Ser menos artista, ser mais artesão

Lendo a Cachalote entrei em contato com a ideia de raciocínio do escultor, que olha o bloco de pedra tentando entender e descobrir que escultura mora dentro dele. Uma hora ou outra a figura sairá e ele terá louros e palmas, ou vaias e rebanadas. Lendo o cartum de Laerte, entendi que a diferença entre o trabalho do artista e do moldureiro é que o do moldureiro precisa ficar bom, não pode ser ruim.

Talvez seja por isso que temos menos esculturas e molduras pelo mundo: o contemplar artístico pede, muito além do talento, da inspiração, da técnica, da dedicação.

Trabalho todos os dias como escultor e moldureiro. Olho para tela em branco como o primeiro, lapidando com o teclado, retirando as lacunas alvas, imprimindo ali um texto que, com sorte, utilizará poucos backspaces e CTRL+Zs. Porém, antes de ser o primeiro, abraço ser o segundo, entendendo, descobrindo e avaliando que moldura o que escreverei gostaria ou merecia receber. Darei tom de comédia ou ironia, usarei de sarcasmo ou dúvida, serei aberto ou fechado, disposto ou contrariado?

Herbert Miúra faz um convite à mídia teresinense

A imagem abaixo é um excerto da matéria publicada ontem pela CidadeVerde.com, sobre as manifestações que estão acontecendo em Teresina contra o aumento no preço das passagens de ônibus no último sábado. A declaração é do presidente do SETUT – Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Teresina, Herbert Miúra.

Só para reforçar:

“Se a pessoa não gosta do supermercado você deixa de comprar no supermercado. Se ele não está gostando do sistema de ônibus que ele procure outro meio de transporte e não ficar depredando o patrimônio. Qualquer manifestação é legítima. Agora não pode é virar vandalismo”.

Aqui a mídia teresinense recebeu um convite daqueles: o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Teresina comparando o [péssimo] sistema de transporte público da cidade com supermercados, sugerindo placidamente que os insatisfeitos arrumem outro meio de transporte. Como se, assim como supermercados, os teresinenses tivessem inúmeras opções de transporte público. Quais seriam essas, presidente do SETUT? Andar a pé? Bicicleta?

O prefeito da cidade, Elmano Férrer, já lavou as mãos.

Que meio de comunicação piauiense vai interpelar de forma contundente o presidente do sindicato? É papel da mídia aí na terrinha saber reconhecer uma pauta quando ela lhe dá um tapa na cara. E esse tapa não foi de luva de pelica…

Cole aqui sua desculpa esfarrapada

Hoje ela me juntou no sofá, como quase sempre junta, e botando a leitura de lado, perguntou porque jornalistas costumam escrever tão pouco fora do ambiente de trabalho. A impressão dela, depois de três anos na mesma casa, era de que uma parcela considerável daqueles jornalistas acreditavam – ou não faziam nada para desmentir os boatos – no produzido ao batente como a meta do dia. Perspicaz, correto?

Enquanto ela desfilava seus argumentos pra lá de charmosos e instigantes, eu me recordava de um daqueles perfis @qualquercoisadadepressao, que um dia tuitou como era profunda a tristeza de passar o dia produzindo para seus clientes e chegar à noite não ter disposição para enfim produzir para si. Válido, como toda generalização. Pensei nisso e imediatamente concluí que… epa, não é por isso que eu deixo de escrever no blog não, hein?

Não, não é.

Talvez a minha desculpa predileta seja a que me apareceu, acho, logo na introdução de A Arte de Fazer um Jornal Diário, do Noblat. E vinha com uma história, claro. Contava ele que uma pesquisa feita por X no ano Y sobre o hábito de consumo de informação nos EUA [???] tinha apresentado que dentre os leitores mais fiéis do NYT, apenas 3% liam o jornal inteiro. Dos infinitos pontos finais dos incontáveis textos das sei lá quantas páginas que uma edição ordinária do maior jornal do mundo colocava nas bancas e nas mesas de milhares de leitores, apenas 3% deles eram vislumbrados, admirados. “Logo…”, se você quer leitores para o seu o texto, é bom que ele tenha um abre que instigue, prenda, prometa e cumpra, bata o escanteio e faça o gol de bicicleta…

Essa parecia sempre perfeita e a postos para dissipar – ainda que momentaneamente – a pilha de escrever um texto. Como fugir à necessidade de ter a frase, o argumento, o punchline perfeitos? Impossível. Ideia sem forma não dá.

Mas também não é por isso que eu deixo de escrever.

Outro sambarilóve recorrente – e que se encaixa perfeitamente a esse de cima – é a dificuldade em manter a inspiração por perto. Vem a fagulha mas a palha não está lá muito seca pra fazer todo aquele esforço virar fogo. Pior é quando você anota os raciocínios que te motivaram a escrever um texto mas quando encara aqueles rabiscos ou pixels, eles não passam de agrupamentos de palavras; a verve passou.

Já inventaram ferramentas, métodos, passos e todo tipo de pajelança que prometa manter produtores de conteúdo na linha, quase todos sem sucesso. Um dia é cansaço, no outro é o vinho, num terceiro preguiça, mais adiante sono e por aí vai. Mas quem lê tanta notícia, não é mesmo, Caetano?

Nessas, outra boa desculpa é quando a ideia do post que quero escrever não convence nem a mim, que dirá a um ocasional leitor…

***

Uma coisa marcante que a internet nos deu foram os pedidos de desculpa por falta de postagens em blogs/tumblrs e afins. Quase tão quanto as despedidas e assinaturas ao fim de cada post. A ideia de audiência, o compromisso com ela. Tão… 2000, 2001. Quantos desses pedidos nós já não lemos por aí. Acabam funcionando como o live action daquela história do guri que mentia sobre estar se afogando num lago [ou sendo atacado por um lobo] e, de tanto abusar da fé das pessoas ao seu redor, acabava mesmo era se ferrando bonito. Trágico, mas só o bullying educa.

Talvez a “desculpa” mais esfarrapada e ainda assim a única real seja a de que quem escreve precisa de uma motivação para escrever. Não inspiração. Não tempo. Não tesão. Motivação. Um motivo. Uma razão. A morte do cachorro. A promoção. O evento incrível. O evento não tão incrível

E a minha sumiu. Acho que ficou tão satisfeita em me ver feliz que foi passear…

“Bota no SBT, por favor?”

Então desde o ano passado que desistimos de ter TV em casa. O aparelho continua na sala, ligado ao DVD e ao Wii, mas sem cabo de NET, TVA ou Sky que pudesse levar até ele toda aquela programação variada e empolgante.

Passamos a viver de janela, sofá, filmes e seriados baixados, partidas de Rock Band, discos novos tocando no aparador, noites vendo qualquer coisa no PC enquanto uma torta fica pronta, lemos um livro. Ao passo em que ela ainda reclama um tanto, aqui e ali, de não ter uma Globo pra ver o JN ou um GNT pra ver os programas de moda, ou ainda que a gente nunca mais tenha parado pra discutir o que tomam as gatas de faculdades americanas que recheiam aqueles programas do Multishow depois da meia noite, eu passei muito bem, obrigado.

Não ter TV é… ok, até irrelevante. Basta ficar um tempo sem para você ver que ela nunca foi necessária. Não falo aqui de um ativismo contra a influência das TV sobre nossos cérebros e como as TVs criam as crianças, mas simplesmente que, assim como fumar e give valuable time to people who don’t care if I live or die, assistir TV é algo a que se está acostumado apenas.

Na última ida a Teresina, fui visitar a casa de dois amigos de adolescência que casaram recentemente. A casa deles tem duas TVs, uma na sala e outra no quarto do casal. Enquanto os gurizões ocupavam a sala em partidas de SFIV, a guria assistia ao Fantástico no quarto. Durante quanto tempo minha vida não foi assim, com uma abundância de aparelhos e de tempo diante da telinha, vendo programas pela metade? Enquanto jantávamos, me espantei com uma notícia que era comum a todos que assistiram o JN do sábado. O amigo então perguntou: tu não tem TV, cara? Vocês não assistem TV?

“Não, ué. Normal”
“Nossa, vocês são diferentes mesmo”.

Para pessoas que se conhecem há 15 anos, um comentário desse tipo é acompanhado de uma carga irônica típica, o amigo só queria me encher o saco. O estranhamento, no entanto, dava pintas de ser real. Por quê?

[Tirando o fato de que não dependo apenas da TV e dos telejornais para me informar, estar em férias seria a perfeita justificativa para o isolamento informacional. – fim do disclaimer -]

TUDO ISSO para dizer que ontem evitamos fazer jantar em casa indo ao boteco da esquina tomar cerveja. E que os botecos, bares e restaurantes sabem disso, com suas TVs de telas planas e muitos canais.

Com duas tvs ligadas no salão, me veio o clique, não tão eureka assim, de que sair de casa, ir a restaurante, bares, botecos e congêneres é também a oportunidade de ver em que pé anda aquele circo, quem é protagonista de onde, como é a abertura do seriado novo da Globo, que ator da Praça é Nossa sumiu misteriosamente?. E o vício dos nossos olhos em buscar a telinha só mostra que não fumamos enquanto ninguém passa cheirando a Lucky Strike do nosso ladou ou não ligamos para quem pouco se lixa se vivemos ou morremos [sorry, Morrissey] enquanto mantivermos alto grau alcoólico e celulares longe da mesma equação.

E isso porque demos na telha de não levar o celular, senão corria o risco da telinha ganhar da telona.

Estamos condenados…

O tamanho da minha sorte

No primeiro fim de semana depois que comprei o long, botei a preguiça de lado e fui pra Paulista testar o novo animal. Satisfação imensa, prazer redobrado, mais velocidade, mais estabilidade, mais segurança nas remadas [mais esforço…].

Na volta pra casa, o diabo atentou. ~ E se tu descer a Peixoto Gomide? Vamos ver se esse tal de long é massa mesmo ~

Claro que cedi. Durante a meia hora em que esperei pelo alívio do trânsito da Peixoto, respiro também necessário à cada-vez-mais-próxima urgência em fazer uso da minha sorte, não pensei em nada. Enquanto se passaram aqueles 30 segundos sem que nenhum carro apontasse na curva do Hospital Nove de Julho, não pensei em nada. Ao apontar o long para a ladeira, também não pensei em nada.

Mas assim que subi no maldito e comecei a primeira descida de ladeira com aquele artefato estranho e agora bem menos estável embaixo dos pés, pensei, óbvio, que havia me fudido em diversos aspectos. Os carros – que agora naturalmente voltavam a preencher todas as faixas da Peixoto – foram suficientes para transformar o pensamento em certeza.

Sinalizei o quanto e como pude que me manteria junto à calçada e torci [rezei, esperei…]. Quando não dava mais – sempre chega essa hora -, pulei do skate, explodi mais uma bomba de impacto nos meus saudáveis joelhos de ex peladeiro de basquete e decidi que ainda não era hora para aqueles desafios.

Quando mais a frente no caminho topei com a roda do long numa vala, fui ao chão e não sei se por milagre ou por ironia, nenhum carro me atropelou, bem, achei que já era demais e voltei pra casa humilhado pela minha falta de senso.

Uns fins de semanas depois, saí para andar com um amigo, ele com um skate “normal” e eu com o long. Depois de subirmos e descermos a Paulista, enveredamos pela Angélica na esperança de um bom lugar para tomar um suco ou quebrar um osso.

Achamos o segundo. Numa manobra comprometida pela presença inesperada de um abacate no pouso de um ollie, meu amigo quebrou a clavícula.

Meu medo, sempre tão presente a cada saída para andar de skate, de quebrar uma perna ou um braço e ter que ficar um, dois, três meses de molho, se concretizou ali na minha frente. Uma manobra errada = 45 dias de gesso e tipóia, mais não sei outros quantos de fisioterapia.

Eu abuso da minha sorte.

Onde estavam essas gurias durante a nossa adolescência, certo?

Best Coast chegou como bomba indie, passou a ter umas três musiquinhas legais e agora tem até música da semana. Não só porque é ótima ou porque fala de uma guria muito satisfeita com o relacionamento dela e com o cara que está com ela [uau], mas também porque o clipe dessa When I’m With You é ótimo.

E aqui, um caramelo:

As surpresas de Mallu Magalhães*

Na terça-feira, saí da redação da Revista da Cultura para cobrir o pocket show que a cantora Mallu Magalhães faria para lançamento de seu segundo disco, homônimo. Do táxi até a hora em que dei o REC para a entrevista, fiquei pensando nas coisas que poderia perguntar, que convinha perguntar e que seriam interessantes de perguntar. É famoso o jeito meio prolixo com que Mallu responde entrevistas, mas resolvi arriscar uma abordagem que a fizesse falar e que, depois, nos desse um resultado bacana com a edição afiada do nosso queridíssimo videomaker Pedro Alves.

Fui surpreendido.

Primeiro pelo profissionalismo da passagem de som da guria, depois pelos gracejos no meio do show e, no fim, pela simpatia e vontade de responder à minha humilde entrevista.

Do profissionalismo, o que me surpreendeu foram as coordenadas dadas por Mallu sobre como queria a execução de suas músicas de um jeito firme, argumentando “já estamos sem os metais, o show é pequeno… se as músicas ficarem lentas, vai ficar meio borocoxó, não acha?”. É o tipo de tom usado pelos perfeccionistas, mas daqueles perfeccionistas graciosos, gentis. Algo como “O show tem que estar impecável. Vocês me ajudam?”.

Finda a passagem de som, vem a segunda parte da surpresa, com Mallu cumprimentando fãs na platéia, tirando piadas e atendendo pedidos de bis. No meio do intervalo de uma das canções, Mallu sugere que a plateia peça bis. “Vamos fazer de conta que vocês vão pedir e que eu não sei de nada”, sugere, no meio de um riso compartilhado pelos fãs.

“Que música vocês querem que eu toque?”
“Mallu, toca Versinho de número 3?”
“Gente, não sei se eu lembro como toca essa.”
Alguém da banda comenta algo com Mallu e ela retruca.
“Ah, é ‘É Você Que Tem’, né? Essa eu sei, vou tocar”

E nesse bis planejadamente espontâneo, Mallu canta “é você que tem, nas tuas mãos, meu choro de mulher. Tem meu ser, o meu sonhar, o que quiser. É você que tem o colo que eu deito e descanso. É tão teu meu coração aflito e manso”. Depois chama a banda de volta, faz piada, canta mais uma, encerra sem grandes pompas e espero pelo momento da minha entrevista.

“Ah, você que é o Jansen?”
“É, sou eu. Tudo bom contigo, Mallu?”
“Tudo legal.”

Aqui ela recusa minha mão estendida e me dá um abraço. Sem tapinhas nas costas; um abraço, só.

Na boca, uma bala vai de um lado para o outro, saltando hora numa bochecha, hora em outra. “Adoro balas de mel, sabia? Sou viciada nelas.” “São pra cuidar da voz?”, pergunto eu. “Não, são orgânicas, super gostosas”

Ela começa a entrevista com a tal bala na boca, mas a dicção fica comprometida e ela decide dispensar o doce. “Lá se foi uma bala de mel, hein, Mallu?”, fala alguém da sua trupe. Ela volta para a cadeira sorrindo.

Senta, faço uma primeira pergunta longa, sobre carreira, idade e a disposição das pessoas de falarem mal e como ela enfrentou tudo isso sendo adolescente, tão mais vulnerável a opiniões externas, nessa época em que a gente é tão desejoso de afirmação. “Tive duas coisas que me ajudaram muito a enfrentar essas coisas. Uma foi a minha família, a outra foi o Marcelo”. Pois é, ela cita seu namorado [sim, aquele Marcelo] com uma naturalidade ímpar. “Mallu, não quero escarafunchar tua vida pessoal, mas como você já citou o Marcelo, queria te fazer uma pergunta. Você acabou de dizer que tua vida, teu coração, são abertos nas tuas letras. Você não acha que isso pode se voltar contra você um dia?”

“Não”, responde ela, séria, e fica me olhando, esperando a próxima pergunta. Lembra quando vocês tinham 18 anos e eram imortais, o mundo se curvava diante de você e o futuro era um lugar muito distante? Eu tenho saudades dessa época, às vezes. E foi nesse momento que suas respostas algo viajantes, algo vagas, se explicaram: como seria você aos 18 anos, respondendo entrevistas sobre o seu trabalho, sua arte, sua vida exposta em palcos?

E foi assim, direta aqui e vacilante acolá, que Mallu conversou comigo por uns 20 minutos. O coordenador de eventos do Market Place lembrou umas duas vezes de que uma sessão de autógrafos a esperava depois do show. “Nossa, é verdade”, falou Mallu, apressada em dar conta dos interessados na sua assinatura, mas sem pedir para corremos com a conversa. Sem afobação, atendendo gregos mas preocupada com os troianos.

E as músicas, você pode me perguntar. As músicas de Mallu hoje são sensivelmente melhores que suas músicas do início da carreira. Mas seguem sendo uma produção de uma guria que começou a escrever aos 15 anos sobre a saudade do pai que estava viajando para longe. E que hoje está imersa num amor que não sufoca, que não pesa, que só dá verso e riso. Talvez você sinta uma certa resistência à produção da guria [que ainda vai completar 18 anos] por, simplesmente, não entender das coisas que ela fala.

Você, que já bebeu garrafas de vinho para esquecer um amor, que se perdeu das coisas que você gostava, que ainda não sabe o que quer da vida, que já cresceu à força, que já “envelheceu”… é certo que essas coisas todas estão distantes de você. Mallu cresceu e sua música também. Mas ainda há muito para crescer e há muito em expressão nela e no trabalho dela para se sobressair. Ela ainda tem 18 anos. Você lembra como você era aos 18? (:

* Texto publicado em abril do ano passado, no Blog da Cultura.