Cole aqui sua desculpa esfarrapada

Hoje ela me juntou no sofá, como quase sempre junta, e botando a leitura de lado, perguntou porque jornalistas costumam escrever tão pouco fora do ambiente de trabalho. A impressão dela, depois de três anos na mesma casa, era de que uma parcela considerável daqueles jornalistas acreditavam – ou não faziam nada para desmentir os boatos – no produzido ao batente como a meta do dia. Perspicaz, correto?

Enquanto ela desfilava seus argumentos pra lá de charmosos e instigantes, eu me recordava de um daqueles perfis @qualquercoisadadepressao, que um dia tuitou como era profunda a tristeza de passar o dia produzindo para seus clientes e chegar à noite não ter disposição para enfim produzir para si. Válido, como toda generalização. Pensei nisso e imediatamente concluí que… epa, não é por isso que eu deixo de escrever no blog não, hein?

Não, não é.

Talvez a minha desculpa predileta seja a que me apareceu, acho, logo na introdução de A Arte de Fazer um Jornal Diário, do Noblat. E vinha com uma história, claro. Contava ele que uma pesquisa feita por X no ano Y sobre o hábito de consumo de informação nos EUA [???] tinha apresentado que dentre os leitores mais fiéis do NYT, apenas 3% liam o jornal inteiro. Dos infinitos pontos finais dos incontáveis textos das sei lá quantas páginas que uma edição ordinária do maior jornal do mundo colocava nas bancas e nas mesas de milhares de leitores, apenas 3% deles eram vislumbrados, admirados. “Logo…”, se você quer leitores para o seu o texto, é bom que ele tenha um abre que instigue, prenda, prometa e cumpra, bata o escanteio e faça o gol de bicicleta…

Essa parecia sempre perfeita e a postos para dissipar – ainda que momentaneamente – a pilha de escrever um texto. Como fugir à necessidade de ter a frase, o argumento, o punchline perfeitos? Impossível. Ideia sem forma não dá.

Mas também não é por isso que eu deixo de escrever.

Outro sambarilóve recorrente – e que se encaixa perfeitamente a esse de cima – é a dificuldade em manter a inspiração por perto. Vem a fagulha mas a palha não está lá muito seca pra fazer todo aquele esforço virar fogo. Pior é quando você anota os raciocínios que te motivaram a escrever um texto mas quando encara aqueles rabiscos ou pixels, eles não passam de agrupamentos de palavras; a verve passou.

Já inventaram ferramentas, métodos, passos e todo tipo de pajelança que prometa manter produtores de conteúdo na linha, quase todos sem sucesso. Um dia é cansaço, no outro é o vinho, num terceiro preguiça, mais adiante sono e por aí vai. Mas quem lê tanta notícia, não é mesmo, Caetano?

Nessas, outra boa desculpa é quando a ideia do post que quero escrever não convence nem a mim, que dirá a um ocasional leitor…

***

Uma coisa marcante que a internet nos deu foram os pedidos de desculpa por falta de postagens em blogs/tumblrs e afins. Quase tão quanto as despedidas e assinaturas ao fim de cada post. A ideia de audiência, o compromisso com ela. Tão… 2000, 2001. Quantos desses pedidos nós já não lemos por aí. Acabam funcionando como o live action daquela história do guri que mentia sobre estar se afogando num lago [ou sendo atacado por um lobo] e, de tanto abusar da fé das pessoas ao seu redor, acabava mesmo era se ferrando bonito. Trágico, mas só o bullying educa.

Talvez a “desculpa” mais esfarrapada e ainda assim a única real seja a de que quem escreve precisa de uma motivação para escrever. Não inspiração. Não tempo. Não tesão. Motivação. Um motivo. Uma razão. A morte do cachorro. A promoção. O evento incrível. O evento não tão incrível

E a minha sumiu. Acho que ficou tão satisfeita em me ver feliz que foi passear…

heartbreaker/broken-hearted

we’ve been had

i see myself change as the days change over
i hear the songs and the words don’t change
i write them out of the book right there
we’ve been had, you say it’s over
sometimes I’m just happy I’m older
we’ve been had I know it’s over
somehow it got easy to laugh out loud

on the water

all the windows are glowing
the branches bending low
the skyline is swinging
rocking back and forth
walking down this dirt road
watching at the sky
it’s all I can do

all hands and the cook

and by the way, it won’t last
the rain will come, the summer’s passed
three shots fired to call us back
you were lost
when I found you
after all, you promised me
a broken nose, a twisted knee

“Bota no SBT, por favor?”

Então desde o ano passado que desistimos de ter TV em casa. O aparelho continua na sala, ligado ao DVD e ao Wii, mas sem cabo de NET, TVA ou Sky que pudesse levar até ele toda aquela programação variada e empolgante.

Passamos a viver de janela, sofá, filmes e seriados baixados, partidas de Rock Band, discos novos tocando no aparador, noites vendo qualquer coisa no PC enquanto uma torta fica pronta, lemos um livro. Ao passo em que ela ainda reclama um tanto, aqui e ali, de não ter uma Globo pra ver o JN ou um GNT pra ver os programas de moda, ou ainda que a gente nunca mais tenha parado pra discutir o que tomam as gatas de faculdades americanas que recheiam aqueles programas do Multishow depois da meia noite, eu passei muito bem, obrigado.

Não ter TV é… ok, até irrelevante. Basta ficar um tempo sem para você ver que ela nunca foi necessária. Não falo aqui de um ativismo contra a influência das TV sobre nossos cérebros e como as TVs criam as crianças, mas simplesmente que, assim como fumar e give valuable time to people who don’t care if I live or die, assistir TV é algo a que se está acostumado apenas.

Na última ida a Teresina, fui visitar a casa de dois amigos de adolescência que casaram recentemente. A casa deles tem duas TVs, uma na sala e outra no quarto do casal. Enquanto os gurizões ocupavam a sala em partidas de SFIV, a guria assistia ao Fantástico no quarto. Durante quanto tempo minha vida não foi assim, com uma abundância de aparelhos e de tempo diante da telinha, vendo programas pela metade? Enquanto jantávamos, me espantei com uma notícia que era comum a todos que assistiram o JN do sábado. O amigo então perguntou: tu não tem TV, cara? Vocês não assistem TV?

“Não, ué. Normal”
“Nossa, vocês são diferentes mesmo”.

Para pessoas que se conhecem há 15 anos, um comentário desse tipo é acompanhado de uma carga irônica típica, o amigo só queria me encher o saco. O estranhamento, no entanto, dava pintas de ser real. Por quê?

[Tirando o fato de que não dependo apenas da TV e dos telejornais para me informar, estar em férias seria a perfeita justificativa para o isolamento informacional. – fim do disclaimer -]

TUDO ISSO para dizer que ontem evitamos fazer jantar em casa indo ao boteco da esquina tomar cerveja. E que os botecos, bares e restaurantes sabem disso, com suas TVs de telas planas e muitos canais.

Com duas tvs ligadas no salão, me veio o clique, não tão eureka assim, de que sair de casa, ir a restaurante, bares, botecos e congêneres é também a oportunidade de ver em que pé anda aquele circo, quem é protagonista de onde, como é a abertura do seriado novo da Globo, que ator da Praça é Nossa sumiu misteriosamente?. E o vício dos nossos olhos em buscar a telinha só mostra que não fumamos enquanto ninguém passa cheirando a Lucky Strike do nosso ladou ou não ligamos para quem pouco se lixa se vivemos ou morremos [sorry, Morrissey] enquanto mantivermos alto grau alcoólico e celulares longe da mesma equação.

E isso porque demos na telha de não levar o celular, senão corria o risco da telinha ganhar da telona.

Estamos condenados…

O tamanho da minha sorte

No primeiro fim de semana depois que comprei o long, botei a preguiça de lado e fui pra Paulista testar o novo animal. Satisfação imensa, prazer redobrado, mais velocidade, mais estabilidade, mais segurança nas remadas [mais esforço…].

Na volta pra casa, o diabo atentou. ~ E se tu descer a Peixoto Gomide? Vamos ver se esse tal de long é massa mesmo ~

Claro que cedi. Durante a meia hora em que esperei pelo alívio do trânsito da Peixoto, respiro também necessário à cada-vez-mais-próxima urgência em fazer uso da minha sorte, não pensei em nada. Enquanto se passaram aqueles 30 segundos sem que nenhum carro apontasse na curva do Hospital Nove de Julho, não pensei em nada. Ao apontar o long para a ladeira, também não pensei em nada.

Mas assim que subi no maldito e comecei a primeira descida de ladeira com aquele artefato estranho e agora bem menos estável embaixo dos pés, pensei, óbvio, que havia me fudido em diversos aspectos. Os carros – que agora naturalmente voltavam a preencher todas as faixas da Peixoto – foram suficientes para transformar o pensamento em certeza.

Sinalizei o quanto e como pude que me manteria junto à calçada e torci [rezei, esperei…]. Quando não dava mais – sempre chega essa hora -, pulei do skate, explodi mais uma bomba de impacto nos meus saudáveis joelhos de ex peladeiro de basquete e decidi que ainda não era hora para aqueles desafios.

Quando mais a frente no caminho topei com a roda do long numa vala, fui ao chão e não sei se por milagre ou por ironia, nenhum carro me atropelou, bem, achei que já era demais e voltei pra casa humilhado pela minha falta de senso.

Uns fins de semanas depois, saí para andar com um amigo, ele com um skate “normal” e eu com o long. Depois de subirmos e descermos a Paulista, enveredamos pela Angélica na esperança de um bom lugar para tomar um suco ou quebrar um osso.

Achamos o segundo. Numa manobra comprometida pela presença inesperada de um abacate no pouso de um ollie, meu amigo quebrou a clavícula.

Meu medo, sempre tão presente a cada saída para andar de skate, de quebrar uma perna ou um braço e ter que ficar um, dois, três meses de molho, se concretizou ali na minha frente. Uma manobra errada = 45 dias de gesso e tipóia, mais não sei outros quantos de fisioterapia.

Eu abuso da minha sorte.

Onde estavam essas gurias durante a nossa adolescência, certo?

Best Coast chegou como bomba indie, passou a ter umas três musiquinhas legais e agora tem até música da semana. Não só porque é ótima ou porque fala de uma guria muito satisfeita com o relacionamento dela e com o cara que está com ela [uau], mas também porque o clipe dessa When I’m With You é ótimo.

E aqui, um caramelo: