“A benção, mãe”

Minha mãe me liga sempre. Eu, que não dei o golpe da faculdade pra ir morar longe de casa, acabei dando o da vida adulta à distância. E mudando um tanto o recorte temporal, acabo adivinhando quando o telefone vai tocar.

Se o céu começa a ficar bonito pra chover, sei que vai bastar a escalada do Jornal Nacional para o 086 aparecer no visor do celular.

Se vai chegando o domingo, ou o fim do domingo, rola aquela ligação da saudade matreira de mãe. Pergunta da saúde. Das contas. Dos estudos. Do casamento. Dos dentes. Da comida. O que tenho feito. Se ainda vejo os amigos.

E aí falo da saúde de ferro, da aversão a qualquer tipo de estudo formal que a experiência de mais um TCC nos couros me trouxe, do amor bom, do dentista, da receita nova que aprendi, da vida caseira…

Já eu, eu não ligo muito. Talvez imunidade a saudade, talvez desapego, talvez a vida intensamente ao redor. Nunca saberei.

E mesmo que eu não ligue, mesmo que ela me ligue no meio do expediente, não posso fugir. “Não posso falar agora, mãe” é o tipo de frase que só cola aqui e acolá. E nunca, nunca, nunca fica faltando a benção ao final. Não adiantou me declarar ateu dentro de casa, me negar a fazer crisma, fugir de todas as formas possíveis de convites para ir à missa.

“Benção, mãe?”
“A benção, meu filho”

Inacreditável, mas isso é o Mars Volta:



Essa semana escutei muitos discos brazucas bons. Um deles foi o do Lucas Santtana. De todas, Jogos Madrugais foi a que mais me derreteu.

“Pupilas que dilatam
Enquanto o corpo aquece”

“As minhas mãos não param
Meus dedos se alimentam
Sentidos que explodem
Para que outros adormeçam”

“Eu gosto de varar a madrugada
Jogar até o corpo exaurido cessar resposta”

Jogar até o corpo exaurido cessar resposta não parece nada mau, hein?



Seguindo no ritmo da saliência meio pronunciada, a Academia da Berlinda aloprou em Cumbia da Praia.


“Vou chamá-la para ir à praia
Tomar uma breja no calor
Quando ela chega lá na areia
Bota logo a canga pra deitar
Pede pra eu passar bronzeador
Eu fico sem poder me levantar”

Mas de tudo, de todas, nenhuma me feriu como outra do Lucas Santtana.


“Só quero ver a onda alegre subindo e descendo
e eu também com ela subindo e descendo
e a nêga comigo nesse vai e vem”

Às 07h o telefone toca

É você do outro lado, rindo como se fosse jovem de novo, preocupada com as estações de ano que nos separam, se já não fossem os 1.800 km. Enquanto aqui é outono, aí é o inverno torto, que chove e tudo alaga, e eu minto, minto com convicção e voz tremida de quem acabou de acordar.

Você fala dele, o negro amado quase da minha altura e quase da minha idade e todo dentro do meu peito que está bem, fala das vias alagadas, das coisas que eu já não sei mais, é uma coisa que naturalmente acontece, eu até poderia falar tudo, mas é principalmente quando eu calo que eu sinto uma força diferente se materializando dentro do meu estômago. O aperto se dissipa com o copo de água gelada religiosamente tomando todos os dias pela manhã. Água gelada sempre me fez pensar melhor.

Você pergunta então sobre os projetos que já não fazem mais parte da pauta do meu dia, eu lembro que acordei às 05h30, antes de tudo tocar, despertadores ou preocupações, e essas segundas quase me deixam acordado. A agonia da prova de matemática no dia seguinte nunca me fez perder o sono, quem diria um desarranjo qualquer. Só que a sua voz, naturalmente aguda, me faz enternecer dentro de mim mesmo. Derreto por dentro na negação do seu desejo mais puro e menos útil, mas ainda assim nunca não-válido. Quem sabe quando você entrar? Não, não precisa, é uma coisa desnecessária. Por que você não gosta ou por que você não quer? Porque eu não quero. Então eu faço questão. Quem sabe quando você entrar? Então você faz uma referência à espessura e ao grau que assim terei. Eu rio e concordo.

E eu penso que foi ele quem me passou toda essa teimosia e gana pela verdade levar meu nome, mas na verdade veio tudo de você. E quando, três minutos e alguns segundos depois, você desliga, tomo mais um gole de água gelada, coço os olhos na intenção de esconder o que o soluço não permite e sigo para o banho que rotina mais um dia.