Pelo registro

Hoje a pequena-amarela lembrou de um vídeo da sobrinha tentando empalar a gata Maroca no melhor estilo Felícia e refrescou na memória a existência do Qik. Instalamos a ferramenta nos espertos, setamos tudo e saímos atrás de mais um móvel pra casa. Da rua fizemos um vídeo. Pequena me perguntando sobre as expectativas pra compra e eu gastando verbo a respeito. Quando encerramos a conversa e ela apertou o stop, um play foi dado no meu cérebro: estamos com o registro desse momento disponível na internet.

Ai é que vem o ponto de virada, com o nosso total desapego em divulgar isso. Usamos o espaço do Qik apenas como repositório de memórias, pequenos trechos da nossa história gravados e disponíveis para enriquecer a contação do que chamamos de ‘nós’. Meus pais me fotografaram, alguns amigos têm filmes de quando eram crianças, mas nada se compara à possibilidade de arquivar aquilo enquanto acontece.

Estamos cada vez mais próximos de registrar a vida que passa diante de nossos olhos sem a necessidade de uma experiência de quase-morte e um videocassete a postos. Mas a importância do que o amigo Marcelo Rosa chama de pen drive da vida continua alta: ao chegarmos em casa, constatamos que o vídeo da Teodoro Sampaio fora perdido.

As possibilidades, no entanto, superam a decepção. Há, claro, os que usam a ferramenta como meio de transmissão de conteúdo, compartilhando conferências, debates e outras seriedades. Nós, no máximo, buscamos a memória perene. Obrigado, internet.

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Maldita memória olfativa

A última vez fora há três meses.

Então, no ônibus, uma lufada trouxe de novo aquele perfume para minhas narinas. As terminações nervosas foram sensibilizadas, o arquivo da memória prontamente acessado, as cenas e as texturas reavivadas, o corpo respondeu com um arrepio, os olhos com uma busca sem sentido e o cérebro martelou o caráter desnecessário daquelas reações todas.

Obrigado, superego.