Meu primeiro workshop

Em meados de janeiro fui convidado para ministrar um workshop no braço paulistano do Social Media Week, evento que acontece espalhado em bons pedaços do mundo e fala sobre… social media. Tema? Como fazer conteúdo para Twitter.

Na hora do convite, bateu uma insegurança: o que diabos vou dizer?, quem sou eu para falar sobre esse assunto?, vão ser duas horas de papo, como vou entreter essa galera por tanto tempo?


Ia ser preciso desenrolar. Acho que esse é um dos verbos mais fundamentais para quem se mete a fazer o que não sabe. Aprender leva tempo, dar pra trás não dá pé… Desenrolar também não é fazer de qualquer jeito, por óbvio. É dar quantas gotas de sangue sejam necessárias para que o resultado final seja o melhor possível. Desenrolar é a arte de preferir feedback positivo a elogio. Elogio é vazio. Feedback positivo é saber que atingiu a expectativa e cumpriu o seu papel. Qual você prefere?

Então, na terça feira (14), fui ao Museu da Imagem e do Som apresentar o workshop. Cheguei um tanto em cima da hora e entrei na sala dando de cara com o irmão Ian Black entretendo a sala cheia (umas 20 pessoas). Quando ele passou a bola pra mim, o nervosismo era tanto que nem esperei o relógio chegar na hora de início do evento. Sentei pau na apresentação com um único sentimento: vamo desenrolar.

Foi interessante pacas apresentar o workshop porque me descobri bom entendedor de uma área em que trabalho porque a vida caminhou pra isso. Quando abri minha conta de Twitter, nem sequer imaginava que um dia isso viesse a ser veículo para redação de conteúdo.

E por mais que meu ego fique tilintando e apitando, não foi isso que senti durante a apresentação. Sim, legal a galera indo lá na frente no fim me apertar a mão e trocar cartão. Sim, legal uns replies perdidos dizendo que curtiram e que esperam a apresentação publicada no slideshare. Sim, legal uma galera pedir pra bater um papo depois sobre broncas em específico de seus trampos. Quase me senti importante.

Mas não. Como estou treinando para sufocar isso [ou dedicar essa energia a outras coisas] e ver as coisas com clareza, achei mesmo massa foi ver que comecei a falar a primeira parte da apresentação e que meia hora depois só três pessoas tinham saído da sala. Foi legal não gaguejar. Foi legal não ter um ataque de prolixidade. Foi legal dar dicas e as pessoas anotarem.

Eu ainda duvidava se eu seria a pessoa certa pra falar sobre isso, se eu tinha cacife pra estar lá apresentando um workshop sobre esse (ou qualquer outro) assunto e no fim o mais legal de tudo foi ver que deu certo. Fico feliz, mesmo.

Depois de tanto falar de mim, entrego a quem interessar possa a apresentação que usei durante o workshop, sem tirar nem por. Muitíssimo obrigado a todos que participaram e compraram a ideia dos desafios. Obrigado mais que especial à querida Bia Granja pelo convite.

Bom proveito. 🙂

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Haja café

realidade

a imagem que inspirou o post

Sempre que alguém conta histórias sobre como uma boa caneca de café salvou aquele dia de trabalho que terminou às 05h, lembro de quando era freela na VIP e os espressos, mesmo péssimos, eram de graça. A bem da precisão, lembro do dia exato em que consumi cerca de quinze “cafezinhos”, junto com outros muito cigarros. A combinação das inas de cada um dos personagem me rendeu uma taquicardia feroz, combatida a muitos goles de água e mentalização de que a vida era boa.

Foi um cagaço leve. Nunca havia combinado tanto café com cigarros. Aliás, nunca havia nem tomado tanto café em uma ocasião só. Vindo de Teresina, trabalhando um turno apenas, em uma assessoria de imprensa com ambiente calmo e fluxo de trabalho intenso, porém justo, me recordo de apenas uma vez em que sai da minha sala para fumar enquanto bebia um cafezinho. Café, então, era algo que eu ingeria em doses cavalares com leite e mistos quentes, pela manhã.

Mas São Paulo cobra seus preços, claro. Dorme-se pouco, trabalha-se bastante [foi aqui que conheci a jornada de oito horas – quando só – de trabalho], se é exigido sem limites. Acho, hum, justo. Assim como acho justo o tamanho dos engarrafamentos em Sampa para as experiências e oportunidades que surgem e que você pode criar por aqui.

Então, após do episódio da taquicardia, aliado ao início das aulas da pós-graduação, diminui a combinação de café E cigarros e passei a apostar no café solitário observando o buraco da Linha Amarela do metrô [contemplável do fumódromo que ainda existia na Abril em 2007] e a fumar antes e depois do almoço, na saída do trabalho, no intervalo da pós e nas madrugadas “insones”.

Depois da Abril, na S², tomava café porque estava frio, porque só conseguia ir dormir depois das 02h [e às 09h precisava estar do outro lado da cidade e já no batente], porque não sabia trabalhar com publicidade e o cérebro precisava estar mais ligado que tudo para tentar contornar essa deficiência com atenção redobrada… E com o meu esforço em parar de fumar no fim de 2007, levado com dedicação e compromisso até meados de 2008, fiquei só com o café. Muito café.

Quando comecei a trabalhar na LiveAd, o dito era líquido sagrado. Com Ian Black, aprendi a tomar energéticos [degenerei para o bem], e com Rachel Juraski aprendi a operar uma cafeteira [sim, eu era outsider a esse ponto]. Os dias eram mais frios ainda que na S², a bucha era mais pesada ainda [vocês não têm ideia do trabalho – maravilhoso – que deu colocar o Yahoo! Posts no ar] e as canecas cheias se multiplicavam… Seis? Sete por dia de trabalho? A entrada na LiveAd coincidiu com a volta ao péssimo habito do cigarro [que abandonei novamente em setembro de 2008 e que sigo sem até hoje], mas nunca como algo para aliviar o trabalho. A dureza do cigarro veio por outros motivos. E segui assim, lutando para deixar o cérebro mais acordado, lutando para conseguir trabalhar mais uma, duas, três horas. Depois, no R7, entrando às 06h, o café voltou a fazer parte da primeira refeição do dia [e delas vieram os quilos que não me largam mais], segui dormindo pouco e precisando ficar acordado mais tempo… Hoje, trabalhando num horário fixo e agradável, tenho tomado cada vez menos café [e energético agora só com vodca].

A presença do chá na copa é claro que ajuda a troca, mas também tenho tomado menos chá. Acho que tanto abuso do corpo levou a uma certa intolerância e à avaliação de que é preferível tomar apenas uma xicará de café por dia e vigiar melhor meu ciclo de sono do que alopra-lo com líquidos das mais diversas procedências apenas para me manter alerta. Acho que também é o medo de aloprar ainda mais meu organismo – reflexo da consciência crescente da minha falibilidade, significando que sim, estou ficando velho de juízo.

Não tenho uma conclusão bonitinha ou que elevará seu espírito. O texto era só isso mesmo, pra dizer que tenho tomado menos café. Agora deixa eu ir acolá, fazer uma xícara de chá [dessa vez, preto, que a sexta feira vai ser longa…].

Pode abrir o sorriso, mãe

Maldito seja o sumiço do Belchior. O chavão do rapaz latino-americando de 25 anos sem dinheiro no banco ou amigos importantes já era batido antes do bigodudo sair do interior e voltar às graças do falatório. Mas agora que ele virou eremita-tradutor-da-divina-comedia-recluso-quase-incomunicável, a citação está praticamente proibida em qualquer texto sobre idade, grana, relacionamentos e perspectivas que se preze.

Assim, mudo de tom, tema e discurso.

É ter paz quando por a cabeça no travesseiro, conseguir manter quente faz bem, perto. Parabéns, mamãe, seu projeto de homem feliz deu certo

EMICIDA – A Cada Vento

Todo dia um pouquinho, descobrindo a vida de família classe média, pagando o cartão de crédito chorando, guardando moeda no cofre para o presente de natal, procurando aliança significativa [e barata], dormindo à tarde para ficar acordado a madrugada inteira com ela, pedindo delivery de temaki à 01h da manhã, fazendo samba e amor, batendo perna na Paulista, planejando mochilão para a Europa, aprendendo a cozinhar, deixando e pegando na Rodoviária, construindo uma família, imaginando um lar, lavando a louça, aprendendo a cozinhar, comprando batedeira, assando o primeiro bolo de chocolate e outras felicidades dentre as tantas que a vida oferece.

Claro, nessa vida se encontra desafios que estão mais para tristezas paralisantes, mas é nesse momento que a fibra do sujeito se mostra.

E hoje, a minha se mostrou.

E agora são dois anos

Era madrugada de 26 de janeiro de 2007. No aeroporto estavam comigo minha mãe, minha irmã, um primo querido, alguns poucos amigos e ela. Sâo Paulo havia completado 453 anos dois dias antes e agora lá ia eu dar meu parabéns ao vivo e em cores.

sampa
Minha mãe já não dizia mais grandes coisas, só me olhava. Eu podia sentir o aperto no peito dela. “Cuidado, meu filho. E boa viagem”. Assim, sem delongas, sem choro. Um último abraço na irmã [“cuida da mamãe, tá?”], outro nos amigos, um beijo demorado com sabor de lágrima e saudade nela e lá vim eu.

Durante este tempo todo em que estou por aqui, depois de ter passado por períodos dos mais diversos, intercalando solidão sofrida, andanças pela cidade, descoberta de pontos preferidos, saudade, saudade, saudade e saudade, eu finalmente me toquei de que não adianta reclamar de nada. Que o que adianta mesmo é simplesmente seguir, seja na vida, no trabalho, no amor. Seja sozinho ou mal acompanhado, o ônibus vai permanecer cheio, a chuva vai continuar de canivetes, o tempo vai seguir passando rápido demais.

Depois de certo tempo batendo perna por aí, quando consegui me orientar olhando apenas para um ponto qualquer da Avenida Paulista [e decorando a sequência de ruas que desembocam na Consolação], senti sim que São Paulo poderia me abraçar como filho.

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Na virada de 2007 para 2008, laços que não quero perder nunca, qualquer que seja a minha posição no globo, já estavam estabelecidos. Foi a primeira vez em que eu senti saudade de São Paulo, das suas ruas, avenidas, fumaças e barulhos. Foi o primeiro sinal de que me sinto realmente em casa por aqui.

Outros vieram com o passar do tempo. Como quando penso em ir morar no Rio de Janeiro, para ver minha sobrinha crescer, ou quando pensei em ir embora, e uma saudade bem típica da minha personalidade despontou.

Hoje, enquanto trabalho e comemoro dois anos de Sampa, fico feliz em pensar que não tenho data para deixar a paulicéia desvairada. Fico feliz de me sentir em cima do muro e não saber onde chamar de “lar”, não porque tenha que ser um ou o outro, mas porque podem ser os dois, Teresina e São Paulo.

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Afinal de contas, home is where your heart is. E uma parcela do meu já se sente à vontade para tirar o sapato e abrir a geladeira quando chega por estas bandas.

Que outros anos venham.

Mas que beleza de calor, hein?

A estação mais quente do ano tem seus encantos e escreve poemas visuais.

Como já dito inúmeras vezes, sou de uma cidade em que o calor domina. Em que é quente o tempo todo, todos os dias. Em que se sua mesmo estando parado. E onde não venta.

Assim, quando vim para São Paulo, finalmente pude comprovar o que são as chamadas frentes frias, mas, em destaque, as estações do ano. Verão, outono, inverno, primavera, verão… Tudo bem dividido, mesmo que tudo no mesmo dia. E quando se tem a possibilidade de encontrar pessoas empacotadas, de cachecol, capa de chuva e luvas – no inverno -, ver tudo se transformar para receber o calor do verão é uma honra.

Não que eu não goste de frio. Na real, adoro. Mas quando o verão e seu calor chegam, o que me chama a atenção são as mudanças no vestuário feminino. Ah, as mudanças de vestuário feminino.

De repente, as mangas somem e lá vem as alças, mostrando braços e ombros. As calças viram bermudas ou shorts e apresentam a nova estação às pernas. Os vestidos querem encontrar os joelhos e as saias se afastarem deles – ambos brincam com as formas das coxas e dos derrières. Os decotes querem dar um pouco de sol para os seios, tanto tempo aprisionados dentro de casacos e moletons. Os pés ganham liberdade nos chinelinhos e sandalinhas. Tudo tão encantador… E confortável também, claro. Com um calor intenso, que mulher gostaria de ter que encarar uma calça jeans ou um terninho? Conforto para o dia-a-dia para elas, prazer visual para nós.

espetaculo

Eis então que caminhar pela cidade é uma deliciosa brincadeira para os olhos. Para onde olhar primeiro? Para a mocinha que caminha faceira pela Avenida Paulista, com as pernas dando bom dia aos passantes, ou para a mulher que oferece os braços enquanto amarra o cabelo?

Isso sem falar das cores, dos tecidos, dos cortes. Das flores, dos cheiros. Aliás, é a época dos diminutivos, dos vestidinhos, das blusinhas, das sainhas… Uma época em que os encantos físicos das mulheres se apresentam. E não quero ser açougueiro aqui, óbvio. Só me encanta a idéia das moças, garotas, jovens e mulheres voluntariamente nos oferecerem este espetáculo. Não é só um desejo por ver carne, é o prazer da visão.

O verão, mesmo que uma tormenta quando se pensa nas altas temperaturas que experimentamos, tem e mostra suas belezas. Não sei se as meninas adquirem a mesma “vantagem”, mas pense nisso quando for reclamar do calor de novo.

Texto originalmente publicado na minha coluna de hoje no Yahoo! Posts.

Um dia lindo de morrer

Quando eu lembro de ontem, arrepia.

Nos últimos fins de semana a coisa tem sido meio modorrenta. Grana curta, frio “rascante”, preguiça, os mesmo programas de sempre, novidades bloguísticas… Sempre havia um “bom” motivo para ficar embaixo das cobertas, vendo um filme ou inventando mais uma demanda para o dia-a-dia. Maquinar, sabe como é.

Daí que sexta-feira, ao chegar do trabalho, já havia uma programação definida: bar ver amiga de amigo + show de ska da banda de amigo de amigo. Acabou que, por preguiça, ficamos em casa, eu e o amigo Jader. Dhuba estava por ali, em posição de lótus na frente do video game, eu catei uma garrafa de Mangueira esquecida na geladeira e mandei cinco shots pra dentro. Jader fez o mesmo e terminou de secar a garrafa. Óbvio que isso fez a noite. Não precisamos sair pra outro lugar.

Daí começou o dia sagrado: o sábado.

1 – Acordar às 08h, sem ressaca, só com sede? Ponto para o sábado;
2 – Encontrar a família do amigo, depois de boas semanas de sumiço? Ponto para o sábado;
3 – Acompanhar amigo e mãe do amigo na concessionária, escolher o carango novo? Ponto para o sábado;
4 – Seguir para Sampa encontrar uma amiga do amigo, a gente finíssima, bem humorada, bonita, engraçada e disposta Francisca, tão charmosa quanto o nome? Ponto para o sábado;
5 – Bater perna na praça Benedito Calixto, num dia de clima ameno, jogar conversa fora, falar de Madonna, apostas, vinis, tomar um café e ver os preparativos finais para um casamento numa igreja do lado? Ponto para o sábado;
6 – Ligar para a amiga Carol Bazzo, a convocar para o show de China e Mombojó e receber pelo tom da voz dela um abraço ali mesmo, pelo celular? Ponto para o sábado;
7 – Bater perna pela Livraria Cultura, vendo, escolhendo e perdendo livros, testando o fantástico Manual do Xavequeiro, dividindo pequenos trechos de livros aleatórios e aforismos prediletos? Ponto para o sábado;

8 – Ver a noite esfriar rápido e mesmo assim seguir para a estação de Metrô Santa Cruz e assistir uma batalha de MCs no estilo 8 Mile, em que o irmão do Jader, mais conhecido como Mc Bino, mandou super bem? “Tem que ter suingue, tem que ter suingue, no Santa Cruz o metrô é o ringue”? Ponto para o sábado;

9 – Fazer o caminho do Metrô Santa Cruz até o StudioSP com o pretenso sonho de conseguir rimar como aqueles carinhas e no mínimo conseguir rir muito com as idiotices ditas, fazer esquenta num bar do lado, tomando uma Brahma geladíssima na fria noite de Sampa, ouvindo Calcinha Preta e Queen? Ponto para o sábado e
10 – Ir para o StudioSP para assistir a um show dos dois artistas pernambucanos que mais admiro, China e Mombojó, me acabar com as escolhas do DJ Tatá Aeroplano, vocalista da banda paulistana Jumbo Elektro [que mandou, no meio de tudo, um alucinado Tuareg, dos primeiros anos da Gal Costa], cantar praticamente todas as músicas, dançar, beber cerveja, gritar mesmo com a garganta inflamada, lembrar do primeiro show do Mombojó em Teresina e perceber a evolução dos “meninos”, finalmente ver um show do China, me divertir afu, sair do Studio completamente sem voz, sem pernas e sem uma gota de tristeza na mente? Ponto para o sábado.

Depois de muito tempo sem grandes idéias do que fazer no fim de semana, num dia só consegui programas variados e divertidos, com papos engraçados e sérios, longos e curtos, irônicos, mas bem humorados sempre. Há tempos eu não tinha um sábado tão empolgante assim, com tudo se encaixando, fluindo, apenas sendo. Conhecendo gente nova, reencontrando gente bacana… e pensando que a gente reclama mesmo pra ter o que achar ruim da vida. Drama bobo, entende?

Ontem foi um sábado tão bom que rendeu até pacto: “por sábados mais felizes”. Ontem? Ontem fez um sábado lindo de morrer.

4ª carta

Na parábola bíblica, Babel era a torre que queria chegar aos céus. Diante de tamanha afronta, Deus (ela mesmo, a Alanis) mandou um raio e ZIP!, mudou a língua de todo mundo e ficou cada um falando um idioma diferente.

No filme Babel, a língua é uma puta barreira para todos os personagens do filme. Inglês, espanhol, ‘marroquino’, japonês, linguagem de sinais, tudo é barreira para que as pessoas se entendam.

Claro!

Na cidade ‘babelística’ de São Paulo, a barreira é o silêncio. Tal como naquela festa relatada na Bravo! que li indo para Jeri [aquela, do Paulinho da Viola e do Arnaldo Antunes na capa], capa um está imerso no seu próprio MP3/MP4 que toca até 12h seguidas com a mesma pilha AAA [essas você encontra no Pão de Açúcar por R$ 6,29 o par].

Cada um está imerso numa realidade diferente de sons. Cada um está mais isolado ainda do outro, perdido entre Mombojó, Ludovic e Chico & Caetano [como eu], ou emocore, metal, samba, rap, hip hop, whatever

Os paulistas não tem costume de serem tão abertos ou educados [no nosso ponto de vista] quanto nós. Talvez seja o clima, os genes, ou apenas medo.

Eu já falei disso em outra carta, mas é tão marcante, tão presente, que o silêncio nem incomoda mais. Tenho medo de me tornar um deles.

A falta de alguém para conversar, beber a Absolut que está no meu guarda-roupa ou para apenas dividir o mesmo ambiente faz de mim recluso do meu silêncio.

Imagine você não ter com que ou porque falar durante horas seguidas. Imagine que eu não tenho ninguém para compartilhar os dez filmes que eu vi durante o Carnaval. Já não está doendo tanto assim. E só faz um mês que aqui estou.

Um dia, um pouco antes de começar na Abril, perguntei a um amigo o que eu deveria estar atento quanto aos paulistanos. “Eles são um povo que não acham legal quando você chega querendo abafar. Ouça e observe”, disse ele, mais ou menos isso.

E assim tenho feito. É como em “Little Miss Sunshine”: voto de silêncio e observação. Always.

Carnaval, carnaval, carnaval
Fico tão triste quando chega o carnaval

[Luiz Melodia]

Sabe que eu nem fico mais triste? Esse talvez tenha sido o Carnaval mais sereno da minha vida. Saudade? Claro! Mas a cada sessão, a cada filme, pessoas diferentes pediam licença para adentrar minha vida. Cada personagem vinha de um canto diferente, falava de um jeito diferente, pedia uma coisa diferente.

Essa novidade constante, essa coisa de histórias novas em todo canto, me deixava mais relaxado, mais tranqüilo. Cada rosto conhecido que eu não encontro em cada esquina que eu dobro me faz pensar melhor em cada passo que dou.

Uma coisa que me acalenta é que eu leio mensagens de celular, no msn ou e-mails escutando a voz de quem escreveu dentro da minha cabeça, como se ela lesse o texto.

E há vozes [sim, a sua…] que, mesmo não querendo, eu já começo a esquecer. E eu não quero isso. Juro!

Tenho uns postais bacanas para enviar. Do pub irlandês que fui outro dia, peguei 14. Preciso do endereço completo dos interessados.

E, por favor, não me deixe[m] esquecer sua[s] voz[es]. É isso que me enche de alegria.

Pedro Jansen
20.02.07