s/t zerotrês

Então mais uma vez é dezembro, e as ruas inteiras fazem o favor de cheirar a férias, a tranquilidade, a futebol na praça, a sorvete, a Rio de Janeiro, a faculdade, a saudade, a macarrona da mãe, a chatice de irmã, a chá de primo. O tempo passa em outro ritmo, as pessoas giram bem rápido de felicidade a cada cinco passos, os gritos de alegria vem das janelas, e de novo você sabe que um ano acabou e que aquela paz de três ou um mês [ou do seu recesso de 15, 10, 5 dias] acomete seu peito. É quando o ano pede trégua: correu tanto, o malino, que agora quer descanso, quer respirar.

Aí o peito sobre e desce como se sempre dormisse, como se sempre tivesse visto a cidade, como se todos os dias encontrasse na mesma mulher o meu amor.

Quero fazer um ensaio só com fotos do por do sol caindo na parede do prédio defronte ao nosso. Assim, mesmo bem clichê, como aquele cheiro dos corredores dos prédios com mais de 50 anos.

Quero de novo pegar o carro e subir para o litoral, quero mostrar a cidade a ela, apresentar meus cantos, ir no jantar da casa da avó, banho na piscina da casa do amigo. As tardes de dezembro em Teresina tiveram tantos detalhes e percepções que hoje, sentir o mês chegando e me envolvendo transborda em mim uma infinidade de sabores e texturas. Sou ao mesmo tempo eu com 5, com 10, com 15, com 20 e com 25.

Como a vida é boa.

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Poema da infãncia

Quem és tu, pobre vivente
Que vagas triste e sozinho,
Que tens os raios da estrela,
E as asas do passarinho?

E durante muito tempo, em certas épocas do ano, eu fiquei recitando isso a esmo. Por anos e anos a fio.

[UPDATE] Como me lembrou nos comentários o Adriano Lobão Aragão, faltou dizer que o poema é do autor carioca Fagundes Varela. O poema completo está aqui.

Como em julho de 96

Hoje São Bernardo amanheceu ensolarada, preguiçosa e com um vento que batia na porta da varandinha aqui do apê desde cedo. Com compromissos pra resolver, bermuda, camiseta e havaiana de pedreiro, botar o pé na rua foi um movimento sóbrio e tranquilo. Tem um bom tempo que nostalgia nenhuma me abate. Claro, há saudade de certas coisas, alguns momentos, mas essas vêm mais à noite, naqueles segundos que duram uma noite inteira de sono, como é natural…

Mas como aconteceu no julho de 96, nas férias de julho de 96, andar pelas ruas de SBC e ver as copas das árvores balançando e o vento desalinhando o cabelo das pessoas me fez calcular qual o local mais indicado para soltar uma pipa, onde eu poderia arranjar um bom pedaço de bambu, se a venda da esquina teria linha .10 e seda e como eu poderia fazer uma boa rabiola, se com seda ou se com saco de supermercado. Pensei rápido se eu ainda saberia fazer os “besouros” que meu pai me ensinou naquelas férias, a coisa mais simples do mundo mas que eu não faço tem uns 10 anos.

Eu me toco que não é nostalgia, lembrança do meu tempo de criança, vontade de voltar à infância nem nada disso. São só lembranças boas, daquelas que fazem você sorrir do nada e dar ‘bom dia’ pras senhoras que voltam da feira caminhando. Faz parte do mesmo grupo de recordações o tempo que eu ia para o centro de Teresina rodar de banca em banca lendo as revistas aos pedaços, ver as pessoas nas praças, comer pastel com caldo de cana… Essas coisas pequenas…

Será se a Eva gosta de pipa?