Do que são feitas tuas cordas vocais?

Tuas duas e únicas cordas vocais são feitas de danças esquecidas.

Como o casal que gira pelo salão repetindo a mesma sequencia de descobertas do que era o espaço de um e de outro. O desafio das duas é entrar em desacordo do que querem expressar. Mesmo que sejam bem independentes e orgulhosas, sentem verdadeira paixão pelo resultado da sua comunhação de gestos e fazeres.

Tuas duas e únicas cordas vocais são feitas de danças esquecidas.

Haja café

realidade

a imagem que inspirou o post

Sempre que alguém conta histórias sobre como uma boa caneca de café salvou aquele dia de trabalho que terminou às 05h, lembro de quando era freela na VIP e os espressos, mesmo péssimos, eram de graça. A bem da precisão, lembro do dia exato em que consumi cerca de quinze “cafezinhos”, junto com outros muito cigarros. A combinação das inas de cada um dos personagem me rendeu uma taquicardia feroz, combatida a muitos goles de água e mentalização de que a vida era boa.

Foi um cagaço leve. Nunca havia combinado tanto café com cigarros. Aliás, nunca havia nem tomado tanto café em uma ocasião só. Vindo de Teresina, trabalhando um turno apenas, em uma assessoria de imprensa com ambiente calmo e fluxo de trabalho intenso, porém justo, me recordo de apenas uma vez em que sai da minha sala para fumar enquanto bebia um cafezinho. Café, então, era algo que eu ingeria em doses cavalares com leite e mistos quentes, pela manhã.

Mas São Paulo cobra seus preços, claro. Dorme-se pouco, trabalha-se bastante [foi aqui que conheci a jornada de oito horas – quando só – de trabalho], se é exigido sem limites. Acho, hum, justo. Assim como acho justo o tamanho dos engarrafamentos em Sampa para as experiências e oportunidades que surgem e que você pode criar por aqui.

Então, após do episódio da taquicardia, aliado ao início das aulas da pós-graduação, diminui a combinação de café E cigarros e passei a apostar no café solitário observando o buraco da Linha Amarela do metrô [contemplável do fumódromo que ainda existia na Abril em 2007] e a fumar antes e depois do almoço, na saída do trabalho, no intervalo da pós e nas madrugadas “insones”.

Depois da Abril, na S², tomava café porque estava frio, porque só conseguia ir dormir depois das 02h [e às 09h precisava estar do outro lado da cidade e já no batente], porque não sabia trabalhar com publicidade e o cérebro precisava estar mais ligado que tudo para tentar contornar essa deficiência com atenção redobrada… E com o meu esforço em parar de fumar no fim de 2007, levado com dedicação e compromisso até meados de 2008, fiquei só com o café. Muito café.

Quando comecei a trabalhar na LiveAd, o dito era líquido sagrado. Com Ian Black, aprendi a tomar energéticos [degenerei para o bem], e com Rachel Juraski aprendi a operar uma cafeteira [sim, eu era outsider a esse ponto]. Os dias eram mais frios ainda que na S², a bucha era mais pesada ainda [vocês não têm ideia do trabalho – maravilhoso – que deu colocar o Yahoo! Posts no ar] e as canecas cheias se multiplicavam… Seis? Sete por dia de trabalho? A entrada na LiveAd coincidiu com a volta ao péssimo habito do cigarro [que abandonei novamente em setembro de 2008 e que sigo sem até hoje], mas nunca como algo para aliviar o trabalho. A dureza do cigarro veio por outros motivos. E segui assim, lutando para deixar o cérebro mais acordado, lutando para conseguir trabalhar mais uma, duas, três horas. Depois, no R7, entrando às 06h, o café voltou a fazer parte da primeira refeição do dia [e delas vieram os quilos que não me largam mais], segui dormindo pouco e precisando ficar acordado mais tempo… Hoje, trabalhando num horário fixo e agradável, tenho tomado cada vez menos café [e energético agora só com vodca].

A presença do chá na copa é claro que ajuda a troca, mas também tenho tomado menos chá. Acho que tanto abuso do corpo levou a uma certa intolerância e à avaliação de que é preferível tomar apenas uma xicará de café por dia e vigiar melhor meu ciclo de sono do que alopra-lo com líquidos das mais diversas procedências apenas para me manter alerta. Acho que também é o medo de aloprar ainda mais meu organismo – reflexo da consciência crescente da minha falibilidade, significando que sim, estou ficando velho de juízo.

Não tenho uma conclusão bonitinha ou que elevará seu espírito. O texto era só isso mesmo, pra dizer que tenho tomado menos café. Agora deixa eu ir acolá, fazer uma xícara de chá [dessa vez, preto, que a sexta feira vai ser longa…].

Da arte de perder aviões e amar

Ontem minha sogra assistia a Antes do Por-do-Sol na sala enquanto eu e a queridona jantávamos na cozinha. Dava pra ouvir a Celine tocando ao violão “A Waltz for a Night” e ela e eu começamos a conversar sobre o filme, nuns olhares cúmplices de quem sabia que dali a uns cinco minutos o filme terminaria e então saberíamos como a sogra iria reagir ao desfecho da história [vou poupar aspas e indiretas, quem já viu sabe porque, quem não viu merece a surpresa].

Acaba o filme e sogra e filho [dela e nosso, história para outro post] vêm sentar com a gente à mesa. Aí divido o que já falava sobre o amor: todo mundo busca essa manifestação de completude e encontro. Sim, estou sendo genérico e até torço para que apareça alguém que me diga que não busca o amor, que não busca amar, preu saber como é isso.

Mas enfim, todo mundo busca o amor, todo mundo busca essa manifestação de completude e encontro, de forma tão urgente e cega, de forma tão necessária, e muitas vezes se esquece de como ele é caro. Não irei nem forçar uma teoria sobre o assunto, acho simplesmente que seja o caminho de todas as pessoas. Não sei da psicanálise, não sei da antropologia, só sei da experiência. Por isso a generalização sem medo de ser feliz ou triste. Por isso o desfecho realista da frase.

Queridona e eu temos muitos amigos e amigas nessa busca. Buscam o amor, buscam o parceiro, buscam a companhia. Lindo, digno, louvável. Apoio muito. Frases como “tô namorando!”, “encontrei alguém que me adora e que eu adoro”, “nunca me senti assim” e suas são variantes recebem meu aplauso mental.

Sou fã dos amores, já tive oportunidade de me sentir assim algumas vezes – no último ano tenho estado envolto nessas sensações de modo perene. Mas saca aquele VT que mostra primeiro uma cama balançando e vai jogando na tela uns dados sobre como vai nosso planeta, aquecimento e o escambau? Que termina com um casal sorrindo depois de um sexo gostoso [por isso a cama balançando] e um texto que diz algo como “o mundo está perto de se acabar em fogo e fúria e, mesmo assim, tem muita gente na pegada de colocar filhotes do mundo”? Pois é. Lembrem sempre de como o mundo é cruel, de como as pessoas são difíceis, que como o imprevisível sempre joga contra e não deixem de… amar. Porque o amor cobra seu quinhão, o amor anula, o amor te permite ser você [o que, decididamente, é ótimo e péssimo], espalha seus medos e defeitos, troca, o amor tem um preço [como tudo, na boa].

Só que quando vocês ouvirem a Celine tocando “A Waltz for a Night”, abram sempre um sorriso, por favor. O amor é uma coisa boa. Então se ele te convidar pra sentar e tocar um disco da Nina Simone enquanto prepara um chá, por favor, abra um sorriso. E fique.

Do que é feita tua mão?

mão

Tua mão é feita de cinco farpas, cada uma abrigando um pedaço de unha, dada ao exercício do afago e do apedrejamento.

Tua mão, nos dias de frio, treme. Nada que um gole de alcool não resolva. Nos dias de calor, enruga. A culpa é dos banhos, do lagarteamento, da preguiça.

Força, cabide, apoio, tua mão é gancho.

Tua mão é feita de cinco farpas.