ainda vai levar um tempo.

Começou dentro de um bus lotado indo para o interior do estado, como naquela volta do interior de outro estado, naquela viagem que não foi nossa, tu nem tem como te lembrar: cheio de gente de pé, um calor sofrido, sol impedindo qualquer janela do lado esquerdo de ficar com as cortinas abertas. Remontei esse momento e aquela fuga para o feriado no litoral, vivido com outra história (engraçado parar pra pensar agora e me tocar que esse fim de semana esteve há exatamente sete anos daquele outro feriado) por acaso, mas é algo que me surge agora inevitavelmente. Talvez seja pelo assunto no geral.

Dessa vez, ao invés de uns caras mal encarados se escorando no braço da nossa poltrona, três crianças de traços asiáticos falavam misturando frases em idioma indecifrável e em português fofo (a mais nova tinha coisa de 9 anos e era uma graça de nariz minúsculo e sorriso de dentes fartos). Enquanto elas falavam, alguém perguntou “quem lembra daquela música do Lulu Santos, aquela que fala… como é mesmo?”. Toda a imprecisão do momento abriu espaço para que a biblioteca que carrego (e suspeito que tu e tu e tu carreguem também) do maior astro do pop nacional se abrisse na minha rádio mental. E começou aquela.

Aquela que ficou tão batida na abertura da Malhação.
Aquela que é tão cheia de clichês.
Aquela que fala tantas verdades inescapáveis.

Sim, ainda vai levar um tempo: seja pra fechar o que feriu por dentro, seja pra gente poder dar risada.

Sim, é natural que seja assim, tanto pra você quanto pra mim.

Quando você me pediu para contar a nossa história e eu me neguei; quando eu torci para que o nosso próximo encontro fosse fora daquele teto, em meio a outra rotina, envolto em outras expectativas; quando eu deixei para responder as suas mensagens depois; quando eu me mudei; quando eu silenciei e chorei e fiquei imóvel e preferi abdicar das noites e das madrugadas, nada disso foi por economia, por medo da terapia, por falta de louça na pia ou por preguiça.

As coisas da vida só precisam de um tempo, rotação e translação ao redor de si e de outros corpos celestes carregados de gravidade e atração inexplicáveis. Movimentos independentes da nossa vontade. Ninguém pergunta ao Sol se ele quer girar mais uma vez. A Terra não tem crises existenciais se precisa ou não de mais uma volta. Estamos em outro nível hierárquico, não mandamos em nada. Tudo isso também é inaplicável ao contexto do cotidiano. Não, eu nunca te quereria mal. Vê: quanto tempo se passou desde aquela manhã de domingo quando acordamos cheios de tristeza – tristeza capaz de secar todas as plantas do jardim, capaz de encobrir todo o sol das manhãs de domingo cheias de panquecas massudas demais (eu nunca sei e acho que nunca vou aprender o limite da farinha de trigo nas receitas que eu me meto a fazer)? Até hoje, nenhuma palavra. Tudo suprimido, engolido, negado.

Até hoje, nada de panquecas.
Até hoje, nunca café com canela.
Até hoje, nenhuma receita inventada torcendo pelo teu sorriso.
Até hoje, nenhum bolo de maçã feito com os restos do crumble.

Só uma tentativa mais que desesperada em dizer quantos sims fossem necessários para me levar para tão longe quanto fosse possível de tudo isso. Daquela manhã de domingo em que decidimos conversar.

Sabe, quando eu ouvi Paulinho falando que acontece, eu me senti tão, mas tão bem por dentro. Eu senti como se fosse abraçado por alguém que entendia de fato o que eu passava. Eu senti como se estivesse sendo perdoado. Eu me senti perdoado. Eu me senti algo como livre. Como se me fosse autorizado também sofrer do meu lado, sofrer como eu sofria. Sofrer em silêncio, maturando o que eu nem sabia como nomear. Tudo tão novo e tão triste (ainda que sempre cercado de sorrisos, tudo ímpeto de seguir dizendo sim e me distanciar…).

De todas as coisas que eu vi e aprendi desde aquela manhã, a que não só me surpreende como também me maravilha é que não quis deixar de ouvir nenhum dos nossos clássicos só porque aquilo que a gente sempre soube que um dia ia acabar enfim acabou. E essa sensação é maravilhosa. Eu me sentiria muito mal se isso acontecesse.

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Mas não me sinto mais mal pelas escolhas que fiz. Pelos passos que dei. Todos foram necessários, urgentes. Dolorosos. Como foram dolorosos. Essa é a primeira vez que falo tanto sobre isso sem que ninguém esteja ouvindo. Lembro como tu dizia sentir uma certa pontada de inveja das vezes em que rasguei o coração escrevendo sobre meus relacionamentos. Lembro quando te disse que em algum momento eu iria escrever e tu me respondeu com um “eu não vou ler”.

Bom…

Então ainda vai levar um tempo. Como eu te disse naquela nossa última ligação. Não sei quando aquele encontro embaixo de outro teto e com outro clima vai acontecer. Mas lembrar do Lulu, da música clichê e consequentemente de tudo isso que escrevi aqui em cima, putz, que alívio. Agora é esperar.

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