de uma artista totalmente independente, garantindo suas inserções nas rádios locais na raça e fazendo shows em diversos estados da região num mercado em que o forró/brega/vanerão pede e exige muito, é mérito demais.

Stefhany é simples. Não se precisa pensar muito para chegar a essa conclusão. Basta ver que a produção de seus clipes não peca pelo “preciosismo” de ótimas locações e figurinos. Sim, é tosco, mas é sincero como algumas pessoas nunca viram. Sim, fala “errado”, quando aprende desde nascida o dialeto que transforma nossa língua-pátria numa troca de Ss por Rs, de eliminações de Ms e Ns, num fenômeno impossível só explicado pelo convívio ou pelo estudo da Gramática de Piauês, como Paulo José Cunha bem expôs na sua fantástica Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês. A simplicidade dela, no entanto, não supera o carisma. E então, num misto de ignorância com inocência e carisma, temos uma jovem que encanta e que lida com situações inesperadas apenas com o ponteiro da sorte.

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A simplicidade daquela guria não permite que, como dizem alguns, ela perceba que muitos chacotam dela. Que riem do seu jeito de vestir ou falar. Que gostam de apontar-lhe os erros. Ela é simples, apenas, e assim aproveita sua “fama”, “sucesso” e “glória” como pode e sabe:  aos montes. Porque sair do interior do Piauí para ser cantada num show por Cláudia Leite e tirar uma foto com seus ídolos globais é o tipo de acontecimento que marca uma vida eternamente. Não é o tipo de realização daqueles que sugeriram “Beatles” quando perguntaram sobre ídolos musicais e que riram quando Stefhany respondeu “Amado Batista”. Eu, muito provavelmente, não conhecerei John Paul Jones, o baixista da minha banda predileta no universo inteiro – o Led Zeppelin – mas Stefhany conheceu Preta Gil, uma das preferidas que ela citou como divas. Quem sou eu para dizer que ela adora as divas erradas?

Há uma mania de sempre se apontar o dedo de forma tão direta para aquele que é diferente que a coisa vai além do politicamente correto.  É o tipo de tocaia que te cerca por todos os lados. Não há escapatória se você não venera os tipos certos, os ovacionados pelos “tipos certos” e que não traduzem a cara múltipla que esse povo pode ter. E olha que essa mesma cara permite, oferece e instiga que existam iguais origens, mas diferentes gostos musicais.

O que estou tentando defender aqui é que Stefhany tenha seu espaço garantido sem chacota, pena ou ironia. A cantora de forró que “entrou em depressão” durante o fim de um namoro e que pensa primeiro no seu ônibus de turnê que num transporte próprio tem tudo para ser um sucesso para aqueles em que mira: conterrâneos e amantes do Nordeste menos rebuscados. Para a “massa” que se considera dententora da verdadeira “cultura” e da mais pura “apreciação” musical, a coisa pára no tosco e na risada fácil.

Que bom que Stefhany não entende da fama. Enquanto ela acha que está sim em alta consideração, não tem que lidar com as ironias pouco delicadas. Há quem diga que a ignorância é uma benção. Eu acho que é só mais uma possibilidade. E como esta não prejudica quase ninguém, qual o mal?

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