“devo estar preparado para acolher meu pai”

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Um dia minha avó paterna morreu e esse fato, triste mas ainda assim um tanto vazio de significado pra mim, serviu para que eu chorasse. Não pela senhora dona Madalena, com quem tive pouco tive contato amoroso e carinhoso. Acontece que quando dona Madalena faleceu, todos os tios e tias que viviam fora de Teresina regressaram à cidade para enterrarem a velha.

Essa reunião, depois do velório e do enterro, rendeu uma cervejada num restaurante lá nos confins do Poty Velho (talvez no Pesqueirinho?), com dois dos tios, meu pai, e mais uma renca dos amigos da infância que tinham apreço pela dona Madá. Um trabalhava no Ministério do Trabalho, outro tinha uma revendedora de carros e um Del Rey, outro eu não lembro o que fazia e o último, por fim, era advogado e poeta.

Durante a tal cervejada, mães e filhos foram sumindo, indo embora, ou nem foram – preciso considerar que a memória falhe. Calhou que eu fosse um dos únicos pequenos por lá, sentadinho num canto, ouvindo todos os homens falarem, contarem histórias do tempo em que tinham a minha idade. Foi então que, depois de sei lá quantas antarcticas, o advogado/poeta (não lembro teu nome, mestre) começou a recitar seus poemas. Não foram poucos e todos eram de alguma maneira muito bons, tocantes, sonoros, profundos. O tema de um deles ficou na memória e falava sobre o esforço de um filho que era pego de surpresa pela morte do pai e precisava correr a vizinhança inteira juntando tostões para cuidar do enterro do velho. Recitava muito bem, o poeta. Certo que fazia defesas igualmente inspiradas naquele escritório perdido entre a Rio Branco e a PII.

Pois bem: esse poema foi o que me fez chorar depois de todo o processo de ser acordado pela minha mãe numa certa manhã para saber que havia perdido minha avó (a primeira morte que vi acontecer), de passar por um velório, de receber minha Tia Gê em frangalhos no Aeroporto, de ouvir a ladainha dos terços encomendando a alma da senhora, de sentir o perfume da minha avó pela casa e pelo quarto dela (cânfora dentro do álcool e muito talco) e de todos os outros momentos que se seguiram do acordar até o verso final daquele poema auto-biográfico (como o Poeta contou depois).

Ao fim do poema, chorei. Mentira: já do meio pra frente, chorava como um cabrito esfomeado. Chorava de molhar a cara, de tentar esconder o choro, mesmo que de um jeito ou de outro, todos os homens ali naquela mesa, naquele momento, chorassem.

Um dos amigos dos meus tios e do meu pai, ao me flagrar chorando e com a voz igualmente embargada, deu tapas na minha perna esquerda emendando um “sei que tu vai ser um grande homem, só os grandes homens choram ouvindo um bom poema”. Imagino hoje que ele gostasse de ser bondoso consigo mesmo, já que também chorava. Mas eu, que já àquela época não dispensava um elogio, tomei naquilo uma das amostras de que seria alguém de valor, de coração bom, sensível para as coisas do mundo e da alma.

Outro ensinamento que o Poeta me deu foi quando, depois de tanto choro e mais algumas cervejas, finalmente levantou para ir ao banheiro. “Um dia tu vai tomar cerveja e vai sentir vontade de mijar, então aprende logo: depois que tu mija uma vez, não pára mais”.


O Poeta havia editado um livro, de capa rosa e que falava sobre amor. Nele também estava o poema sobre a morte do pai.

Quando fiz a sétima série, passava as tardes reforçando as aulas da manhã com uns professores particulares. Junto comigo, havia outras crianças e, lembro bem, duas gurias da oitava. Mais velhas, mais gostosas, mais cheias de malícia. Até aqui os dois fatos não se conectam.

Li o livro do Poeta e me emocionei bastante. Um dia, uma das gurias pediu meu livro emprestado para levar para uma aula no colégio, precisava apresentar algum livro de poesias. Eu havia falado bem do livro para ela e sua outra amiga – prima de um amigo meu.

Emprestei o livro e ela nunca me devolveu. Em retribuição, num dia em que conversávamos frivolidades pré-adolescentes longe dos olhares dos professores, baixou meu calção até a altura do joelho. A malícia dela certamente ainda não era sexual, mas sim em ser filhadaputa. Tudo bem (quando se está de cueca).

Nunca mais vi as duas gurias. O amigo primo de uma delas ainda é meu amigo.

Perdido o livro e muitos anos depois, volto a me emocionar com a poesia. Fabrício Corsaletti é o responsável. Só li um livro dele, Esquimó, que ainda me marca muito, profundamente.

Vez ou outra lembro de um poema dele em especial desse livro. Não, não é Seu Nome, uma obra prima fantástica e embasbacante.

O poema que mais me lembro é esse:

POESIA E SOCIEDADE

os móveis abandonados
e os óculos dos doentes

— não são imagens
do meu remorso

as janelas basculantes
e as grades dos edifícios

— vou criar porcos
em Araraquara

as embalagens de plástico
e as obras de artistas plásticos

— quero que a moça do telemarketing
venha comigo

as garagens numeradas
e as vozes do linchamento

— ouvirei o canto do galo
com amargura

a simpatia dos garçons
e o riso das professoras

— devo estar preparado
para acolher meu pai

as reuniões de condomínio
e os últimos lançamentos

— meu único gesto sincero
depende de garfo e faca

E me lembro dele sempre que lembro do meu pai. E em outras situações também. Mas sempre pelo mesmo verso, mesmo que eu não lembre do meu pai diretamente.

Não nos falamos há algum bom tempo. Desde 2011, se minhas contas não falham. Ele fala com ela de quando em vez, mas também não sei a última vez em que se falaram. Não sei como anda a gota. Não sei se ainda usa barba. Não sei se já viu a neta (muito provavelmente não). Não sei com que dinheiro vive, qual seu prato predileto hoje. Não sei se toma café ou se ainda torce pelo Vasco (deve se considerar vascaíno, ainda, mas torcerá?). Não sei se ainda vai a bares e não sei quem são seus amigos. Se vive pelas situações. Se sente saudade e de quem. Em quem meu pai pensa quando vai dormir? De quem será o nome que se forma quando ele sonha? Quais as lembranças mais caras que ele carrega consigo?

Sempre que eu começo a elencar essas perguntas, a enfileira-las como se fosse soldados inimigos que eu desejo matar com uma bala só, sempre que esse momento chega eu me sinto molhado no olhos e na alma. Como se caísse numa poça profunda de inadequação, culpa, egoísmo e incongruência. À medida que envelheço, por mais que nossos vícios não sejam os mesmos, mais me reconheço nele. Me reconheço nele até nos desvios que me obrigo a praticar. Ser mais educado. Ser mais atencioso. Ser menos ausente (nesse falho miseravelmente).

Quando ia ao Rio e visitava a casa de minha tia, onde ele mora, havia recortes de jornal pra mim, e fascículos de alguma série sobre música de algum jornal. Amareladas pela espera. Seria assim que ele demonstraria afeto?

Conversando com um parceiro recente numa viagem a trabalho para São Paulo, falamos sobre os amigos da vida inteira com os quais, infelizmente pela distância ou outro motivo bobo, perdemos a fluência no tratar. É inevitável, as coisas nunca são como esperamos e os rumos que a vida toma te surpreendem de maneiras que tu sequer tem capacidade de imaginar até que eles estejam diante de ti. Se hoje sentasse numa mesa com meu pai para conversar sobre a vida, imagino um momento superficial, quase vazio de significado e ainda carregado de ressentimentos. Então por quê? Que siga o silêncio, até que ele vire outra coisa (arrependimento?).

Um dia, aquele dia para o qual devo estar preparado vai chegar. E o que eu vou decidir?

Para isso o Poeta não me preparou.

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Os pés verdes da galinha

Na frente da casa o velho esticava as pernas, olhando para o tempo, curiando por cima da mureta o que se dava na rua. Quase nunca dizia nada, falava como se jejuasse. Só observava, sentado na cadeira de balanço. Tomava três doses de remédio para diabetes todos os dias: uma logo de manhã com o café preto, uma depois do café seguinte ao almoço e uma por fim ao cair da noite, no café que encerrava o dia. O último era acompanhado de um cigarro de palha que ele mesmo enrolava, às vezes, fonte fugaz de prazer.

Os pés verdes da galinha

Do outro lado da casa, Köves conversava com as galinhas enquanto distribuia xerém às mãozadas. Chamava-as por nomes e se impacientava com a falta de resposta das frangas. Uma era Carlinda, outra era Beliza, mais uma, Esmeralda (tinha os pés verdes, veja que estranho). Os galos não ganhavam nome, e isso nada tinha a ver com sua porção de xerém. Toda a propriedade animal de Köves se resumia àquelas três galinhas com nomes de mulheres e dois galos, um vermelho e outro com as penugens do peito quase xadrezes em verde e azul. “Fico feito um rei toda vez que venho aqui em cima, dar de comer a vocês”, entreouvi de longe numa tarde de outubro. A recompensa era uns ovos, um despertador, um ritual, uma coisa para se amarrar à vida. Quando a corda de um dos bichos já estava próxima de arrebentar, Köves me contou que lhe esticava o pescoço até estalar e ainda peidava na cara do recém-morto, “que é pra garantir a morte ligeira e ainda fazer uma troça”. A avó havia ensinado a ele a técnica ridícula. (Na próxima posta separava um ovo para as galinhas chocarem, e o ciclo de Carlindas, Belizas e Esmeraldas seguiria sem fim – muito embora os pés da terceira nem sempre fossem verdes.)

A ave era preparada ao gosto da sorte: cozida bem, na pressão e ao molho pardo, se a bicha já ia velha; ou rapidinho numa canja forte com cenoura, maxixe, batata e abóbora, se a franga ainda era novinha. Chupávamos tudo, até os dedos, logo depois dos ossos. Em silêncio fomos aprendendo que partes eram nossas prediletas. Ao velho, as coxas – e disso eu já sabia das idas à varanda ou ao quarto (no quarto era pior) para lhe medicar -, Köves preferia a carne do pescoço, chupava as juntas até não sobrar lasca de carne. Eu gostava das asas, as comia em ritual (não há razão para revela-lo aqui). O velho era sempre o mais voraz, comendo tudo como se não pudesse suportar nossa companhia ou o som dos outros talheres batendo nos pratos. Assim que róia as cartilagens dos ossos das coxas das galinhas que Köves criava e matava, estalando pescoço e peidando na cara, levantava como as pernas permitiam, e seguia para a varanda, esperar o café que eu lhe faria e adoçaria com rapadura.

Quando janeiro chegou ao meio e faltava exatos 8 dias para o aniversário de Köves, o velho parou de tomar seu remédio. Algum problema para engolir ou coisa assim. Uma noite, por mais que eu insistisse, não levantou da cadeira para dormir e passou a madrugada na varanda. Acordou morto. Saímos para beber o corpo. Köves sorveu seu copo em um gole só, não queria sonhar com outro, não havia dinheiro para mais duas cervejas. Recebeu o copo cheio e não descansou até batê-lo na mesa já vazio. Voltamos para casa e enterramos o velho no quintal.

Passamos a dividir as coxas, como se ninguém houvesse morrido.