Orfeu é falho

que fique claro
e eu te aviso assim, na tua cara.
olha, eu não podia nem dizer mais nada.
eu podia até ficar calado
mas os traços que fizestes nas minhas costas cortaram até o outro lado
[não sei se foi a ponta da unha ou a vontade de viver/ferir]
os traços passaram peito, tripas, um pulmão e meio, veio mais para a esquerda.
a sequência das coisas, quem você via pelo caminho, tudo talvez tenha se unido.
os teus encontros, as tuas coisas, os teus estados.
as coisas são todas assim, e por isso eu digo, na tua cara,
essa cara de quem ri como bandido que roubou o diamante maior.
todos esses riscos não passam da caneta mais escrota, da tinta mais viva que eu conheço.
a porra dessa tua caneta escreve e escreveu na minha alma o recado mais simples e imbecil do mundo:
“hás de me amar pra sempre, idiota!”

[draft de post perdido há MUITO tempo e hoje totalmente anacrônico]

O poema em 4 mãos que digitam

Sabe como é: se hoje a gente tem um tesão desgraçado em ler aqueles livros que mostram a correspondência trocada pelos grandes autores e seus amigos, suas paixões, seus concorrentes, desafetos ou sua família, num futuro não muito distante, alguém vai ter a idéia de sair por aí publicando logs de papos no msn. Interessante ou não, perceba, o log do msn está para o mp3 como o livro está para o cd…

E muito me honra publicar aqui o sumo de uma conversa que tive com minha amiga que só vi uma vez, minha discípula das artes (6)istas, dona dos melhores trocadilhos ever e futura jornalista fodona [ou escritora, escolhe aí…], Ana Clara Ribeiro.

Com vocês… “Ela, na Janela”

 

Ela, na Janela

homem [de]feito diz:
olha ela
menina diz:
ela debruçada na janela
homem [de]feito diz:
ela deitada olhando a rua
menina diz:
a rua e calçada, passavam por ela
homem [de]feito diz:
tomava goles de ar, cuspia nada
menina diz:
ar engasgava, tossia suspiros
homem [de]feito diz:
cuspia pecado, ela debruçada na janela
[ela esquecia sempre de ter sonhos puros]
menina diz:
só queria o que chamam os pais de “um pouco de paz naquela casa”, só escuta gritos dentro de casa, só escuta grilos fora de casa
homem [de]feito diz:
ao contrário do que teimavam, ouvia tudo e nada esquecia
homem [de]feito diz:
a menina tinha um olho seco de tanto chorar
homem [de]feito diz:
o outro olhava pela janela
homem [de]feito diz:
cuspia veneno, devorava ar
menina diz:
ela então não pensava no que sentia o olho, vermelho. o olho só via, e nem sabia direito por que formigara
homem [de]feito diz:
ela não pensava, não via, ouvia tão pouco, tampouco falava
homem [de]feito diz:
a língua formigava e agredia os dentes
homem [de]feito diz:
ela mordia os lábios de noite
menina diz:
ela sabe o nome disso, pensa que sabe, sinestesia, soava a palavra da nuca.
menina diz:
e em busca de gosto ela mordia a boca, tinha fome de carne no meio da noite, ela…
homem [de]feito diz:
ela nem sabia
homem [de]feito diz:
o nome da fome, o desespero da sede, a noite engolindo seu corpo
homem [de]feito diz:
a janela, a panela, a colher de angústia
homem [de]feito diz:
tudo tremia dentro dela
menina diz:
junto de tudo e tudo junto, ela estava dormente nas pernas, não que a fizesse pegar no sono, nela só as pernas dormiam e mentiam, pelos lugares onde passou naquele dia quente.
homem [de]feito diz:
a mentira, na verdade, era que não parava quieta, nem de pernas, ou de nuca, ou de mente. era inquieta, a menina, a mulher que olhava pra rua.
menina diz:
era um pouco triste, mas dizia um vizinho seu amigo que ela só precisava de mais música na sua vida… radinho de pilha, ela nem tinha pra lhe acordar. acordava com o galo, o tapa, o talo e o barulho da panela fechando e janela abrindo.
menina diz:
pessoa que n escuta rádio n pode ter vida ardida e pulsante, mas a menina conseguia ainda, ter tantas sensações estranhas sem a menor nota ou som externo…
menina diz:
talvez trilha sonora da sua cabeça, mas só talvez…
homem [de]feito diz:
ela escutava uma música que não existia
homem [de]feito diz:
juntava o chicote da língua, o bater da panela e o tremor das pernas e se via diante de uma orquestra ao contrario
menina diz:
mascava chiclete com o troco do pão, q era certo de cinco centavos, e fazia sinfonias com sua mandíbula e com o assopro pra bola, que quase caí certo dia, com
menina diz:
e quase perde a boca, de tanto estalar, de tanto parecer que vai ao chão…
homem [de]feito diz:
batia no peito, deitada na rede
homem [de]feito diz:
sacudia os seios, na corrida do ônibus
homem [de]feito diz:
tremia as coxas no ajoelhar da oração
homem [de]feito diz:
tudo com seu som
menina diz:
ela só parecia pisar no chão quando acordava, saindo da rede a caminho do banheiro. fazia o itinerário sempre descalça, sentia os azulejos com a sensibilidade da manhã gelada.
menina diz:
pro resto do dia quente, tinha a sandália de couro, mole e cheia de tiras, que é pra pisar mais firme por esses chão de giz
homem [de]feito diz:
perto da noite, trocava o chão da sandália pelo veludo da sala de um qualquer
homem [de]feito diz:
ela fazia questão de esconder que era daquelas mulheres, tristes, e que só dizem sim
homem [de]feito diz:
ela queria dormir
homem [de]feito diz:
sozinha
menina diz:
quase nunca acordava de um sonho bom,
menina diz:
quase nunca lembrava de sonhos
menina diz:
tinha tanta fé em aprender a dormir, e ter sonhos e simplesmente desejar coisas em sua vida
menina diz:
tinha fé mas não sabia no que ter fé, no que pedir
homem [de]feito diz:
ela não pedia muito
homem [de]feito diz:
ela só queria alguma coisa
homem [de]feito diz:
assim, um pedaço de qualquer coisa
homem [de]feito diz:
um pedaço de rua, uma sandália, um vestido que não a deixasse mais nua

Coisa antiga às vezes cheira a coisa nova

Faz tanto tanto tanto tempo que eu nem lembrava mais. Por um acaso da vida, descobri esse meu poeminha no Chuva Plástica.

BUSCA Busco
Num susto. Um beco. Seco
Acho
Em falso. Penso. Sem nexo.
A vida segue em tropeços.
Ainda há sentimento?
Ainda há descobertas?
Hão de ser os amanhãs mais
[felizes?]

Busco um susto.
Meu nexo falso.
Passo seco.
A vida segue em suspiros.

Não é mesmo, minha gente?