A mania voltou

Assino o feed de um dicionário online, o Priberam. Assinar feed de dicionário me causa – e deve causar – uma estranheza compreensível e provavelmente estou explicando o óbvio quando conto que esse feed manda para os assinantes um verbete por dia.

Considero um mimo super legal. Não é o tipo de informação que muda meu dia, como seria se me apresentassem a um blog com MP3s em boa qualidade da última turnê do Walkmen ou algo do tipo. É legal porque ajuda a manter viva aquela mania que eu tinha quando moleque de, sempre que ia ao dicionário procurar algum verbete, voltar de lá com pelo menos dois ou três novas palavras lidas. Era interessante entende-las, alimentava meu vocabulário e não me tomava mais do que três minutos.

Para um curioso quase patológico [se você me acha incômodo hoje, saiba que eu já fui bem pior], uma diversão e tanto. “O que será que significa ‘vil’?” Abria o imenso dicionário e descobria que além de ser um adjetivo que definia muito bem os mesquinhos, os desprezíveis e os infames, também era algo “de pouco valor, que se compra por baixo preço”. A brincadeira não precisava seguir as palavras abaixo ou acima. Muitas vezes, meu olho se perdia na página ao lado e lá ia eu descobrir que vingar, além de tirar ‘desforra’ [o que significaria ‘desforra’?], também significava “crescer, prosperar (vencendo obstáculos)”. Para um moleque de 10, 11, 12 anos, esse tipo de informação parece quase inútil. Não usaria nenhuma dessas palavras na hora do recreio, veja bem. Saber é que era legal.

Uma vez dei essa dica do dicionário num post do Papo de Homem que mandava conselhos para filhos num dia dos pais. Um amigo me recriminou: “que dica coxinha, mané vocabulário pra conquistar menina”. Não soube bem o que responder à época, mas aqui fica a lembrança: vocês lembram do Alfie, certo? “New word for the day” e tudo o mais?

Lembrei de toda essa história de dicionário porque essa semana comecei a ler [depois d’uma longa busca por texto que desse continuidade ao ritmo que Nada me faltará do Mutarelli me impôs e que passou por Dostoiévski, Jorge Amado e Gabeira] um livro chamado O professor e o louco, de Simon Winchester. Se você for esperto – ou daqueles que sucumbem à tentação de ler orelhas e quarta capas de livros – vai descobrir que se trata da história do relacionamento entre o editor do Oxford English Dictionary e um dos maiores colaboradores do compêndio. O pouquíssimo que o título não entrega, a quarta capa o faz. Claro, é daquelas histórias em que esses “detalhes” são nada mais que acompanhamentos do prato principal que é o desenrolar da trama. Mas este é um livro que fala sobre dicionários, da paixão das pessoas pelas palavras de um idioma, dos limiares da loucura. E esta combinação inesperada me permitiu finalmente encontrar o sucessor de Nada.

Comparando com o que eu era na infância e com o que os sujeitos são no livro, o que sou hoje é bem distante dos dois. A correria sentada a que nos submetemos todos os dias faz desse um dos feeds que mais ignoro. A tal ida ao dicionário também se tornou rara. Hoje, me bastam uns clics e tecs para ter o significado de qualquer palavra, coisa que acontece com muita freqüência quando se revisa e edita textos jornalísticos para uma revista de Cultura.

A moleza acabou outro dia, quando depois de passar o café, estava esperando a queridona terminar seu banho lendo mais um trecho do tal livro. No colo, o celular, conferindo a hora. Ai esbarrei numa palavra que não conhecia. Celular no colo virou busca de palavra em dicionários online. Depois da terceira, tendo que usar um teclado qwerty minúsculo e precisando conviver com a falta de versões mobile para esses sites, lembrei do minidicionário no quarto do Renan.

E o prazer/mania da busca pelas palavras voltou.

Anúncios

Nove coisas aleatórias sobre mim

As maravilhosas e queridonas Gabi Bianco e Marina Santa Helena me convidaram para um meme sobre nove coisas sobre mim. Pra quem é um zero em matéria de listas e lembranças para estas, farei um esforço hercúleo pra contar tantas coisas legais quanto elas. 🙂 O meme fica pra quem quiser continuar, a vonts.

1 – Muito antes do “dê RT nesta mensagem para ganhar um alfinete”, vendi minha dignidade participando de um concurso de lambada num clube de Teresina. Tinha… uns nove anos [engraçado que na minha memória, tudo da infância eu tinha 9, 10 anos e tudo da adolescência, 14, 15 anos. Anos longos, esses…]. Perdi e me cobrei por isso aquele sábado inteiro.

2 – Muito antes da lambada, quis enxotar a toque de cabo de vassoura aquela cara de joelho que tinha se apossado do meu berço. Era minha irmã, recém chegada da maternidade. Isso é amor, hein?

3 – Meu doce de padaria predileto é sonho. Descobri o dito numa padariazinha que ainda hoje sobrevive em Teresina e cujos dias melhores foram quando descobri o doce. Bote aí uns… 17 anos. Um dia, chegando com meu pai à padaria, fui pedindo três sonhos e ele foi me perguntando: “E o dinheiro pra pagar, Pedro Augusto?” “Ah, pai, eu fiz um bolão na escola pro jogo da copa”. “Mas filho, você precisa saber o resultado do jogo e ninguém ter ganho pra você poder ficar com o dinheiro”. TÓIM!

4 – Meu nome é Pedro Augusto da Cunha Jansen Ferreira. Poisé.

5 – Joguei basquete por maravilhosos 7 anos da minha vida. O último ano eu nem deveria contar, já que entrei na faculdade e a casa da minha namorada ficava na metade do caminho para o meu treino. Junto disso, descobri que era muito melhor beijar na boca [dentre outras coisas] que me esfregar num bando de machos. Parabéns, Jansen. 😉

6 – Quem me conhece um tico que seja fora da internet, já deve ter me ouvido contar que já quis ser advogado. Agora o motivo é o melhor da coisa: para ajudar as pessoas. Depois que desisti do Direito, fui para o Jornalismo com a mesmíssima intenção. “Vou escrever sobre os problemas das pessoas, resolver as broncas dos bairros, ajudar as pessoas…” Nada contra a preocupação social, óbvio, mas era muito mais romantismo que consciência do que a profissão tinha como prática. Depois disso, aprendi que profissão ajuda as pessoas, mas que quem ajuda pessoas são pessoas mesmo.

7 – Já fui militante do movimento estudantil, frequentador de encontros estudantis [te amarei pra sempre, João Pessoa!], adorava dormir em alojamento, tomar banho em bica improvisada em universidade… Suficiente, né?

8 – Em 2009 comecei a cozinhar, não sabia o ponto de um ovo cozido [não sei ainda!]. Aqui em 2010, estou pensando seriamente em me preparar pra trocar o jornalismo daqui uns [bons] anos por outra profissão. 🙂

9 – Nenhuma – registre-se – sogra minha jamais foi com a minha cara. Sempre fui tratado com: a) indiferença, b) falsidade, c) cordialidade forçada e d) total desconhecimento de quem eu era. A razão, nunca saberei. ~ assobia ~ Então veio ela, e com ela, Dona Marilu – uma das pessoas mais fantásticas que já conheci. ;D

Starts with You – festival, a “ecochatice” e o movimento

Na semana passada fui convidado para participar do lançamento de “um grande movimento pela sustentabilidade” que, nessa semana, se mostrou ser o Starts With You, ou SWU.

E nessa internet rápida de meu deus, é claro que vocês já sabem que é o festival substituto do Maquinária [ao menos este ano], que vai trazer Pixies, Linkin Park, Dave Matthews Band e Incubus e mais outras 56 atrações, que vai acontecer em outubro, em Itu, numa fazenda e com expectativa de 225 mil presentes para os três dias de evento. Agora onde é que o convite da semana passada toca no que foi apresentado ontem num casarão lá no Morumbi? Simples: a intenção do Starts With You é disseminar como um dos pilares do evento [além de boas atrações e estrutura] a consciência sustentável de cada participante.

O nome [péssimo] do festival já aponta: começa com você. Aqui você faz um corte e encaixa as coisas que deus e o mundo já diz há muito tempo e que se realmente tivessem surtido efeito, não seriam mais ditas: apague a luz quando não estiver no cômodo, escove os dentes com a torneira desligada, reduza o tempo dos seus banhos, parar de deixar o computador ligado a noite inteira… A comunicação inteira da apresentação e do festival quer fugir da “ecochatice”, adotando um discurso que dê a cada um a sua função no movimento.

Que começa com cada um é meio lógico: todo mundo tem que assumir um papel na busca pela sustentabilidade. Mas que cada um precisa deixar sua zona de conforto [ou o sofá pra apagar a lâmpada da cozinha que deixaram ligada], é mais comum ignorar. Educação, pois. E não, não é aquela educação que diz que cutucar o narigão é feio e nojento. É uma educação ambiental, uma conscientização que se não vem dando certo na boa, talvez seja hora de diluir isso num evento musical, vai que o povo se empolga e passa a praticar essas pequeninas ações? Quero crer que sim.

Agora vamos a algumas perguntas:

– Foi falado durante a apresentação sobre estações para tratamento e reciclagem do lixo que será produzido durante o festival. Ok, mas e o impacto que as 225 mil pessoas esperadas para Itu [que tem uma população de 157.384] vão provocar no município? Só o lixo do festival será tratado e reciclado? E arredores?

– O festival acontecerá em uma fazenda, a Maeda, que terá área de camping para 8 mil pessoas. Itu tem capacidade para mais 8 mil pessoas que se hospedarem em hotéis. Novez fora zero, e o resto da galera que for e voltar os três dias? E todo o CO² produzido? Vai ser zerado? O do festival já foi dito que sim, mas e o do entorno?

– Na apresentação e no material de divulgação, foi falado sobre os alimentos e bebidas. Chama a atenção o uso de alimentos orgânicos, que são mais caros, mais trabalhosos e consomem mais recursos naturais. Ainda não chegamos à medida em que a produção desses alimentos seja mais vantajosa que “prejudicial”. Alimentos orgânicos, ok, saudáveis. Mas não há outras opções para alimentação durante o SWU de modo menos prejudicial?

– Lembro que em 2007, o Arctic Monkeys se recusou a participar do Live Earth por achar hipócrita pedir para o mundo mudar suas atitudes enquanto as bandas chegam de avião para o festival. Qual vai ser, efetivamente, a atitude para zerar o CO² gerado pelo deslocamento dos artistas?

Essas são algumas perguntas que me ocorreram ontem e que não tive oportunidade de fazer durante a apresentação. Acredito que as figuras dos SWU Insiders, escolhidas pela organização para colaborar com os pormenores e detalhes do SWU, serão as pessoas que vão fazer essas perguntas ganharem respostas. Seja por escrito, seja no real, lá em outubro.

Ontem, foram chamados blogueiros e outras presenças em redes e mídias sociais para acompanhar o lançamento do projeto voltado para essas mídias/meios/plataformas/whatever. Massa, bacana, bonito. Se todos os RT FTW, “dê um reply com uma frase pra ganhar pirulito”, RT PLS e variantes forem “utilizados” pra divulgar essa ideia, como rolou com o Ficha Limpa, quem sabe não dê certo com o SWU?

Como disse ontem, “‘para o bem ou para o mal’, a essência do #swu é o voto de confiança. Você tem algum sobrando pra dar? Então dê.”. Agora é torcer.

Um jeito diferente de usar o FormSpring

A onda pegou rapidão no Twitter essa semana. Como eu sou loser [ainda bem que não assino como especialista em redes/mídias sociais], nem sei dizer como surgiu, de onde veio, quem fez o primeiro e tudo o mais.

Sei que a info chegou até mim [se tem uma “teoria” que eu adoro é a de um professor lá da Faculdade de Jornalismo que dizia: se você não vai até a informação, ela acaba vindo até você – e tem coisa melhor pra isso que o Twitter? :)] e, matutando de madruga com ela, chegamos à conclusão de que a ferramenta, por mais que esteja funcionando como um arremedo do caderno de confidências, com gente perguntando frivolidades, questionando limites sexuais e outras maravilhas, o Formspring.Me pode sim ter outras aplicações.

O blog Moda Para Homens, por exemplo, tem lá um perfil para responder sobre “moda e comportamento masculino”. Se você é um bronco e não sabe combinar nem camiseta com calça jeans e ainda assim quer sair bonitão por aí, pode mandar sua dúvida pra eles que a galera responde.

E isso é só uma possibilidade. Sugeri no Twitter o seguinte: e se uma professora de Ensino Médio abrisse um perfil no FormSpring para tira-dúvidas de seus alunos, será se funcionaria?

Pensando nisso, resolvi deixar meu perfil por lá com a seguinte proposta: posso te ajudar respondendo alguma coisa? mandaê, então!

Aí você pergunta: “mas o que você sabe o suficiente para ajudar alguém?” Sei lá, ué. Pergunta e a gente dá um jeito. Mas se você der um confere nos textos que eu já publiquei no Papo de Homem, vai sacar que eu me meto a entender de relacionamentos/mulheres. Quem sabe eu não possa te ajudar nisso?

Lembrando que um dos grandes chamarizes da ferramenta é que você pode mandar suas indagações anonimamente. Obviamente, abusos não serão permitidos. Pra todo o resto, fique à vontade. 🙂

UPDATE
Convido vocês, que leram esse texto até aqui, a se aventurarem da mesma forma e se disporem a ajudar a “internet”, criando um perfil no FormSpring e respondendo perguntas sobre as áreas que vocês dominam. Dividir é a real, e a melhor delas. 🙂

A musa e o patinho feio

Stefhany é, como eu, piauiense. Estamos, os dois, e mais um monte de gente que é de lá, vítimas do que Fenelon Rocha, um dos melhores professores da minha época de faculdade de Jornalismo lá na Universidade Federal do Piauí, descreveu como “síndrome do Patinho Feio”.

Assim como na fábula, nós piauienses, damos atenção demais a coisas que teoricamente ofendem nossa origem e estado, mas que na verdade são apenas um pequeno pedaço do que realmente significamos e que incomoda apenas nosso brio superdesenvolvido. Resumindo, é apenas orgulho. Somos orgulhosos mesmo e a qualquer sinal de ameaça à nossa “soberania”, reagimos.

stefh 2
Mas no último dia 08/06 tive oportunidade de conhecer Stefhany. A Stefhany do CrossFox, como conta o clipe e a música famosa e o site do youPIX, encontro tocado pela PIX e pela Gafanhoto no Espaço que está ali na rua Rebouças, em São Paulo, quase na Avenida Brigadeiro Faria Lima.

Legal, iria encontrar a cantora que saiu do interior do Piauí para o “estrelato” na Internet, para os comentários nos blogs de ironizar celebridades, para as referências por outras cantoras populares.

Na programação do evento, primeiro uma sessão de perguntas disparadas por convidados como Carlos Merigo, Didi, Pedro Beck, Phelipe Cruz, Thiago Ney e Wagner “MrManson” Martins, todas sendo mediadas por Bia Granja e logo depois uma festa que arrecadaria doações pela libertação da criança, cantora e apresentadora Maísa.

Das perguntas e das respostas, não vou falar nada, afinal já tinhamos dezenas de twitteiros lá cuidando da cobertura. Falarei apenas das minhas impressões daquela conterranea de voz poderosa mas ainda mal utlizada.

Pois bem.

A entrada da menina [mesmo que sua certidão de nascimento conte uma história de 17 anos] foi tímida, ainda que o sorriso aparelhado e largo não permitisse que a alegria de ali estar se escondesse. Simpática e “saliente” sempre, Stefhany foi logo perguntada sobre virgindade, figurino, rotina, escola. O tom passeava do sincero para o irônico a galopes, sem medo da indecisão. Natural. Natural quando se pensa que a MPB não representa o povo brasileiro, que as músicas que realmente tocam o povo – como organismo e não como vários indivíduos – não são as de Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Djavan. É do brega, do forró, do calipso, do funk carioca, do sertanejo esse mérito. O que efetivamente representa o povo não é o que está embaixo do guarda-chuva da MPB.

E, entre perguntas sérias, gaiatas, irônicas, capciosas, dúbias e engraçadas, Stefhany respondeu/se defendeu como pôde. Vinda de um ambiente em que 13 mil cópias de discos vendidos representa um sucesso inquestionável, Stefhany tem conhecimento impreciso do que é, realmente, a fama. Mesmo com os números vultuosos na internet, quem além deles [pouco mais de 40 milhões de brasileiros num país de mais de 180] conhece mesmo Stefhany? A amostragem ainda é pequena, se considerarmos interesses, faixas etárias… Ter 13 mil cópias de uma artista totalmente independente, garantindo suas inserções nas rádios locais na raça e fazendo shows em diversos estados da região num mercado em que o forró/brega/vanerão pede e exige muito, é mérito demais.

Stefhany é simples. Não se precisa pensar muito para chegar a essa conclusão. Basta ver que a produção de seus clipes não peca pelo “preciosismo” de ótimas locações e figurinos. Sim, é tosco, mas é sincero como algumas pessoas nunca viram. Sim, fala “errado”, quando aprende desde nascida o dialeto que transforma nossa língua-pátria numa troca de Ss por Rs, de eliminações de Ms e Ns, num fenômeno impossível só explicado pelo convívio ou pelo estudo da Gramática de Piauês, como Paulo José Cunha bem expôs na sua fantástica Grande Enciclopédia Internacional de Piauiês. A simplicidade dela, no entanto, não supera o carisma. E então, num misto de ignorância com inocência e carisma, temos uma jovem que encanta e que lida com situações inesperadas apenas com o ponteiro da sorte.

stefh1

A simplicidade daquela guria não permite que, como dizem alguns, ela perceba que muitos chacotam dela. Que riem do seu jeito de vestir ou falar. Que gostam de apontar-lhe os erros. Ela é simples, apenas, e assim aproveita sua “fama”, “sucesso” e “glória” como pode e sabe:  aos montes. Porque sair do interior do Piauí para ser cantada num show por Cláudia Leite e tirar uma foto com seus ídolos globais é o tipo de acontecimento que marca uma vida eternamente. Não é o tipo de realização daqueles que sugeriram “Beatles” quando perguntaram sobre ídolos musicais e que riram quando Stefhany respondeu “Amado Batista”. Eu, muito provavelmente, não conhecerei John Paul Jones, o baixista da minha banda predileta no universo inteiro – o Led Zeppelin – mas Stefhany conheceu Preta Gil, uma das preferidas que ela citou como divas. Quem sou eu para dizer que ela adora as divas erradas?

Há uma mania de sempre se apontar o dedo de forma tão direta para aquele que é diferente que a coisa vai além do politicamente correto.  É o tipo de tocaia que te cerca por todos os lados. Não há escapatória se você não venera os tipos certos, os ovacionados pelos “tipos certos” e que não traduzem a cara múltipla que esse povo pode ter. E olha que essa mesma cara permite, oferece e instiga que existam iguais origens, mas diferentes gostos musicais.

O que estou tentando defender aqui é que Stefhany tenha seu espaço garantido sem chacota, pena ou ironia. A cantora de forró que “entrou em depressão” durante o fim de um namoro e que pensa primeiro no seu ônibus de turnê que num transporte próprio tem tudo para ser um sucesso para aqueles em que mira: conterrâneos e amantes do Nordeste menos rebuscados. Para a “massa” que se considera dententora da verdadeira “cultura” e da mais pura “apreciação” musical, a coisa pára no tosco e na risada fácil.

Que bom que Stefhany não entende da fama. Enquanto ela acha que está sim em alta consideração, não tem que lidar com as ironias pouco delicadas. Há quem diga que a ignorância é uma benção. Eu acho que é só mais uma possibilidade. E como esta não prejudica quase ninguém, qual o mal?

Furando os tímpanos

Fim de ano é a época mais famigerada do ano. Principalmente para listas sem sentido. Ou no máximo para listas sem sentido que só nerds, curiosos e desocupados vão atrás. As musas dos jogos de tabuleiro, os piores filmes mudos franceses, os quadrinhos mais bacanas pra se ler embaixo d’água e milhares de outros tipos…

Devo me encaixar em uma destas categorias, já que fiquei deveras tentado a seguir a lista feita pelo meu amigo Rafael Campos, que usou – olha só que idéia brilhante para preguiçosos e esquecidos como eu – o ranking de artistas mais ouvidos do seu perfil no LastFm para organizar um TOP 15.

E segui, enfim. Para deixar a coisa mais interessante, cada artista ganha um verso que ilustra/justifica a sua presença neste ranking.

Eis aqui os 15 artistas mais ouvidos por mim em 2008.

The Beatles – 3,190 execuções

01-beatles

Estes são clássicos, mas foi em 2008 que a nossa relação ficou incrivelmente próxima. Incrivelmente profunda. Sei lá, incrível. Ian Black vai dizer que é só uma banda como outra qualquer, e eu até concordaria, se não fosse por Why Don’t We Do It in the Road. Que não é nada demais senão a proposta mais sacana do mundo da música que eu conheço. Wando sentiria inveja. Mas não é apenas essa canção que vale o primeiríssimo lugar para estes garotos. Recomendo ouvir os discos Abbey Road e White Album com atenção. Só esteja preparado para ser humilhado. Vai ficar fácil entender as quase 3,200 audições apontadas acima.

and when at last I find you
your song will fill the air

[the beatles – i will]

The Walkmen – 1,647 execuções

02-walkmen

Thom Yorke tem a capacidade de fazer os mais felizes seres humanos de todo o globo chorarem por sua existência, mas o The Walkmen é quem tem a verdadeira pegada de fazer de você um nada completo. Por que não basta um olhinho caído e uma boca torta, Thom Yorke, tem que ter órgão Hammond e guitarras realmente desesperadas. Isso sem falar dos berros. Ou das letras. Tá, nas letras o Radiohead tem certa vantagem. E esta frase está aqui só pra fazer polêmica.

i’ve seen you with your new boyfriend
it’s funny how you look at him
i know we won’t be seeing him again

[the walkmen – the north pole]

Hurtmold – 1,618 execuções

03-hurtmold1

Tinha o Cozido dos caras desde, sei lá, muito tempo. E nunca achei nada demais. O erro estava apenas no horário em que ouvia o disco, sempre em horários não muito ideais. Um dia, coloquei o disco no meio do almoço e, enquanto comia, veio a iluminação. Os paulistanos do Hurtmold têm uma incrível obra que, além de manter o pique, não sacia a fome por boa música. O menu é interessante e a vontade é repetir todos os pratos discos ad infinitum.

o dia já vai raiar, é melhor você ir embora
não insisto, desisto
discutir pra quê, quem está disposto a isso?

[hurtmold – desisto]

Justice – 1,406 execuções

04-justice

Gaspard Augé e Xavier de Rosnay são doentes, Cross é um disco perturbador e tive ótimas noites/dias/sonecas com eles me deixando um pouco mais surdo. É o tipo de música que me faz encarar a música eletrônica com outros olhos. Experimente ouvir Stress quando estiver com raiva de alguém e separe o seu melhor saco de pancadas para a reação provocada.

rockin’ high-tops and sayin’ no to stilettos
cuz i might get drunk off my ass and I don’t wanna fall

[justice – the party]

Radiohead – 1,383 execuções

05-radiohead1

Thom Yorke e sua patota vêm ao Brasil em 2009 para nos dar uma dose de leseira e perturbação ao vivo e em cores. 2008 foi o ano de ouvir In Rainbows e, junto com ele, ouvir todos os outros discos do Radiohead. Nessas, perdi a birra com The Bends e cantar a plenos pulmões “And if the world does turn and if London burns, I’ll be standing on the beach with my guitar. I want to be in a band when I get to heaven. Anyone can play guitar and they won’t be a nothing anymore” foi, como sempre, coisa linda de deus. Chora, malandragem. Quer dizer, deixa pra chorar em março do próximo ano.

i won’t let this happen to my children
meet the real world coming out of your shell

[radiohead – i will]

Chico Buarque – 1,101 execuções

06-chico1

Este é mestre sempre, está aí para trazer sossego ao coração deste poeta frustrado.

eis que do nada ela aparece
com o vestido ao vento
já tão desejada
que não cabe em si

[chico buarque – bolero blues]

Muse – 1,072 execuções

07-muse

Com a criatividade sumindo e lançando discos cada vez mais dementes [uma demência diferente da dos dois primeiros discos, frise-se], ir no show era tudo que me faltava na veneração ao Muse. Agora é esperar para ver o que vem na próxima bolachinha e quem sabe decorar o nome de todas as músicas e suas respectivas letras, como no passado.

passing by you light up my darkest skies
you’ll take only seconds to draw me in
so be mine and your innocence i will consume

[muse – dark shines]

Ludovic – 861 execuções

08-ludovic1

O som que mais me lembra/remete a São Paulo é feito por paulistanos e me rendeu um dos shows mais viscerais da minha vida, com direito a tirar os óculos com medo de ficar sem no meio da destruição, digo, apresentação dos rapazes. E janeiro, o pior dos meses, está chegando novamente. Com ele, mais um show na Outs e mais um espetáculo imperdível. Né, Jader Pires?

vinte meses em claro
quase dois anos sem dormir
prece rezada em longos atos
– senhor, arraste-os para onde eles não possam mais mentir

[ludovic – um grande nó]

Os Novos Baianos – 802 execuções

09-novos-baianos

Descoberta antiga, mas esquecida, retomei com gosto em 2008 para nunca mais largar. A Baby pode ter abraçado a religião e o Boca de Cantor pode ter sumido, mas ainda há registros dignos de nota, sorriso na cara e prontos para serem trilha sonora daquela pelada no sábado de manhã ou do samba no domingo à tarde. Esteja à vontade para escolher.

ou pensas que é à toa
que nego diz: – oi, bicho!
então marcou e marcar
é pior que perder gol

[os novos baianos – guria]

10º Iron Maiden – 681 execuções

10-iron-maiden

Uma vez apaixonado por Iron Maiden, apaixonado pelo Iron Maiden para sempre. A 10ª e surpreendente posição deles por aqui só me lembra do tal artigo que tenho esboçado na cabeça e no pc chamado “Razões para ser devoto do Iron Maiden”, que tem validade para os três primeiros discos, pelo menos. Ainda vai sair, tenho certeza.

you walk through the subway
his eyes burn a hole in your back
a footstep behind you
he lunges prepared for attack

[iron maiden – killers]

11º Led Zeppelin – 670 execuções

11-led-zeppelin

Muito Led Zeppelin I, II, III e IV embalando madrugadas de redação e vendo o tempo passar, Houses of the Holy confortando caminhadas. Merecia estar acima no ranking, mas já está acima do bem e do mal para mim.

spent my days with a woman unkind
smoked my stuff and drank all my wine
made up my mind to make a new start
going to california with an aching in my heart

[led zeppelin – going to california]

12º Billie Holiday – 622 execuções

12-billie1

Aqueceu camas e gelou corações, tudo a seu tempo e durante o ano inteiro. Lugar merecido.

you came, you saw, you conquered me
when you did that to me
i knew somehow this had to be

[billie holiday – these foolish things]

13º The Strokes – 617 execuções

13-the-strokes

Is This It ainda vai fazer você chorar. Room On Fire ainda vai fazer você chorar. First Impressions of Earth ainda vai fazer você chorar. Por motivos diferentes, mas vão.

i wanna steal your innocence
to me my life it dont make sense
those strange manners, oh i love ‘em so

[the strokes – barely legal]

14º Bob Dylan – 577 execuções

14-dylan

Prefiro me manter em silêncio sobre a presença de Bob Dylan nesta lista.

you walk into the room
with your pencil in your hand
you see somebody naked and you
you say: – who is that man?

[bob dylan – ballad of a thin man]

15º Grandaddy – 549 execuções

15-grandaddy

Uma pena que acabou. O Grandaddy é o tipo de banda que te parece som de gente esquizofrênica, e que no fim se prova um pouco disso mesmo. Muitos barulhinhos, distorções, músicos capengas [mas incrivelmente competentes] e uma voz que incentiva qualquer sapo da lagoa a cantar. Perfeito. Os caras possuem uma discografia fascinante e absurdamente criativa. Faz falta, faz muita falta.

so there’s my baby
laughing at me in the sun
wonder if i’m the weaker one
i feel so far away from home
always so far away

[grandaddy – el camiños in the west]

E você, o que ouviu esse ano?

Na pele de outros

Jader Pires convidou a mim e ao nosso amigo Rafael Campos para um top, uma lista, um meme em que eu elencaria personalidades que eu gostaria de ser mas “fugindo um pouco dos pequenos notáveis da vez”, para citar.

Vamos então às categorias, nomes e explicações:

MÚSICA

Andy Bell

andy-bell

Favor não confudir com o outro Andy Bell.

O Andy Bell que eu estou falando me veio depois de muito bater cabeça sobre fugir dos pequenos notáveis.

Então vamos aí. Este Andy Bell é hoje baixista do Oasis e já foi vocalista/guitarrista de uma banda que pode não estar entre as minhas mais ouvidas, mas que tem sua imensa importância na minha paixão pelo britrock, britpop, shoegazing e afins: o Ride. Mesmo que tenha sido tudo ao contrário, começando com o Oasis e voltando até as origens com o próprio Ride, Teenage Fanclub, etc.

Há quem diga que o cara se perdeu indo para o Oasis, assumir o posto de baixista, coisa que ele nunca foi.

Para mim, não importa se ele se perdeu. Importa que o trabalho dele continua ótimo, que ele veste umas camisas bizonhas mas estilosas, que ele ataca de DJ e que ele é responsável por um dos lados B mais adoráveis do Oasis, a incrível Thank You For The Good Times. Além de suportar os Gallagher a quatro discos, claro.

Saca o talento do cara aqui, ó.

E aqui também, né, malandragem?

LITERATURA

Bernard Cornwell

bernard-cornwell

O cara é meu autor de livros de capa-e-espada predileto. Não que eu tenha lido muitos autores do gênero, mas acho difícil encontrar outro que me fascine tanto. Desde criança tenho essa idéia fixa [escrevi dois livros quando moleque, à mão, e um deles contava uma história medieval, capa-e-espada. Mas isso rende outro post] e quando vi As Crônicas de Artur na livraria, aquele livro grande e escrito na capa VOLUME 1, me interessei de cara e era fã já nas primeiras páginas.

Cornwell tem a capacidade de escrever com clareza, encadeando fatos históricos com maestria e sem perder o foco, mesmo com longas narrativas. Recomendo MESMO a tod@s aqueles que insistem em dizer que As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley [cuja tetralogia não li], são a melhor história sobre o Rei Artur unicamente pelo enfoque que as mulheres ganham. Cornwell também faz isso sem parecer sexista, paternalista ou machista em nenhum momento.

O cara escreveu diversos outros livros que misturam história com ficção e pelo menos o primeiro volume da trilogia A Busca do Graal vale à pena. Tenho os outros dois mas ainda não consegui parar para ler.

E para os que ainda estão de birra, até o site do cara é do tempo da Idade Média.

CINEMA

Dustin Hoffman

dustin-hoffman

O cara é meu ídolo definitivo em The Graduate, fez de quebra Rain Man, I Heart Huckabees, Desventuras em Série e Mais Estranho que a Ficção

Ok, aposto que o sujeito tem filmes mais louváveis, mas pra mim, que sou mediano MESMO em cinema, ou era o Dustin “Ben Braddock” Hoffman ou era pagar de indie com o Woody Allen. Vamos ficar no feijão-com-arroz, então.

***

Como a graça do meme é ferrar convidar os outros, convoco Ana Clara Jansen, Liv Brandão e Talita A. para este singelo exercício.