Os pés verdes da galinha

Na frente da casa o velho esticava as pernas, olhando para o tempo, curiando por cima da mureta o que se dava na rua. Quase nunca dizia nada, falava como se jejuasse. Só observava, sentado na cadeira de balanço. Tomava três doses de remédio para diabetes todos os dias: uma logo de manhã com o café preto, uma depois do café seguinte ao almoço e uma por fim ao cair da noite, no café que encerrava o dia. O último era acompanhado de um cigarro de palha que ele mesmo enrolava, às vezes, fonte fugaz de prazer.

Os pés verdes da galinha

Do outro lado da casa, Köves conversava com as galinhas enquanto distribuia xerém às mãozadas. Chamava-as por nomes e se impacientava com a falta de resposta das frangas. Uma era Carlinda, outra era Beliza, mais uma, Esmeralda (tinha os pés verdes, veja que estranho). Os galos não ganhavam nome, e isso nada tinha a ver com sua porção de xerém. Toda a propriedade animal de Köves se resumia àquelas três galinhas com nomes de mulheres e dois galos, um vermelho e outro com as penugens do peito quase xadrezes em verde e azul. “Fico feito um rei toda vez que venho aqui em cima, dar de comer a vocês”, entreouvi de longe numa tarde de outubro. A recompensa era uns ovos, um despertador, um ritual, uma coisa para se amarrar à vida. Quando a corda de um dos bichos já estava próxima de arrebentar, Köves me contou que lhe esticava o pescoço até estalar e ainda peidava na cara do recém-morto, “que é pra garantir a morte ligeira e ainda fazer uma troça”. A avó havia ensinado a ele a técnica ridícula. (Na próxima posta separava um ovo para as galinhas chocarem, e o ciclo de Carlindas, Belizas e Esmeraldas seguiria sem fim – muito embora os pés da terceira nem sempre fossem verdes.)

A ave era preparada ao gosto da sorte: cozida bem, na pressão e ao molho pardo, se a bicha já ia velha; ou rapidinho numa canja forte com cenoura, maxixe, batata e abóbora, se a franga ainda era novinha. Chupávamos tudo, até os dedos, logo depois dos ossos. Em silêncio fomos aprendendo que partes eram nossas prediletas. Ao velho, as coxas – e disso eu já sabia das idas à varanda ou ao quarto (no quarto era pior) para lhe medicar -, Köves preferia a carne do pescoço, chupava as juntas até não sobrar lasca de carne. Eu gostava das asas, as comia em ritual (não há razão para revela-lo aqui). O velho era sempre o mais voraz, comendo tudo como se não pudesse suportar nossa companhia ou o som dos outros talheres batendo nos pratos. Assim que róia as cartilagens dos ossos das coxas das galinhas que Köves criava e matava, estalando pescoço e peidando na cara, levantava como as pernas permitiam, e seguia para a varanda, esperar o café que eu lhe faria e adoçaria com rapadura.

Quando janeiro chegou ao meio e faltava exatos 8 dias para o aniversário de Köves, o velho parou de tomar seu remédio. Algum problema para engolir ou coisa assim. Uma noite, por mais que eu insistisse, não levantou da cadeira para dormir e passou a madrugada na varanda. Acordou morto. Saímos para beber o corpo. Köves sorveu seu copo em um gole só, não queria sonhar com outro, não havia dinheiro para mais duas cervejas. Recebeu o copo cheio e não descansou até batê-lo na mesa já vazio. Voltamos para casa e enterramos o velho no quintal.

Passamos a dividir as coxas, como se ninguém houvesse morrido.

Anúncios

Observe um grande homem vivendo

São 10h da noite de um domingo chuvoso. O grande homem passa pela portaria, primeiro o cão, depois ele sempre de calça jeans e camisa social de mangas curtas. Fala pouco, o homem; o cão também não ladra.

Seguem em silêncio pelas calçadas, ele com o saco de plástico no bolso de trás da calça esperando o alívio do amigo. Esticando as pernas ao fim do fim de semana. Ele e o cão. Este não é o primeiro cão a passear com este grande homem. Outro, um cocker spaniel preto com branco, também passeou muito até o dia em que sumiu – provavelmente morreu. Tenho a impressão de que nunca saberei seus nomes, o grande homem deve sempre dizer que vai passear “com o cachorro”.

Quem cruza com o grande homem não imagina o bom humor que ele carrega. Está em segredo. Esse clima é um dos temas mais recorrentes das conversas que ele puxa, mas nunca o único. Também há as encomendas pelo correio, os recados do síndico, as confusões da rua, as faltas das diaristas, o empréstimo de ferramentas. O grande homem não deve nem faz muito o estilo dele conversar com todo mundo.

grande-homem

Os que acordam bem cedo para ver as manhãs nascendo também escutam o grande homem subindo e descendo, recolhendo o lixo dos andares. Mais tarde um pouco é hora de ensaboar todas as escadarias e bodejar contra a passagem dos moradores. Aqui e acolá se rebela contra o síndico velhote, muito embora saiba que nada pode fazer. O grande homem é resignado.

Uma vez por ano o grande homem some e fica no lugar dele um arremedo. Sentimos falta dele, do seu bom humor. O arremedo também passeia com o cão do grande homem, há a suspeita de que são amigos. O grande homem e seu substituto, fique claro. Ao arremedo, o cão late. Muito.

Vôo rasante*

“O homem do conserto não vem?”

A pergunta era a última que Marta me deixara. Escrita num post-it, colada na geladeira, a caligrafia da sardenta me fez lembrar de como era bom o nosso encontro, o “m”, o “e” e o “m” todos grudados por um só movimento de punho – exatamente como era nosso abraço que chamava um beijo e que atraia as pélvis.

chumaço

Com o tempo, com a realidade imutável daquelas letras tão juntas quanto eu e Marta estávamos – e estaríamos – separados, o retangulozinho amarelo com 22 consoantes e vogais e um ponto de interrogação deixou de ser a última coisa que nos ligava para se tornar a única. Marta se fora há muito tempo.

(dentro da geladeira um vidro de maionese contemplava a beleza de duas quentinhas esquecidas numa prateleira; perto dali, uma platéia de latas de cerveja esperava ansiosa pela minha hora de dormir)

Ainda assim eu continuava a olhar o tal post-it. Sentia uma atração parecida com a de Gal sofrendo de amor em Hotel de Estrelas. “Dessa janela sozinha, olhar a cidade me acalma. Estrela vulgar a vagar. Rio e também posso chorar”. Era bem assim mesmo que eu me sentia: uma mistura entorpecente de saudade, resiliência, perseverança, conflito e distração. Aqueles riscos eram a minha janela, minha cidade, minha estrela. Meu ponto de referência. A última coisa que me atava a Marta.


Sabe, eu também gosto de olhar as nuvens às vezes. Escolho um ponto de referência, algo bem duro e imóvel, talvez um prédio, talvez um coração, talvez uma lembrança, e se o vento está muito forte ou pelo menos forte o suficiente você consegue ver o céu correr, passar apressado com aqueles chumaços de sonho disforme a reboque. E nessas horas, como o astrônomo que viu pela primeira vez a magnitude do universo se desenrolando por todos os lados e ao infinito, sinto a paz de ser uma centelha, breve e fugaz. O eterno é feito de outra matéria.

Marta tinha um livro predileto, sacado da biblioteca de seu pai quando ela era ainda apenas uma guriazinha loura, sem esfolados na alma. Lia Fernão Capelo Gaivota todos os anos se esbaldando em nostalgia real e sabedoria questionável. Eu gostava de algumas alegorias do livro, aquela coisa de voar e voar tentando sempre atingir o nível de excelência seguinte. A ruptura. A coragem. Gostava do que ela me contava, sendo exato.

Um dia Marta se chegou pra mim no corredor de casa e fez menção de falar, mas só chorou. Um choro quente, salgado além da conta [os intervalos entre um pranto e outro interferem na salinidade das lágrimas?], interrompido por suspiros bem infantis. Como que para anular a impressão, Marta se recompôs, passou para as costas uma mochila que o criado-mudo escondera e falou olhando bem para mim:

“Vê se chama alguém pra ver esse barulho na geladeira, de noite fica insuportável…”.

Tirou um chaveiro do bolso, abriu a porta, deixou a chave no criado-mudo e sumiu.

===
* Vôo rasante é o primeiro texto produzido na oficina literária ministrada por Evandro Affonso Ferreira e Juliano Garcia Pessanha, no Espaço Revista Cult.

Barcos de papel

Acordei com aquele som insistente na janela. As batidas, rápidas e secas, me disseram logo, e pela falta de luz, confirmei: estava chovendo. A idéia de me arrumar com banho gelado, tomar café sentindo cheiro de chuva e provavelmente chegar ao trabalho todo molhado não me foram bem aceitas. Há muito eu deixara de gostar da chuva como outrora. Era mais fácil para eu esquecer, e é agora mais fácil seguir que explicar. Embora eu tenha a clara percepção de que a água da chuva, mesmo a ácida, limpa e beatifica o corpo, não era aquela sensação boa que eu sentia naquele momento.

Levantei com um desgosto plácido e determinado a chegar atrasado ao trabalho, na vã esperança de que a chuva cedesse. Pelo contrário, parecia o replay do dilúvio divino. Água, água, água por todos os cantos, numa sinfonia de sons e texturas, de sentir e engolir de volta lembranças que queriam ser vomitadas no tapete encardido da sala.

No banho, enquanto ensaboava as costas, observei pela pequena janela do box que as árvores da rua que passava atrás do meu prédio estavam todas envergadas, com o vento da chuva. “Uma chuva de vento”, pensei, como há muito não via e há muito não pensava. As lembranças engolidas há pouco, no entanto, voltaram quando estava saindo o trabalho. Ao volante, passando marchas, conferindo velocidade, nível do óleo e essas coisas maquinais, olhei pela janela e vi os rastros finos da chuva forte escorrendo de leve. Então, não tive como segurar.

chuva
As primeiras lágrimas foram fracas, saindo de leve pelo canto dos olhos, embaçando os óculos. Logo, como se uma torneira tivesse sido aberta, passei a chorar copiosamente, mas sem soluçar, sem tremer, sem me alterar.

O choro tinha razão. Aquele traço fino de chuva na janela do carro me remeteu à lembrança mais forte da minha infância quando o assunto era chuva. Para mim, tudo ali era uma festa. Sempre leitor de tudo, estava acostumado a sonhar com poças de água que eu pudesse pisar. Fosse no colégio, fosse em casa.

Em casa era a vez dos banhos de chuva, andando de bicicleta sob o olhar atento e severo de meu pai. Na escola, era hora de desafiar a aderência dos meus tênis ao chão, correndo pelos corredores e quadras molhadas ou respingadas pela chuva. Vi muitos perdendo seus dentes ali, enquanto eu seguia no meu orgulho pueril de nunca ter sido derrotado pela chuva.

A minha derrota, porém, vinha sempre mais tarde. Apaixonado por todos os tipos de azuis, para mim era sempre fascinante perceber que em noites de chuva, ao invés de negro, o céu se torna vermelho, às vezes, levemente roxo. E essa cor, fascinante em todos os seus aspectos, numa pintura da época que deus fazia sentido para mim, me marcou profundamente. A lembrança marcante era de quando minha mãe ia me pegar no colégio. Fim de tarde, início de noite, a primeira parte da chuva do dia já caída, era hora de esperar minha mãe, sentado nas escadarias da escola. Ou então, de brincar, com barcos de papel recém-feitos, nas corredeiras intensas e perigosas da rede de esgoto que passava defronte ao meu colégio. Quando ela chegava, e tomava para si o peso da minha mochila, passava a mão em meus cabelos perguntando como havia sido meu dia, e calmamente abria para mim a porta do nosso velho carro, ali era hora de olhar para o céu e ser absorvido com total intensidade por aquele vermelho. Vermelho de chuva. Vermelho do céu. Meu vermelho, da minha infância, o único vermelho que me inebria, eu que tão fascinado sou pelos azuis.

Então, era por isso que eu chorava. Aquela cor, já esquecida, brotou em mim pelas finas linhas de água que desciam pela janela do meu carro. Não era bem a cor que tinha me aparecido, mas a imagem posterior, de quando eu entrava no carro de minha mãe. Eu sabia que à noite eu teria, assim como o retorno das chuvas com vento e das árvores inclinadas, o céu vermelho de chuva. Já não fazia sentindo saber ou lembrar porque eu não gostava mais de chuvas. Talvez fosse só orgulho bobo, declinar dos prazeres que aquelas águas caídas podem proporcionar. Valia mais à pena apreciar os momentos que eu já tinha vivido, principalmente quando eu era feliz, em que aquela cor estava presente, cheia de poesia e amor, atenção e carinho.

Texto originalmente publicado em algum dia de 2006 e minha homenagem à chuva da tarde de hoje.

Porque chuvas sempre me fascinaram, desde criança. E espero que sigam fascinando.

5 livros bons de dizer que leu

Eu tenho um sério problema com livrarias. Perco [ou ganho] um tempo absurdo lendo títulos, sinopses, cheirando os livros [sim, o cheiro dos livros é MUITO importante]. Invariavelmente eu comprava algum.

Também tenho um problema com livros. Gosto deles, das formas, dos tamanhos, dos cheiros… E gosto de lê-los, claro. Mas, principalmente, gosto de tê-los. Acumular livros nas prateleiras é algo que me fascina. Fico pensando naquelas bibliotecas particulares das grandes mansões, com livros ocupando paredes e mais paredes, uma boa poltrona para leitura e um original qualquer dentro de uma redoma…

Mas, contrariando minha sede por livros não-lidos, tive um surto e quase dupliquei a quantidade de livros lidos este ano. Devorei, inclusive, alguns clássicos, já que é sempre bom fazer aquela média de que lê livros legais.

Vamos então aos “5 livros bons de dizer que leu [e que você leu mesmo]”.

1- O MANÍACO DO OLHO VERDE, de Dalton Trevisan

Temos aqui um Dalton Trevisan, lançado agora em 2008. Contista ágil e doentio, o curitibano me fez ler 128 páginas em coisa de 4h, contando a volta pra casa, a ida e a volta do trabalho no dia seguinte. Ouvindo Radiohead. Não preciso dizer que a combinação foi corrosiva o suficiente para influenciar no meu sono. E como meu sono é uma espécie de entidade que pobres mortais não alcançam, este foi o máximo sinal de que algo [ou melhor, tudo] naquele livro mexeu comigo.

2- O GRANDE GATSBY, de F. Scott Fitzgerald

O meu primeiro Fitzgerald, mesmo que eu tenha “Suave é a Noite” desde a época da faculdade. Com a dica de uma ex-love affair, aceitei o desafio de encarar a narração do autor americano novamente. Foi uma decisão acertada, sem dúvida. Principalmente pela narração, que é fantástica, e pelos “aforismos” que Fitzgerald constrói como poucos. Lido num espaço de cinco dias, as últimas linhas das 252 páginas do O Grande Gatsby são de perder o fôlego e de ficar com a dolorosa sensação de que uma história se esvaiu.

3- O JOGADOR, de Fiódor Dostoiévski

Um dos pilares da moderna literatura russa, [junto com Gogol e Tolstoi], Dostoiévski tinha no realismo a sua casa, o seu lar. Retratar a sociedade em suas minúcias, em seus pequenos e grandes qualidades e defeitos era seu esporte predileto. As digressões do autor sempre enveredavam por caminhos que levavam ao conhecimento das idéias e convicções dos personagens.

Em O Jogador, essas digressões são fascinantes, pois abordam a mente corrompida de um viciado em jogos de azar e eterno apaixonado por uma mulher que o despreza. Desespero e angústia se misturam em cada uma das 174 páginas, consumindo o leitor até o gozo das últimas linhas.

4- PERGUNTE AO PÓ, de John Fante

Arturo Bandini é um loser de marca maior, mais loser que eu ou você, tenha certeza disso. Ainda assim, Bandini é um sujeito encantador, daqueles que você fica com pena por ele ser tão estúpido. Consegue-se até rir do quão quixotesco Arturo é.

Escritor, Bandini tem uma relação patética e muito forte com seu editor, a quem vê como uma entidade. Publicou uma única história, o conto “O Cachorrinho Riu”, e se orgulha dela como se fosse a melhor coisa já escrita no Ocidente. Clássico dos clássicos, Pergunte ao Pó consegue esfregar na cara do leitor como é ruim viver com o olhar perdido do real.

Desnecessária, no entanto, a sua adaptação para o cinema. No filme, temos o irlandês Colin Farrell retratando o ítalo-americando Arturo Bandini.

5- HOMEM COMUM, de Philip Roth

Uma narrativa tão fantástica que li o livro em pouco menos de um dia. Tão fantástica que, nas últimas linhas, senti meu coração pulando algumas batidas. Tão fantástica que foi suficiente para mudar meu humor completamente. Philip Roth aborda a vida, as lembranças e os pequenos/grandes medos de um homem consciente de sua fragilidade.

Essa consciência, no entanto, não torna o livro óbvio ou cheio de clichês. A narrativa de Roth mantém o olhar do leitor apontado sempre para a próxima palavra, embora seja impossível não dar pausas dramáticas para respirar fundo, olhar para o tempo e pensar na vida. Aliás, ao fim do livro, pensar sobre a vida é o menor dos problemas.

I will sing a lullaby

Eu não consigo me controlar
Tenho um demônio na carne, no corpo
Sonho acordada na escuridão da minha cela,
Utilizo os dedos pra provocar sensações proibidas
Eu não sei explicar como isso acontece,
eu sinto um formigamento percorrer o meu corpo,
e algo se desprende, e caminha em direção a você.

[3 Na Massa – Pecadora] 

Mais uma vez sonhei com você. Não como da outra, em que a gente conversava e de repente você se afastava ao menor esboço de aproximação da minha parte. Não foi num bar, numa calçada ou num café perdido no tempo e nas ruas.

Era a casa de alguém próximo a mim, mas muito distante de você. Sonhei, e eu afirmava e dizia sorrindo que ia embora, ia embora de onde eu estava, de volta para os meus, os dos outros, o de sempre.

Sonhei que você aparecia na companhia dele, como se quisesse me forçar a ver que tudo ia bem. E bem que ia, não há razão para mentir. Mas com você lá e ele ali, alguma coisa daria muito errado.

Assim como eu desejei no dia que você recusou todos os meus convites, havia música e dança, além do melhor lubrificante social já inventado.

[essa parte pode ter sido inventada ou não]
Enquanto você não tirava os olhos das marcas nas paredes, ele observava os movimentos precisos dos pares de coxas femininas pelo cômodo, acompanhando a dança com interesse peculiar e libidinoso.

Você olhava as paredes, ele, as coxas, e eu, eu apenas observava você: na gentileza dos seus gestos esboçando um toque na massa que fazia papel de tinta, na precisão do teu traço, no entreabrir da tua boca, forçando a separação lenta e seca dos lábios, logo devidamente umedecidos com a tua língua cruel.
[/essa parte pode ter sido inventada ou não]

De lá te puxei para fora do lugar da dança, da música e da bebida e te pus nos braços, como não havia feito em nenhum outro momento. E assim, nos meus braços e sem explicações maiores, derramei em ti um pouco da saudade que minha boca sentia da tua. Um beijo demorado e suave, causador dum comentário perverso e animado de um dos meus, que passou.

Te pus no chão, cuidando para te pousar de leve. Então, defronte a mim, mais um beijo – no qual sorvi de volta a saudade que minha boca sentia da tua, mas que não te despertava emoção – um olhar, um suspiro e afinal a coragem para a pergunta.

– Por que você faz isso, _________?
– Porque eu sou assim.

…..

Acordei incomodado, como você me deixava. Um incômodo travestido de curiosidade: que raios de força é essa que não se acaba?

Foi então que eu levantei da cama, tomei meu banho, me vesti e saí para mais um dia de trabalho.

Paus, Copas, Ouros e Espadas

Eu não sei para onde eles foram, mas os ases do meu baralho de possibilidades de fuga dentro do que eu penso e do que eu sinto simplesmente sumiram.

Não há nem um motivo em especial. Só há uma certa dormência. Ou uma falta de saco. Não há abertura para que as coisas que eu queria imaginar, as histórias que eu não sei como externar e que eles quatro me facilitavam o caminho.

Assim, eu fico sozinho. Obrigado, Friedrich Wilhelm Nietzsche.