Angústia

Embora exista a intenção de relatar impressões a respeito de todos os filmes que vi nesse Carnaval (que já vão em oito), preciso externar agora o que dois deles me fizeram pensar.

Uma Verdade Inconveniente”, filme que estrela Al Gore [o quase presidente dos EUA] como narrador e principal ‘personagem’ do documentário [sim, que delícia é ver um doc no cinema, naquela telona! :D], me fez ter uma angústia enorme dentro de mim, vazando pelos meus poros, sobre o problema do aquecimento global.

São tantos dados, tantos gráficos, tantas fotos “antes-depois” de certas paisagens que se modificaram totalmente com o fenômeno do aquecimento global, que eu realmente [REALMENTE!!!] passei a pensar que NÃO ter filhos é uma decisão muito sábia.

Isso por que a salvação do mundo ‘as we know it’ depende do homem, e de um homem em específico: George W. Bush! Não é demagogia, nem anti-EUA-ismo. Atente bem ao fato dos EUA (e a Austrália também, mas esse é um problema menor) não terem assinado o Tratado de Kyoto. E que sem muitas (todas, caramba!) nações pensando assim, vai ser ‘daqui pr’ali’ o mundo acabar.

De acordo com o doc, basta um parte do Pólo Sul (ou a Groelândia toda, se você preferir) derreter pros oceanos subirem seis metros e comerem a BUNDA! De muita gente, coisa de 100 milhões de gentes, contando por baixo.

E com tudo isso dependendo de um só país, que sozinho polui mais do que o resto do MUNDO! Todo, e que já demonstrou que NÃO está nem aí pro nosso paraíso tropical (e o resto todo também, caralho) ir pro saco, eu prefiro manter meus possíveis filhos longe disso.

A não ser que medidas MUITO sérias sejam tomadas, vai ser complicado ter um mundo legal esperando nossos rebentos (meus, seus, do mundo todo).

O que você pode fazer para contribuir?

– Procurar usar produtos ‘verdes’, que não ataquem o meio-ambiente;
– Diminuir o uso de carros particulares, preferindo transporte coletivo, e que tenha a menor emissão de CO2 possível;
– Caso não dê para deixar o carro em casa, dê carona! Isso evita que outras pessoas queime combustível fóssil;
– Se o carro puder ficar em casa, melhor! Se você tiver bons joelhos, uma bicicleta mata dois coelhos com uma paulada só.

Pode parecer bobagem, pode parecer exagero, mas qualquer coisa que se faça para diminuir o aquecimento global aumenta as chances de cada um de nós viver um futuro estável o suficiente para que nossos filhos possam nascer e viver.

É uma questão de consciência. Pense nisso

O outro filme que mexeu comigo e com meu estômago, e com a minha cabeça, foi “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, do Cao Hamburger.

PUTAQUEPARIU!!!

Se você leu alguma coisa sobre o filme, como eu, que pena. Se você não leu, ótimo! Pare aqui e assista antes de ler qualquer coisa a respeito dele.



Não resistiu? Tudo bem…

Mauro tem os dois pais. Bia e Daniel. É 1970, no Brasil. Isso significa duas coisas. Você sabe quais, né? Tricampeonato no Mundial de Futebol e o auge da ditadura.

O menino é apaixonado por futebol, os pais têm a maior pinta de subversivos, comunas. Já viu a merda, né?

Enquanto Bia e Daniel fogem para não morrer, Mauro fica com um vizinho do avô paterno recém-falecido, a Copa rola. E o menino espera pelos pais a cada jogo, a inocência de crer em promessas ainda não foi esfacelada.

Pão e circo, CARALHO!

Ditadura de merda! Mais angústia para o estômago. Vontade de chorar, gritar, correr, xingar…

Pedro Jansen
19-20.02.07

2ª carta

Olhei agora no relógio e me confundi. Pensei ter visto 00:00, mas sabe como esses relógios digitais confundem a gente… Já são 00:08.

Caso fosse 00:00, seria a hora convencionada a ser chamada como “hora do rabudo”. Nem dia nem noite.

Aqui é tudo meio assim… Meio termos…

São Paulo é feita por muitos deles. Outro dia fui ao HSBC Belas Artes, um cinema com boas opções de filme [estava passando até o Lolita do Kubrick, que deve ser bem melhor que a versão que saiu um ano aí…]. Fui assistir um filme pseudobobo, pseudo-sério, chamado Stranger The Ficcion, aka Killing Harold Crick [no Brasil, ele ficou com uma tradução literal do primeiro, “Mais estranho que a ficção”. Bola fora]. O filme em si é bem médio, bom e ruim. Acerta umas coisas, erra outras.

Por isso, ao sair da sessão, o dia ainda era claro [nota: aqui só escurece depois das 20h… mal/bem dessa terra que tem estações do ano], eu queria beber alguma coisa.

Tomei uma Malzebier e ganhei um conselho: “alguém com conversa fiada pra cima de você? Passe direto!”. Fácil entender a frieza dessa terra. As pessoas aprenderam a não dar confiança para os outros na rua. Seja um ladrão [bom!], seja alguém oferencendo uma revista de teatro ou uma feita por/para moradores de rua [médio…] ou alguém pedindo informações [ruim!].

O complicado mesmo é saber que o povo só aprende como vai para o trabalho. Outros tantos caminhos são ignorados. Nem os motoristas de ônibus sabem tudo. Os carros ricos e os táxis para executivos têm GPS no painel. Uma brasa, mora?

Mas esse ignorar é quase compreensível, sabendo que a cidade tem esse tamanho imbecil.

Outro dia fui fazer minha matrícula na especialização. Mais precisamente na quinta passada. A impressão que deu é de que choveu a noite toda, ‘terra da garoa’ é isso aí. Eu estava com meu dinheiro contado. Juntei as últimas moedas para tomar café e comprei um guarda-chuvas com elas. Vamos lá: 350 pila para a minha mansão + 477,27 para a facul. Zero reais para colocar no meu cartão de passe único [que une ônibus e metrô. Em duas horas você pode pegar até três conduções pelo preço de uma, se só ônibus, ou de uma e meio se for de ônibus e metrô. A passagem de ônibus é 2,30]. Peguei o metrô até a estação da Saúde, mas não me pergunte onde fica.

Lá, descobri onde pegava o ônibus para São Bernardo do Campo, onde fica a Metodista. Entrei no ônibus, encostei o cartão na leitora e nada!

O motorista então me diz que a passagem é diferenciada.. R$ 2,80 para 12,1 km. Justo.

Meto a mão nos meus 10 real de segurança [comida ou dinheiro do ladrão, o que aparecer primeiro]. 7,20 me sobram para comprar jornal do ABC para ver os classificados, voltar para Sampa e comer! Impossível. Eu teria que achar uma lotérica para retirar os oito conto que lá ficaram.

Na Metodista, faço minha matrícula, que fica só por 425!!! Ótimo, 50 reais inesperados! Eu estava salvo!!! My great luck strikes again!

“Teresina é com S e não com Z”, digo pra moça do cadastro. “É…? Ta, eu corrijo no sistema”. “Do Piauí, você?”. “É, nascido e formado lá”.

Resolvo tudo e fico feliz, uma alegria fudida me toma, me engole. “PUTAQUEPARIU! Eu vou fazer especialização em Jornalismo Cultural!!!”

Aviso a todos, compro jornal, pego ônibus, chego em Sampa [não se percebe a mudança de uma cidade para a outra…], almoço num botequim, chego na Abril, trabalho, casa. Feliz.

Sexta vem como dia de glória. Centenário de Victor Civita, fundador da Abril, meus cartões dos bancos chegam, salvo meu bonsai da morte. À noite, escrevo, penso, vejo, escuto e vou dormir perto da meia noite.

No meio do sono, sonho com um show do Caetano Veloso. Acaba o show, vou para o metrô e um segundo antes das portas fecharem entra um cara esbaforido. Era o Caê. “E aí, chateado com o show?”, perguntei.

A resposta eu não lembro. Só sei que do metrô eu sabia que estávamos no cruzamento da Ipiranga com a São João.

Aos poucos [de um dia para o outro], essa cidade vai se tornando a segunda melhor da América do Sul.

Pedro Jansen
09-10.02.07

1ª carta

Lá fora eu escuto a tosse dos carros e o ronco das pessoas [ou seria o contrário?], mas não escuto o som bom da chuva.

Menos mal, eu penso rápido, esquecendo como a chuva e as noites de chuva me são caras.

O problema é que aqui o céu não fica vermelho. É só um cinza sem fim e depois um negrume natural da noite, até o dia amanhecer fresco, ameno e surpreendentemente claro. Até o azul do céu é possível ver, e nuvens brancas também.

E essa foi a coisa que mais me fascinou: essa cidade ainda respira. Mesmo que o rodízio de carros tenha voltado.

Bom mesmo é saber que o mundo vai realmente acabar por culpa do homem e que quando eu estranhava as confusões climáticas ainda na escola, nos idos de 98, não era apenas uma coincidência qualquer. Era o início do fim.

Melhor ainda é começar a perceber que a pergunta “qual é a boa de hoje?” faz cada vez menos sentido. Não se tem dinheiro, não se tem pique, não se tem amigos.

Acho que agora é chegado o tempo de acordar na segunda-feira sem pensar no que será o sábado. Acordo todo dia pensando em milhões de assuntos para resolver e eu sei que isso, querendo ou não, é amadurecer de alguma forma.

E eu nem ligo tanto. Mal necessário, eu me afirmo até acreditar. Assim como a crença vã de que ladrões dormem do mesmo jeito que os cidadãos de respeito. E também não assaltam na chuva.

Tranquilizador.

Musicalmente, duas coisas andam acontecendo. Uma é que minha grana para comprar pilha para o pen drive acabou. Ou seja, estou sujeito ao total silêncio na hora de dormir. E ai eu penso. Baturité, Parnaíba, Jericoacoara, Salvador, Parnaíba… 2006 foi um ano de viagens, um ano de abraços, de risos, de abraços.

E 2007, por risco escolhido por mim, será um ano de virtualidade, pouca entrega e quase nenhum abraço… Vai ser um ano de muito mais “cordialmente” ao fim dos e-mails do que “abraços carinhosos” ou “te amo”. Claro que esses vão existir em grande quantidade. Mas o primeiro tipo será a virtualidade palpável. A pessoa ao seu lado não te inspira outra coisa a não ser um “cordialmente”.

E a outra coisa que aconteceu musicalmente para mim foi/é que os calos dos meus dedos, de tocar contrabaixo, estão sumindo, fading away… Triste constatação, que dá sinais de muitas outras coisas que não só a falta de um baixo para praticar.

Significa o sacrifício de vender meu baixo e meu amplificador, de saber que eles não me seriam necessários por um bom tempo. Tudo isso dói demais. E a prova disso são meus calos indo embora.

Mas como diz o monge budista… “se tiveres de escolher um caminho entre dois, não pensa no caminho que não escolheu.

Agora lá fora eu já escuto buzinas, tosses mais altas e outras vozes. Não fosse pelo telefonema de minha mãe, eu talvez não dissesse nada até mais tarde, quando chegasse na Abril.

Por que aqui, mais que tudo e todos, o silêncio é sua maior companhia.

09.02.07