Um passo por vez

Quando minha primeira namorada terminou comigo, eu estava de recuperação em Química e Português, no 2º ano. Eu era bem “sixteen, clumsy and shy“, como diria Morrissey, e ela era linda, de cabelos castanhos quase ruivos e sorriso espontâneo, cheio de dentes. Ficamos juntos por alguns meses, namorando escondido (a família dela não apreciava que a filha de 14 anos estivesse num relacionamento…), falando ao telefone e se vendo em ocasiões muito específicas: nas tardes de quarta, depois da Educação Física, e sempre que o destino nos privilegiava com uma ida ao shopping, desacompanhados. Foram poucos, esse segundo tipo de encontro.

“And he told me all romantics meet the same fate someday:
Cynical and drunk and boring someone in some dark cafe”
Joni Mitchell – The last time I saw Richard

Ainda lembro da manhã de dezembro em que nossa cupido (e algoz) se chegou pra mim no corredor do “prédio novo” do Diocesano com um envelopinho na mão. “A Lorenna te mandou uma carta”. Não lembro de uma palavra sequer do que dizia lá. Só sei que nela meu namoro acabava e essa foi minha primeira experiência com o fim do amor. Fim de modo prático, claro. Me senti bem mal por um tempo; lembro de chegar em casa da aula e passar o resto do dia lendo e relendo a carta (que hoje não tenho mais), até a noite, quando minha mãe chegou, me viu ainda de farda e perguntou se estava tudo bem.

tumblr_mqstqyjulR1qzgzl9o1_1280

Não ficou por um bom tempo, não sei dizer quanto.


Num verão muito, muito distante, andava junto com minha tia Gê pelo centro de Teresina quando, descendo uma calçada, ela pisou em falso e torceu o pé. Eu nunca havia torcido o pé e fiquei um tempo tentando entender porque ela não conseguia andar mais, parou para pedir um taxi e ir para casa. Falta de repertório. A torção, no fim, se mostrou séria, pediu gesso e analgésico.

Eu quase já nem lembrava mais dessa história, só mais do desfecho: findo o período em que a imobilização era necessária, fui com minha tia Gê até uma clínica ortopédica para retirar o gesso. Usavam uma serra muito esperta que, de acordo com o técnico que a operava, só cortava o gesso, nunca a carne. Até testou na própria mão, diante da insegurança de minha tia. “Sei que parou aí na sua mão, moço, mas vai saber se vai parar quando for a minha vez”.

Resultado: uma operação que deveria durar cinco minutos, levou 25, com esforço extra para amolecer e cortar o gesso. Quando eu torci o tornozelo pela primeira vez, já alguns anos depois de minha tia, não usei serra nem fui a clínica alguma para tirar o pé da “bota”: enchi um balde com água quente e fui tirando o gesso no banheiro dos fundos do apartamento.

“I just don’t know what to do
I’m too afraid to love you”
The Black Keys – Too afraid to love you

Gessos e amores certamente têm pouquíssimas coisas em comum quando se pensa de maneira prática. Quando se estica a corda do argumento, no entanto, é possível chegar a algumas conexões.

Conheço gente que remenda o osso do coração com um amor por sobre o outro, sufocando um término de história com o início de outra. “Desde os 17 anos, devo ter passado uns 4 meses sozinha, no total”. Sufocando talvez seja uma escolha de verbo muito tendenciosa, mas vamos deixar assim. Também conheço gente que acha que o amor é uma prisãozinha muito da cretina, que imobiliza a espontaneidade, que dificulta a locomoção, que exige muleta e saco de supermercado amarradinho ao redor do gesso na hora de tomar banho.

Ultimamente tenho pendido para o segundo grupo – infelizmente, devo confessar. Infelizmente inclusive porque durante muito, muito tempo eu fui um grande admirador do amor, fui seu defensor e entusiasta. Mas, como é comum quando a gente livra o pé depois de muito tempo imobilizado, fica a pisada ainda fraca, o vacilo quando se esforça o pé além de certo ponto, um pouco de receio, outro tanto de insegurança.

“The saddest part of a broken heart
Isn’t the ending so much as the start”
Feist – Let it die

Por mais que tu saiba que sim, que tu ainda vai voltar a andar sem vacilo, medo, insegurança ou fraqueza, durante um tempo – às vezes muito mais longo do que a recuperação de um membro recém-engessado exige, às vezes muito mais curto, é imprevisível – fica o receio à espreita. Eu sei, Xico Sá, eu sei “que o sujeito que tem medo do amor não merece sequer o adeus de uma daquelas mãozinhas de plástico que enfeitavam os carros antigamente“. O que eu posso fazer se é assim que eu me vejo hoje? Se é assim que se sentem não só os homens, como as mulheres também, quando se vêem sem, deixados ou deixando, perdidos do amor? Entendo a sanha imperativa e o conselho duro do nordestino que não tem tempo para gastar latim. Eu entendo, ele fala diretamente comigo.

O amor, essa célula revolucionária mais forte que um simples coração (um beijo, Edukators!), muitas vezes não respeita compasso algum, quer atravessar os ritmos e impor sua própria dinâmica. E a gente, tão castigado, quebrado, remendado e, principalmente, ressabiado, fica de orelha em pé e de olhos muito atentos aos movimentos do amor. Fugir, calar, atacar, sumir: os truques e reações são muitos. Podem ser muitos. Ainda assim, todos esses movimentos – a gente sabe, e por favor, pode concordar em silêncio – são só um duelo entre domador e fera indomável, cruzando e trocando de papéis a cada estalo do chicote. Uma dança em que os dois lados do par querem conduzir.

E ai, é como diz Jair Naves, ex-vocalista do Ludovic e atualmente em carreira solo. “Eu quase nunca me apaixono, não é assim que eu funciono. […] É bom dar um passo por vez”.

Anúncios