Se meter a besta é pra poucos

“A crise traz oportunidades e mudanças”, dizia biscoito de comida chinesa que eu devorei outro dia. Frase espertinha, deve ter sido retirada de algum livro de auto-ajuda ou coisa parecida.

Mas como as referências quase sempre aparecem na nossa frente pura e simplesmente por que achamos que tudo se encaixa de maneira perfeita, então não custa nada abrir a resenha do livro do Tom Wolfe, “Radical Chique e o Novo Jornalismo” [apenas um dos vários livros da coleção da Cia das Letras sobre o assunto], com a tal frase citada acima.

Por que era diante de uma crise tremenda no jornalismo que o new journalism, e todos os seus desdobramentos, apareceram. Os jornais andavam sem graça, com textos distantes, sem aprofundamento. Repórteres cansados demais para correr atrás da notícia. A rotina sufocante… E aí apareceu o novo estilo, valorizando as histórias, as vivências, a experimentação.

Por que foi um tempo de experimentações, minha gente. De textos livres, focando em diversas histórias, mas principalmente nos personagens, mas não só nos personagens e o que eles estavam fazendo ali, mas também o que os levou até ali, o que mais eles pensavam da vida. Não tenho certeza, mas quero crer que foi aí que surgiu a expressão “melhor pecar pelo excesso que pela falta de informações”.

Junto a um resgate da história e da evolução do jornalismo literário até a chegada nos Truman Capote, Lester Bangs, Gay Talese e afins da vida, Tom Wolfe apresenta alguns textos seus [coisa para saborear aos poucos, como caqui maduro fora da estação].

Na leitura dessa evolução vê-se que o estilo começou a ser construído muito antes de 67, mas sim no século não sei quanto, com o início do uso do realismo nos romances, aí encaixando o meu pouquíssimo lido mas sempre preferido, Fiódor Dostoiévski

Na segunda parte do livro, vem uma série de reportagens do próprio Wolfe, explicitando como se parece uma das várias formas do jornalismo literário se expor para os outros no papel. Aqui sim vê-se recursos infinitos, desdobramentos impossíveis, perguntas e mais perguntas a serem respondidas até o fim da vida.

Tom Wolfe, senhoras e senhores…

E pensar que um dia fui defensor ferrenho do lead e suas possibilidades retardadas pela preguiça. Obviamente que o caminho de um ponto ao outro é árduo e não encontra abrigo nas atuais redações [basta dar uma geral nos jornais pela manhã. É muito difícil encontrar o jornalismo literário sendo desenvolvido por aí. Uma pena.]. Leitura obrigatória para quem não entende de onde o sucesso da revista piauí veio.

Bom, para finalizar, só anotando mentalmente, vamos lá: assim que for professor da UFPI, associar “A Arte de Fazer um Jornal Diário”, “O que é ser Jornalista”, ambos do recifense Ricardo Noblat, com o “Radical Chique e o Novo Jornalismo” de Tom Wolfe. Leitura obrigatória dos três, em seqüência, com resenha escrita, além de debate oral na quarta semana de aula envolvendo a realidade do jornalismo teresinense, piauiense e brasileiro com o que foi absorvido dos livros. Quem viver, verá!