Das pausas para ter inveja

Uma das maiores saudades que sinto do tempo em que fumava é da famosa pausa para o cigarro. Não do cigarro da volta do almoço, nem o que acompanhava a madrugada solitária na varanda [embora esse fosse realmente muito bom]. O cigarro que mais me faz falta é aquele que ficava estrategicamente guardado para o momento em que o dia perdia horas de vida pessoal e ganhava mais horas de trabalho. “Hoje vai longe? Tá bom, então. Me dá cinco minutinhos que eu já volto”.

Aí era o tempo de pegar um cigarro no bolso, buscar uma cerveja na geladeira da empresa, sentar no varandão e ficar vendo os aviões descendo o corredor até Congonhas, ou encostar no parapeito e ficar vendo a Nove de Julho se acabar em trânsito. Estávamos no 11º andar e só tínhamos essas duas vistas. Era o suficiente para acalmar a cabeça, bater um papo com quem estivesse por ali e depois voltar para dentro da sala e tocar o trabalho até a hora que fosse.

Hoje, trabalho no 9º andar do Conjunto Nacional, na pontinha da avenida Paulista e embora o ritmo de trabalho seja outro, as pausas durante o dia seguem necessárias. Sem cigarro, claro. Agora é pausa pra esperar a garrafinha de água encher. E enquanto se espera, a mente divaga, de janela em janela dos prédios que ficam voltados para a copa do escritório. No pico das 16h dá para ver apartamentos com gente vendo TV, gente ao computador, gente fumando na janela e gente dormindo. Só o que não se vê é gente nas piscinas que, aqui e acolá, pintam de azul as coberturas vizinhas. Há dois meses [até menos, vai], era compreensível as águas paradas, abandonadas. Fazia frio, ventava gelado… Mas nas pausas da garrafinha de água eu sempre pensava: sendo eu em casa a essa hora, estaria na piscina, por favor. Garrafa cheia, pensamentos cortados, vida segue.

Só que agora o verão chegou. O verão, aquele verão que eu louvava em 2009, falando das roupas das meninas, dos inhos e inhas. Não é possível dar poucos passos pelas calçadas de Sampa durante os dias comerciais sem desejar voltar para o ar-condicionado do escritório o mais rápido possível. Começou o festival de roupa curta, decote, shortinho? Sim. Beber dois litros de água gelada por turno vale o preço? Sei não.

E de cara eu não tenho “direito” de reclamar. Nasci em Teresina, cidade que, esta semana, passeia entre os 35° de hoje e os 38° de sexta feira, e vai repetindo este ciclo praticamente todos os dias do ano. Fui criado dentro de um cenário muito mais aflitivo e aterrorizante. Não são poucos os dias em que batemos 40° entre o 12h e 14h. Meu couro é grosso para essas coisas. Mas se tem uma verdade muito verdadeira do serumano é que a gente se acostuma ao que é bom. Lembro do fascínio que me tomou a visão dos engravatados do Banco Safra, na mesma Paulista, saindo para o almoço de terno, gravata e o escambau em pleno janeiro de 2007, sem sofrimento algum. Em Teresina, essa cena seria impossível. Tinha um professor na universidade que gostava de dizer que “Teresina não é tão quente assim, é exagero. Aqui nós também temos ar-condicionado, sabia?”. Até aí…

Agora que minha garrafa de água já secou de novo, tenho mais uma daquelas pausas pela frente: será se vou me deparar com as piscinas vazias? Por favor, não me torturem mais, vizinhos…

A mania voltou

Assino o feed de um dicionário online, o Priberam. Assinar feed de dicionário me causa – e deve causar – uma estranheza compreensível e provavelmente estou explicando o óbvio quando conto que esse feed manda para os assinantes um verbete por dia.

Considero um mimo super legal. Não é o tipo de informação que muda meu dia, como seria se me apresentassem a um blog com MP3s em boa qualidade da última turnê do Walkmen ou algo do tipo. É legal porque ajuda a manter viva aquela mania que eu tinha quando moleque de, sempre que ia ao dicionário procurar algum verbete, voltar de lá com pelo menos dois ou três novas palavras lidas. Era interessante entende-las, alimentava meu vocabulário e não me tomava mais do que três minutos.

Para um curioso quase patológico [se você me acha incômodo hoje, saiba que eu já fui bem pior], uma diversão e tanto. “O que será que significa ‘vil’?” Abria o imenso dicionário e descobria que além de ser um adjetivo que definia muito bem os mesquinhos, os desprezíveis e os infames, também era algo “de pouco valor, que se compra por baixo preço”. A brincadeira não precisava seguir as palavras abaixo ou acima. Muitas vezes, meu olho se perdia na página ao lado e lá ia eu descobrir que vingar, além de tirar ‘desforra’ [o que significaria ‘desforra’?], também significava “crescer, prosperar (vencendo obstáculos)”. Para um moleque de 10, 11, 12 anos, esse tipo de informação parece quase inútil. Não usaria nenhuma dessas palavras na hora do recreio, veja bem. Saber é que era legal.

Uma vez dei essa dica do dicionário num post do Papo de Homem que mandava conselhos para filhos num dia dos pais. Um amigo me recriminou: “que dica coxinha, mané vocabulário pra conquistar menina”. Não soube bem o que responder à época, mas aqui fica a lembrança: vocês lembram do Alfie, certo? “New word for the day” e tudo o mais?

Lembrei de toda essa história de dicionário porque essa semana comecei a ler [depois d’uma longa busca por texto que desse continuidade ao ritmo que Nada me faltará do Mutarelli me impôs e que passou por Dostoiévski, Jorge Amado e Gabeira] um livro chamado O professor e o louco, de Simon Winchester. Se você for esperto – ou daqueles que sucumbem à tentação de ler orelhas e quarta capas de livros – vai descobrir que se trata da história do relacionamento entre o editor do Oxford English Dictionary e um dos maiores colaboradores do compêndio. O pouquíssimo que o título não entrega, a quarta capa o faz. Claro, é daquelas histórias em que esses “detalhes” são nada mais que acompanhamentos do prato principal que é o desenrolar da trama. Mas este é um livro que fala sobre dicionários, da paixão das pessoas pelas palavras de um idioma, dos limiares da loucura. E esta combinação inesperada me permitiu finalmente encontrar o sucessor de Nada.

Comparando com o que eu era na infância e com o que os sujeitos são no livro, o que sou hoje é bem distante dos dois. A correria sentada a que nos submetemos todos os dias faz desse um dos feeds que mais ignoro. A tal ida ao dicionário também se tornou rara. Hoje, me bastam uns clics e tecs para ter o significado de qualquer palavra, coisa que acontece com muita freqüência quando se revisa e edita textos jornalísticos para uma revista de Cultura.

A moleza acabou outro dia, quando depois de passar o café, estava esperando a queridona terminar seu banho lendo mais um trecho do tal livro. No colo, o celular, conferindo a hora. Ai esbarrei numa palavra que não conhecia. Celular no colo virou busca de palavra em dicionários online. Depois da terceira, tendo que usar um teclado qwerty minúsculo e precisando conviver com a falta de versões mobile para esses sites, lembrei do minidicionário no quarto do Renan.

E o prazer/mania da busca pelas palavras voltou.