As surpresas de Mallu Magalhães*

Na terça-feira, saí da redação da Revista da Cultura para cobrir o pocket show que a cantora Mallu Magalhães faria para lançamento de seu segundo disco, homônimo. Do táxi até a hora em que dei o REC para a entrevista, fiquei pensando nas coisas que poderia perguntar, que convinha perguntar e que seriam interessantes de perguntar. É famoso o jeito meio prolixo com que Mallu responde entrevistas, mas resolvi arriscar uma abordagem que a fizesse falar e que, depois, nos desse um resultado bacana com a edição afiada do nosso queridíssimo videomaker Pedro Alves.

Fui surpreendido.

Primeiro pelo profissionalismo da passagem de som da guria, depois pelos gracejos no meio do show e, no fim, pela simpatia e vontade de responder à minha humilde entrevista.

Do profissionalismo, o que me surpreendeu foram as coordenadas dadas por Mallu sobre como queria a execução de suas músicas de um jeito firme, argumentando “já estamos sem os metais, o show é pequeno… se as músicas ficarem lentas, vai ficar meio borocoxó, não acha?”. É o tipo de tom usado pelos perfeccionistas, mas daqueles perfeccionistas graciosos, gentis. Algo como “O show tem que estar impecável. Vocês me ajudam?”.

Finda a passagem de som, vem a segunda parte da surpresa, com Mallu cumprimentando fãs na platéia, tirando piadas e atendendo pedidos de bis. No meio do intervalo de uma das canções, Mallu sugere que a plateia peça bis. “Vamos fazer de conta que vocês vão pedir e que eu não sei de nada”, sugere, no meio de um riso compartilhado pelos fãs.

“Que música vocês querem que eu toque?”
“Mallu, toca Versinho de número 3?”
“Gente, não sei se eu lembro como toca essa.”
Alguém da banda comenta algo com Mallu e ela retruca.
“Ah, é ‘É Você Que Tem’, né? Essa eu sei, vou tocar”

E nesse bis planejadamente espontâneo, Mallu canta “é você que tem, nas tuas mãos, meu choro de mulher. Tem meu ser, o meu sonhar, o que quiser. É você que tem o colo que eu deito e descanso. É tão teu meu coração aflito e manso”. Depois chama a banda de volta, faz piada, canta mais uma, encerra sem grandes pompas e espero pelo momento da minha entrevista.

“Ah, você que é o Jansen?”
“É, sou eu. Tudo bom contigo, Mallu?”
“Tudo legal.”

Aqui ela recusa minha mão estendida e me dá um abraço. Sem tapinhas nas costas; um abraço, só.

Na boca, uma bala vai de um lado para o outro, saltando hora numa bochecha, hora em outra. “Adoro balas de mel, sabia? Sou viciada nelas.” “São pra cuidar da voz?”, pergunto eu. “Não, são orgânicas, super gostosas”

Ela começa a entrevista com a tal bala na boca, mas a dicção fica comprometida e ela decide dispensar o doce. “Lá se foi uma bala de mel, hein, Mallu?”, fala alguém da sua trupe. Ela volta para a cadeira sorrindo.

Senta, faço uma primeira pergunta longa, sobre carreira, idade e a disposição das pessoas de falarem mal e como ela enfrentou tudo isso sendo adolescente, tão mais vulnerável a opiniões externas, nessa época em que a gente é tão desejoso de afirmação. “Tive duas coisas que me ajudaram muito a enfrentar essas coisas. Uma foi a minha família, a outra foi o Marcelo”. Pois é, ela cita seu namorado [sim, aquele Marcelo] com uma naturalidade ímpar. “Mallu, não quero escarafunchar tua vida pessoal, mas como você já citou o Marcelo, queria te fazer uma pergunta. Você acabou de dizer que tua vida, teu coração, são abertos nas tuas letras. Você não acha que isso pode se voltar contra você um dia?”

“Não”, responde ela, séria, e fica me olhando, esperando a próxima pergunta. Lembra quando vocês tinham 18 anos e eram imortais, o mundo se curvava diante de você e o futuro era um lugar muito distante? Eu tenho saudades dessa época, às vezes. E foi nesse momento que suas respostas algo viajantes, algo vagas, se explicaram: como seria você aos 18 anos, respondendo entrevistas sobre o seu trabalho, sua arte, sua vida exposta em palcos?

E foi assim, direta aqui e vacilante acolá, que Mallu conversou comigo por uns 20 minutos. O coordenador de eventos do Market Place lembrou umas duas vezes de que uma sessão de autógrafos a esperava depois do show. “Nossa, é verdade”, falou Mallu, apressada em dar conta dos interessados na sua assinatura, mas sem pedir para corremos com a conversa. Sem afobação, atendendo gregos mas preocupada com os troianos.

E as músicas, você pode me perguntar. As músicas de Mallu hoje são sensivelmente melhores que suas músicas do início da carreira. Mas seguem sendo uma produção de uma guria que começou a escrever aos 15 anos sobre a saudade do pai que estava viajando para longe. E que hoje está imersa num amor que não sufoca, que não pesa, que só dá verso e riso. Talvez você sinta uma certa resistência à produção da guria [que ainda vai completar 18 anos] por, simplesmente, não entender das coisas que ela fala.

Você, que já bebeu garrafas de vinho para esquecer um amor, que se perdeu das coisas que você gostava, que ainda não sabe o que quer da vida, que já cresceu à força, que já “envelheceu”… é certo que essas coisas todas estão distantes de você. Mallu cresceu e sua música também. Mas ainda há muito para crescer e há muito em expressão nela e no trabalho dela para se sobressair. Ela ainda tem 18 anos. Você lembra como você era aos 18? (:

* Texto publicado em abril do ano passado, no Blog da Cultura.

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