Alguns pratos vão acabar caindo

A morte é tão objetiva. Lembro de quando morreu meu avô materno (o paterno morreu muito antes que meus pais se conhecessem): “meu filho, seu avô descansou”, então sair do estágio calado, descer a Sete de Setembro em direção à casa da minha avó, onde encontrei minha mãe muito calma, até aliviada, mas sim, muito triste. “Meu filho, vá buscar sua irmã no colégio, vou cuidar dos trâmites do velório, enterro, essas coisas”. Então ir até a Goiás, estacionar em qualquer lugar e ficar esperando minha irmã surgir pelo portão. “O vovô morreu”, eu disse baixinho quando ela saiu e eu a abracei; então ela chorou, entramos no carro e voltamos para casa. Almoçamos calados.

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Ninguém pode duvidar da objetividade da morte. Muito embora, quando se pense nas pessoas vivas que simplesmente deixamos para trás, no caminho da nossa história, ou nas pessoas que nos deixaram para trás no caminho da história delas, nos pareça absurda a ideia de comparar isso a morrer. Mas a verdade é que nem é.

O que nos impede de considerar isso de maneira mais natural é a nossa mania de querer ser bonitinhos, meigos e nostálgicos e crentes da resolução dos dramas da alma humana. Uma coisa meio Milton Nascimento cantando Canção da América, achando que qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar. Quando a gente sabe que não. Quando a gente sabe que, às vezes pela geografia, às vezes pela dificuldade em dar o primeiro passo, alguns laços foram rompidos para sempre.

Quando a coisa envolve uma situação mal resolvida, então, credo. Há um tanto de praticidade que te impulsiona a deixar as coisas como estão. Não, nada de mandar um e-mail depois de anos de intriga ou silêncio perguntando “E aí, como estão as crianças que você teve com a mulher que conheceu depois de mim?”. Faz algum sentido? “Ah, mas é um processo interessante esse de superar certas questões, colocar pontos finais nas histórias”. Concordo. Só me pergunto o porquê da nossa dificuldade em ver que os pontos finais já foram colocados. Há um daqueles posts compartilháveis que transitam pelo Facebook que me enervam demais. Na imagem, um casal de velhinhos acompanhado de um texto, que diz algo assim: “Como estamos juntos até hoje? É que nós somos de uma geração que aprendeu que, quando uma coisa quebra, ela deve ser consertada, e não que se deve comprar uma nova”. Ah, claro, vamos reforçar a necessidade da insistência a todo custo. Há coisas que não precisam (eu não disse que não merecem) de insistência. Precisam de tempo e distância. É um jeito simples de economizar paciência.

E nem sempre são histórias esperando pelo ponto final. Às vezes é só a vida que nos afasta mesmo. Sem drama e até sem contexto. Quando me mudei de São Paulo para Porto Alegre, isso ficou tão evidente. Alguns dirão, e eu concordarei, que é coisa do espírito da cidade, sem muita alma e com muitas distâncias. Por isso, a cada ida à Augusta parece haver menos e menos gente na lista do Whatsapp para convidar para fazer alguma coisa. Não que não haja queridos o suficiente, gente com que dividi histórias e momentos e que gostaria de rever. É que rareiam os que se dignem a enfrentar trânsito, fila e todas as intempéries paulistanas só para algumas horas de conversa talvez insossa – que necessariamente vai passar por trabalho e por histórias do tempo em que convivíamos, já tanto repetidas. Para esses, recados verdadeiramente carinhosos de aniversário via Facebook dão conta.

O que talvez, no fim, seja só mais uma maneira de nos fazer ver que precisamos valorizar o que temos, no momento em que temos. Pode parecer a frase mais clichê de todos os tempos, mas a mesma fofura, queridice e apego à nostalgia que nos impedem de entender que algumas pessoas vivas morreram tecnicamente para nós, também nos impede de entender que o momento é mais importante que a projeção e que há pontas soltas demais no acaso para saber quando vamos rir de novo, dividir de novo, conviver de novo. Junto a isso, também há a necessidade de entender que, se queremos resolver uma questão, ah, que se resolva logo, sabe? Depois de muito tempo, ela só deve se transformar em silêncio constrangido e ressentimento.

A gente, que vive nesse mundo em que lembrar é muito mais fácil do que esquecer (basta contar quantas das pessoas com quem tu se envolveu de maneira minimamente íntima nunca deixam de aparecer no teu feed de notícias), bem que podia aprender a deixar as coisas para trás. Ou entender que fomos deixados e lidar bem com isso. Sossega ai, Miltinho.

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Barcos de papel

Acordei com aquele som insistente na janela. As batidas, rápidas e secas, me disseram logo, e pela falta de luz, confirmei: estava chovendo. A idéia de me arrumar com banho gelado, tomar café sentindo cheiro de chuva e provavelmente chegar ao trabalho todo molhado não me foram bem aceitas. Há muito eu deixara de gostar da chuva como outrora. Era mais fácil para eu esquecer, e é agora mais fácil seguir que explicar. Embora eu tenha a clara percepção de que a água da chuva, mesmo a ácida, limpa e beatifica o corpo, não era aquela sensação boa que eu sentia naquele momento.

Levantei com um desgosto plácido e determinado a chegar atrasado ao trabalho, na vã esperança de que a chuva cedesse. Pelo contrário, parecia o replay do dilúvio divino. Água, água, água por todos os cantos, numa sinfonia de sons e texturas, de sentir e engolir de volta lembranças que queriam ser vomitadas no tapete encardido da sala.

No banho, enquanto ensaboava as costas, observei pela pequena janela do box que as árvores da rua que passava atrás do meu prédio estavam todas envergadas, com o vento da chuva. “Uma chuva de vento”, pensei, como há muito não via e há muito não pensava. As lembranças engolidas há pouco, no entanto, voltaram quando estava saindo o trabalho. Ao volante, passando marchas, conferindo velocidade, nível do óleo e essas coisas maquinais, olhei pela janela e vi os rastros finos da chuva forte escorrendo de leve. Então, não tive como segurar.

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As primeiras lágrimas foram fracas, saindo de leve pelo canto dos olhos, embaçando os óculos. Logo, como se uma torneira tivesse sido aberta, passei a chorar copiosamente, mas sem soluçar, sem tremer, sem me alterar.

O choro tinha razão. Aquele traço fino de chuva na janela do carro me remeteu à lembrança mais forte da minha infância quando o assunto era chuva. Para mim, tudo ali era uma festa. Sempre leitor de tudo, estava acostumado a sonhar com poças de água que eu pudesse pisar. Fosse no colégio, fosse em casa.

Em casa era a vez dos banhos de chuva, andando de bicicleta sob o olhar atento e severo de meu pai. Na escola, era hora de desafiar a aderência dos meus tênis ao chão, correndo pelos corredores e quadras molhadas ou respingadas pela chuva. Vi muitos perdendo seus dentes ali, enquanto eu seguia no meu orgulho pueril de nunca ter sido derrotado pela chuva.

A minha derrota, porém, vinha sempre mais tarde. Apaixonado por todos os tipos de azuis, para mim era sempre fascinante perceber que em noites de chuva, ao invés de negro, o céu se torna vermelho, às vezes, levemente roxo. E essa cor, fascinante em todos os seus aspectos, numa pintura da época que deus fazia sentido para mim, me marcou profundamente. A lembrança marcante era de quando minha mãe ia me pegar no colégio. Fim de tarde, início de noite, a primeira parte da chuva do dia já caída, era hora de esperar minha mãe, sentado nas escadarias da escola. Ou então, de brincar, com barcos de papel recém-feitos, nas corredeiras intensas e perigosas da rede de esgoto que passava defronte ao meu colégio. Quando ela chegava, e tomava para si o peso da minha mochila, passava a mão em meus cabelos perguntando como havia sido meu dia, e calmamente abria para mim a porta do nosso velho carro, ali era hora de olhar para o céu e ser absorvido com total intensidade por aquele vermelho. Vermelho de chuva. Vermelho do céu. Meu vermelho, da minha infância, o único vermelho que me inebria, eu que tão fascinado sou pelos azuis.

Então, era por isso que eu chorava. Aquela cor, já esquecida, brotou em mim pelas finas linhas de água que desciam pela janela do meu carro. Não era bem a cor que tinha me aparecido, mas a imagem posterior, de quando eu entrava no carro de minha mãe. Eu sabia que à noite eu teria, assim como o retorno das chuvas com vento e das árvores inclinadas, o céu vermelho de chuva. Já não fazia sentindo saber ou lembrar porque eu não gostava mais de chuvas. Talvez fosse só orgulho bobo, declinar dos prazeres que aquelas águas caídas podem proporcionar. Valia mais à pena apreciar os momentos que eu já tinha vivido, principalmente quando eu era feliz, em que aquela cor estava presente, cheia de poesia e amor, atenção e carinho.

Texto originalmente publicado em algum dia de 2006 e minha homenagem à chuva da tarde de hoje.

Porque chuvas sempre me fascinaram, desde criança. E espero que sigam fascinando.