“Turn emotion to devotion”

We all hail hail from rock and roll!
[The Von Bondies, in It Came From Japan (2001)]

O Lester Bangs de Almost Famous errou a mão no drama quando disparou para um William Miller esperto mas ainda pouco malandro que “it’s just a shame you missed out on rock ‘n’ roll. […] It’s over. You got here just in time for the death rattle. Last gasp. Last grope.”

À revelia da sentença de Bangs, ainda vamos muito bem de rock ‘n’ roll, obrigado, porque o passado é uma roupa que não nos serve mais e hoje até o funk carioca pode bater no peito para chamar o sangue roqueiro à luta.

Essa é uma visão bem otimista, diriam muitos que conheço. Claro, e com toda razão: o modelo de rock ‘n’ roll que Bangs condena à morte é aquele que ainda não se subvertera à indústria, ao entretenimento, à fórmula.

Não precisamos elevar a linha de corte sempre, pelo menos. Algumas vezes precisamos apenas de um Big Muff. OU de um bom riff. Mesmo que você tenha a impressão de já ter ouvido aquilo. Iggy Pop? “Amen!!!”

~ publicado originalmente em 2009 ~

“Vocês não estão entendendo nada!”

As imagens falam por si, as declarações complementam o que as imagens não dão conta e o o “well” de Caetano ao fim do vídeo é o denominador comum mais interessante e inescapável do que foi a Tropicália: um movimento de vanguarda, incompreendido, que “tomou de assalto” a cultura brasileira e se fartou com tudo que quis e cuspiu sem cerimônia o que não lhe interessava.

Desde já muito ansioso pelo resultado final e, como bom piauiense, curioso por saber como vão tratar Torquato Neto no meio de todo esse resgate histórico.

“Como é perversa a juventude do meu coração”

No apartamento, oitavo andar, abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa: teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu
[BelchiorParalelas, in Coração Selvagem (1977)]

Sou feito das caminhadas na noite, da correria para chegar em casa, da comida arriscada, do silêncio, do vazio, do absorto e do absurdo.

Muita gente interpreta mal a solidão, acha que é coisa de gente depressiva, de quem não tem amigos ou de quem carrega consigo um estigma – o da timidez. Mas todos, até os tímidos, teriam por quem gritar da janela do oitavo andar, se auto-proclamando infinito do gritado.

Mas se gritam, arriscam o solitário silêncio. Isso é o de menos, considerando que o silêncio, o grito, a multidão e a solidão estiveram e estarão por tempo suficiente dentro de você.

~ publicado originalmente em 2009 ~

“Never hear the bad news”

Oh, I’m just like you, I never hear the bad news – and I never will. We won by a landslide, our troubles are over.
[The WalkmenIn The New Year, in You & Me (2008)]

Só mais um passo, mais um dos passos longos – esse ligeiramente maior que as pernas, mas insuficientemente grande para apagar a satisfação do momento.

Repete-se que a comunicação ocorre quando os lados de um diálogo se entendem. Pois que o não seja entendido como algo que diminua, algo que incuta descaso. O mora nesta fala para deixar claro que o que importa, mesmo, por mais incríveis que sejam os passos, é a caminhada.

Você concorda comigo que os defeitos do todo ficam muito mais expostos quando se enxerga esse todo em pedaços, não é? Mora aí o sentido: só mais um passo, um dos mais arriscados, um dos mais longos.

Ainda há uma caminhada inteira pela frente.

~ publicado originalmente em 2009 ~

“Can’t always get what you want”

I can’t get no, I can’t get no. I can’t get no satisfaction.
[Otis Blue – I Can’t Get No (Satisfaction), inOtis Redding Sings Soul (1965)]

Um grande amigo já deu a letra: não se pode ter tudo. E então o drama do que te satisfaz fica suspenso. Não posso ter tudo e isso inclui, claro, a satisfação.

Sim, mas vamos pensar além do clichê. Porque, quando Keith Richards e Mick Jagger lançaram essa I Can’t Get No (Satisfaction), em 1965, talvez eles ainda não nem tivessem ideia de que, quatro anos depois, lançariam sua You Can’t Always Get What You Want. Não sou nada fã dos RS, não gosto de seus discos clássicos e só uma ou outra canção [essas duas inclusas] me levam a dar um sorriso para os caras.

Mas, na combinação perfeita de clichês, não conseguir satisfação e ter certeza de que você nem sempre consegue o que você quer só poderia resultar mesmo no refrão da outra, aquele do “but if you try sometimes you might find – you get what you need”.

Que tal concentrar seus esforços em conseguir o que você precisa? Porque se você é ser humano como eu, satisfação é algo que você nunca vai conseguir ter de verdade, não é?

~ publicado originalmente em 2009 ~

“É tarde pra pensar”

Eu ouvi dizer que o seu olho encheu quando na roda um outro alguém cantou aquele Beatle que era meu e seu. Porque você não me ouviu?
[TeófiloA Volta do Zorro, in Com Fusão (2003)]

É duro encarar a dor de ter perdido alguém com quem você realmente desejava dividir ainda muitos momentos, muitos Beatles, muitos passeios, muitos beijos. Dentre todas as pequenas diferenças que existem entre as pessoas, são essas quebras [e alguns pares de ótimas lembranças, claro] que elaboram o intrincado modo com o qual você reagirá a uma nova paixão, amor, veneração.

Uma vez você ama, então quebra, ai conserta e ama de novo e quebra de novo. Então, para o terceiro amor, vem você inteiro, mas já sabendo como é a dor de estar aos cacos. E nos seguintes, sempre se sentindo diferente, e armado de outras mínimas defesas, feitas das imperfeições que se encontra em algo que partiu e foi refeito tantas vezes.

~ publicado originalmente em 2009 ~

“I’m so happy”

I’m so happy, I’m gonna join the band. We are gonna dance and sing in celebration, we are in the promised land.
[Led ZeppelinCelebration Day, in Led Zeppelin III (1970)]

Imagine-se em 1970, andando de carro tranquilamente, com o rádio ligado. Muda de estação uma, duas, três vezes. Até que, num sinal de trânsito, você muda de estação pela última vez. Do rádio vem a voz de um locutor e o texto empolgado. “O Led Zeppelin lançou há menos de um mês o seu terceiro trabalho, Led Zeppelin III. A falta de criatividade para nomear seus discos não atinge suas músicas e, depois do primeiro single, Immigrant Song, o Led Zeppelin agora apresenta para o mundo Celebration Day“.

Entra vinheta da rádio, você espera ansioso aqueles poucos segundos que levam até a faixa começar e então…

… você acorda três minutos e trinta segundos depois com as buzinas do mundo inteiro tentando tirar você do transe em que a faixa te mergulhou.

Você então faz a única coisa que pode ser feita: engata a primeira marcha, acelera enquanto tira o pé da embreagem e segue para a loja de discos mais próxima. Afinal, depois disso, esse álbum tem que ser seu.

~ publicado originalmente em 2009 ~