4ª carta

Na parábola bíblica, Babel era a torre que queria chegar aos céus. Diante de tamanha afronta, Deus (ela mesmo, a Alanis) mandou um raio e ZIP!, mudou a língua de todo mundo e ficou cada um falando um idioma diferente.

No filme Babel, a língua é uma puta barreira para todos os personagens do filme. Inglês, espanhol, ‘marroquino’, japonês, linguagem de sinais, tudo é barreira para que as pessoas se entendam.

Claro!

Na cidade ‘babelística’ de São Paulo, a barreira é o silêncio. Tal como naquela festa relatada na Bravo! que li indo para Jeri [aquela, do Paulinho da Viola e do Arnaldo Antunes na capa], capa um está imerso no seu próprio MP3/MP4 que toca até 12h seguidas com a mesma pilha AAA [essas você encontra no Pão de Açúcar por R$ 6,29 o par].

Cada um está imerso numa realidade diferente de sons. Cada um está mais isolado ainda do outro, perdido entre Mombojó, Ludovic e Chico & Caetano [como eu], ou emocore, metal, samba, rap, hip hop, whatever

Os paulistas não tem costume de serem tão abertos ou educados [no nosso ponto de vista] quanto nós. Talvez seja o clima, os genes, ou apenas medo.

Eu já falei disso em outra carta, mas é tão marcante, tão presente, que o silêncio nem incomoda mais. Tenho medo de me tornar um deles.

A falta de alguém para conversar, beber a Absolut que está no meu guarda-roupa ou para apenas dividir o mesmo ambiente faz de mim recluso do meu silêncio.

Imagine você não ter com que ou porque falar durante horas seguidas. Imagine que eu não tenho ninguém para compartilhar os dez filmes que eu vi durante o Carnaval. Já não está doendo tanto assim. E só faz um mês que aqui estou.

Um dia, um pouco antes de começar na Abril, perguntei a um amigo o que eu deveria estar atento quanto aos paulistanos. “Eles são um povo que não acham legal quando você chega querendo abafar. Ouça e observe”, disse ele, mais ou menos isso.

E assim tenho feito. É como em “Little Miss Sunshine”: voto de silêncio e observação. Always.

Carnaval, carnaval, carnaval
Fico tão triste quando chega o carnaval

[Luiz Melodia]

Sabe que eu nem fico mais triste? Esse talvez tenha sido o Carnaval mais sereno da minha vida. Saudade? Claro! Mas a cada sessão, a cada filme, pessoas diferentes pediam licença para adentrar minha vida. Cada personagem vinha de um canto diferente, falava de um jeito diferente, pedia uma coisa diferente.

Essa novidade constante, essa coisa de histórias novas em todo canto, me deixava mais relaxado, mais tranqüilo. Cada rosto conhecido que eu não encontro em cada esquina que eu dobro me faz pensar melhor em cada passo que dou.

Uma coisa que me acalenta é que eu leio mensagens de celular, no msn ou e-mails escutando a voz de quem escreveu dentro da minha cabeça, como se ela lesse o texto.

E há vozes [sim, a sua…] que, mesmo não querendo, eu já começo a esquecer. E eu não quero isso. Juro!

Tenho uns postais bacanas para enviar. Do pub irlandês que fui outro dia, peguei 14. Preciso do endereço completo dos interessados.

E, por favor, não me deixe[m] esquecer sua[s] voz[es]. É isso que me enche de alegria.

Pedro Jansen
20.02.07

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3ª carta

Na Bahia já é Carnaval desde o fim de semana passado. Festa dos excessos, dizem. Festa dos prazeres, acho.

Em 2005, pude trabalhar na avenida, entrevistando pessoas, passistas, empurradores de carro alegórico… Pude ver, inclusive, o Bloco Lissosomos, levando maracatu torto para a Marechal Castelo Branco, com uma mocinha vestida de manhã à frente do tal bloco de organelas lisas. Vi também o Coisa de Nêgo e suas cores, seus tambores, suas danças, suas crenças.

Vi muita coisa, comi panelada, e algodão-doce. Pouco dormi.

Em 2006, a Casa de Vovó e o Castelo dos Indecentes foram a pauta, com direito a liseira braba, e ainda assim uísque, cerveja, vinho e outros baratos mais. Teve panelada, Pirata, palhaços, bloco de sujo e muita rave. Fazer buraco no chão, ver o dia amanhecer, a lua, céu, o sol, o mar. Coisas demais.

Dois mil e sete vem para ser um ano igaul ais da minha infância. Sem folia, sem bebida, sem panelada, sem rave, sem maracatu, sem nada demais. Com livros, cinema, shows, coisas diferentes. Com a Paulista só pra mim. Com tempo de ser boêmio, andar de metrô, pensar na vida, tomar chá de cidreira.

Sem passistas, sem amigos, se amanhecer na praia.

Já viram roqueiro sentindo nostalgia de carnavais passados? Que coisa mais louca… Mas vejamos: se eu estou com nostaldia do que ainda nem começou, talvez o Carnaval já faça parte de mim. Vai saber.

Meu bonsai voltou a viver. Está verde, com terra bem úmida, vistoso. Meu quarto (minha mansão), por sua vez, está uma fuzarca que não se entende.

Finalmente desisti que minhas roupas ficassem limpas sozinhas. Já é hora de lavá-las… Só que não agora, não já… Nesse momento, enquanto o Ludovic toca no MP3 Player (essa benção da tecnologia), eu só penso em como as pessoas daqui da pensão devem ser mais solitárias que eu.

Claro que eu também penso em 1001 outras cosias, mas, às vezes, só às vezes, é bom falar da dor alheia.

A colônia piauiense conhecida foi quase toda para fora de São Paulo. E embora ainda haja alguém por aqui, é daddo o direito e o dever de se ficar sozinho. “Uma viagem de auto-conhecimento”, disse eu para a Sâmula. Engraçado que hoje eu entrei no MSN e por algum treco qualquer, meu nick do último dia em Teresina apareceu. “Amanhã, 03h, todo mundo no aeroporto para um último abraço”, ou qualquer coisa que o valha. E desde pequeno eu sou assim, king of drama. Lembro de uma vez, eu pequeno no RJ e dizer para uma tia minha, um dia antes de voltar para Teresina: “vamo na praia, tia, um último banho de mar”. E ela, retrucando ligeira: “último não, meu filho. Você ainda vai tomar muitos banhos de mar”. E ela estava certa, embora hoje eu rejeite a praia e seu calor insuportável.

Penso agora, e mais precisamente em um tempo que eu não sei, que eu vou, sim, dar ainda muitos outros abraços. Não há razão para pensar que os poucos que o vôo adiantado da GOL me permitiu dar foram os últimos.

“Nem uma lágrima derramei por você”, e eu agora penso que a saudade não vai me levar ao choro. E agora é uma palavra boa para se usar.

Por que na quinta eu conheci a Fernanda, senhora mãe da prima de um amigo, que estudou na UNB em 1970! Ela lutou contra a ditadura e outras coisas mais, E ela é foda, sóbria, lúcida (não no sentido de não-esclerosada, mas de certa do que vê e pensa) e tudo que ela me falou de conscientização, movimento estudantil e afins me fez pensar no CA, nas minhas escolhas e no que eu faço hoje.

Eu gosto de pensar que eu teria lutado, lutado bastante, gritado, bradado nas ruas, jogado pedras, bolas de gude na cavalaria, feito e acontecido. Hoje, algumas coisas me cansaram, simplesmente. Me tornei mais um deles (com ressalva, por eu tenho meus princípios, porra!), mas pelo que a tia Fernanda disse, do alto da sua sobriedade, é que cada momento deve ser respeitado. Se hoje você quer isso e amanhã não mais, desde que isso não mude seu caráter, está tudo bem. Não há certo nem errado.

“Eu não faria disso um problema”. E assim a vida segue.

Pedro Jansen
16.02.07

2ª carta

Olhei agora no relógio e me confundi. Pensei ter visto 00:00, mas sabe como esses relógios digitais confundem a gente… Já são 00:08.

Caso fosse 00:00, seria a hora convencionada a ser chamada como “hora do rabudo”. Nem dia nem noite.

Aqui é tudo meio assim… Meio termos…

São Paulo é feita por muitos deles. Outro dia fui ao HSBC Belas Artes, um cinema com boas opções de filme [estava passando até o Lolita do Kubrick, que deve ser bem melhor que a versão que saiu um ano aí…]. Fui assistir um filme pseudobobo, pseudo-sério, chamado Stranger The Ficcion, aka Killing Harold Crick [no Brasil, ele ficou com uma tradução literal do primeiro, “Mais estranho que a ficção”. Bola fora]. O filme em si é bem médio, bom e ruim. Acerta umas coisas, erra outras.

Por isso, ao sair da sessão, o dia ainda era claro [nota: aqui só escurece depois das 20h… mal/bem dessa terra que tem estações do ano], eu queria beber alguma coisa.

Tomei uma Malzebier e ganhei um conselho: “alguém com conversa fiada pra cima de você? Passe direto!”. Fácil entender a frieza dessa terra. As pessoas aprenderam a não dar confiança para os outros na rua. Seja um ladrão [bom!], seja alguém oferencendo uma revista de teatro ou uma feita por/para moradores de rua [médio…] ou alguém pedindo informações [ruim!].

O complicado mesmo é saber que o povo só aprende como vai para o trabalho. Outros tantos caminhos são ignorados. Nem os motoristas de ônibus sabem tudo. Os carros ricos e os táxis para executivos têm GPS no painel. Uma brasa, mora?

Mas esse ignorar é quase compreensível, sabendo que a cidade tem esse tamanho imbecil.

Outro dia fui fazer minha matrícula na especialização. Mais precisamente na quinta passada. A impressão que deu é de que choveu a noite toda, ‘terra da garoa’ é isso aí. Eu estava com meu dinheiro contado. Juntei as últimas moedas para tomar café e comprei um guarda-chuvas com elas. Vamos lá: 350 pila para a minha mansão + 477,27 para a facul. Zero reais para colocar no meu cartão de passe único [que une ônibus e metrô. Em duas horas você pode pegar até três conduções pelo preço de uma, se só ônibus, ou de uma e meio se for de ônibus e metrô. A passagem de ônibus é 2,30]. Peguei o metrô até a estação da Saúde, mas não me pergunte onde fica.

Lá, descobri onde pegava o ônibus para São Bernardo do Campo, onde fica a Metodista. Entrei no ônibus, encostei o cartão na leitora e nada!

O motorista então me diz que a passagem é diferenciada.. R$ 2,80 para 12,1 km. Justo.

Meto a mão nos meus 10 real de segurança [comida ou dinheiro do ladrão, o que aparecer primeiro]. 7,20 me sobram para comprar jornal do ABC para ver os classificados, voltar para Sampa e comer! Impossível. Eu teria que achar uma lotérica para retirar os oito conto que lá ficaram.

Na Metodista, faço minha matrícula, que fica só por 425!!! Ótimo, 50 reais inesperados! Eu estava salvo!!! My great luck strikes again!

“Teresina é com S e não com Z”, digo pra moça do cadastro. “É…? Ta, eu corrijo no sistema”. “Do Piauí, você?”. “É, nascido e formado lá”.

Resolvo tudo e fico feliz, uma alegria fudida me toma, me engole. “PUTAQUEPARIU! Eu vou fazer especialização em Jornalismo Cultural!!!”

Aviso a todos, compro jornal, pego ônibus, chego em Sampa [não se percebe a mudança de uma cidade para a outra…], almoço num botequim, chego na Abril, trabalho, casa. Feliz.

Sexta vem como dia de glória. Centenário de Victor Civita, fundador da Abril, meus cartões dos bancos chegam, salvo meu bonsai da morte. À noite, escrevo, penso, vejo, escuto e vou dormir perto da meia noite.

No meio do sono, sonho com um show do Caetano Veloso. Acaba o show, vou para o metrô e um segundo antes das portas fecharem entra um cara esbaforido. Era o Caê. “E aí, chateado com o show?”, perguntei.

A resposta eu não lembro. Só sei que do metrô eu sabia que estávamos no cruzamento da Ipiranga com a São João.

Aos poucos [de um dia para o outro], essa cidade vai se tornando a segunda melhor da América do Sul.

Pedro Jansen
09-10.02.07

1ª carta

Lá fora eu escuto a tosse dos carros e o ronco das pessoas [ou seria o contrário?], mas não escuto o som bom da chuva.

Menos mal, eu penso rápido, esquecendo como a chuva e as noites de chuva me são caras.

O problema é que aqui o céu não fica vermelho. É só um cinza sem fim e depois um negrume natural da noite, até o dia amanhecer fresco, ameno e surpreendentemente claro. Até o azul do céu é possível ver, e nuvens brancas também.

E essa foi a coisa que mais me fascinou: essa cidade ainda respira. Mesmo que o rodízio de carros tenha voltado.

Bom mesmo é saber que o mundo vai realmente acabar por culpa do homem e que quando eu estranhava as confusões climáticas ainda na escola, nos idos de 98, não era apenas uma coincidência qualquer. Era o início do fim.

Melhor ainda é começar a perceber que a pergunta “qual é a boa de hoje?” faz cada vez menos sentido. Não se tem dinheiro, não se tem pique, não se tem amigos.

Acho que agora é chegado o tempo de acordar na segunda-feira sem pensar no que será o sábado. Acordo todo dia pensando em milhões de assuntos para resolver e eu sei que isso, querendo ou não, é amadurecer de alguma forma.

E eu nem ligo tanto. Mal necessário, eu me afirmo até acreditar. Assim como a crença vã de que ladrões dormem do mesmo jeito que os cidadãos de respeito. E também não assaltam na chuva.

Tranquilizador.

Musicalmente, duas coisas andam acontecendo. Uma é que minha grana para comprar pilha para o pen drive acabou. Ou seja, estou sujeito ao total silêncio na hora de dormir. E ai eu penso. Baturité, Parnaíba, Jericoacoara, Salvador, Parnaíba… 2006 foi um ano de viagens, um ano de abraços, de risos, de abraços.

E 2007, por risco escolhido por mim, será um ano de virtualidade, pouca entrega e quase nenhum abraço… Vai ser um ano de muito mais “cordialmente” ao fim dos e-mails do que “abraços carinhosos” ou “te amo”. Claro que esses vão existir em grande quantidade. Mas o primeiro tipo será a virtualidade palpável. A pessoa ao seu lado não te inspira outra coisa a não ser um “cordialmente”.

E a outra coisa que aconteceu musicalmente para mim foi/é que os calos dos meus dedos, de tocar contrabaixo, estão sumindo, fading away… Triste constatação, que dá sinais de muitas outras coisas que não só a falta de um baixo para praticar.

Significa o sacrifício de vender meu baixo e meu amplificador, de saber que eles não me seriam necessários por um bom tempo. Tudo isso dói demais. E a prova disso são meus calos indo embora.

Mas como diz o monge budista… “se tiveres de escolher um caminho entre dois, não pensa no caminho que não escolheu.

Agora lá fora eu já escuto buzinas, tosses mais altas e outras vozes. Não fosse pelo telefonema de minha mãe, eu talvez não dissesse nada até mais tarde, quando chegasse na Abril.

Por que aqui, mais que tudo e todos, o silêncio é sua maior companhia.

09.02.07