“Juntos, nós viveremos para sempre”

texto escrito em idos de 2006 e toscamente revisado indagora.

Eu juro que não lembro da última vez que eu chorei no cinema. Até o dia em que eu assisti A Fonte de Vida [The Fountain, 2006].

Do diretor Darren Aronofsky [de Pi e Réquiem para um Sonho], o filme foi classificado como ficção científica e só faria juz a isso se o roteiro fosse baseado numa peça de Shakespeare. Por que o filme é denso, aborda a ciência como um mero suporte e tem muito mais a fé, o acreditar como cerne de discussão.

Curto, com apenas 96 minutos de duração, o filme é recortado em três histórias diferentes, vividas pelo mesmo núcleo de atores, Hugh Jackman e Rachel Weisz. Numa, Jackman é Tomas Creo, um conquistador espanhol que busca a salvação do mundo [ou da Espanha] numa selva não identificada, a mando de Isabel [Weisz]. Era o Novo Mundo. Era o século 16. Na outra, Tommy Creo tem uma esposa, Izzi, que está morrendo de câncer. Ela é sua razão de pesquisa, é seu mundo. Ela está morrendo.

Na terceira história, um ser chamado Tom é atormentado pelas aparições da Isabel da Espanha e de Izzi, a esposa amada de Tommy. Ali, dentro de uma bolha que singra pelos céus, entre reflexões, meditações, e contatos com a Árvore da Vida, Tom busca paz e razão. É um pretenso futuro. Um pretenso século 26. Um pretenso lugar físico. Um pretenso ambiente qualquer.

E por que raios um filme como esse me fez chorar? Não faço a mínima idéia e tenho todas as respostas do mundo dentro da minha cabeça ao mesmo tempo. Enquanto Tomas, Tommy e Tom buscam salvar as coisas que estão ao seu redor ou no seu imaginário, Isabel e Izzi querem apenas paz. Izzi principalmente. A história é dela, e junto com Tommy, centralizam as discussões da significância que a vida deve ter. Tommy quer Izzi ao seu lado para sempre. Izzi sabe que vai estar do lado dele para sempre.

A diferença é essa. Um acredita piamente que a ciência ou a sorte podem trazer conforto para a sua vida, mantendo a mulher amada ao seu lado. Outra, tem fé e acredita com força que o conforto já existe e que o amor é tão grande que não é preciso a ciência a salvá-la para que ela seja feliz.

A maior luta do filme, maior do que todas as conquistas e avanços, é que Izzi convença Tommy de que ela não tem mais medo, que ela está em paz, que ela o ama. Que vai ser plena. Ou como ela mesmo diz, “Juntos, nós viveremos para sempre.”.

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Do que é feito teu peito?

tronco

Teu peito é feito de fibra que não enverga, é feito de pedra, osso, madeira, dois mamilos, umas costelas e marcas de mordidas.

Teu peito é como uma caixa de Pandora, guardando todos os males do mundo, mas tem espaço sobrando para um pouco de coragem.

A bem da verdade, teu peito é caixa que abriga tudo que é preciso carregar sem falta e para todo o lado, embora nem sempre no estado ideal.

Teu peito é feito de fibra que não enverga.

Do que é feito teu sangue?

sangue

Teu sangue, viscoso sangue, é feito de memória, angústia e um pouco de doenças do corpo e da alma.

Todo o grosso sangue que por ti escorre, todo ele carrega em si, misturado àquelas partes vermelhas e brancas, pedaços grandes de tudo que vê, ouve e sente. Se teu caráter é beligerante, capaz dele carregar também coriscos e faíscas.

Mas num dia de humilhação, dores e choro, ele não consegue, afina, e só carrega – a muito custo – a si mesmo, seco, duro, vazio.

Teu sangue, viscoso sangue, é feito de memória, angústia e um pouco de doenças do corpo e da alma.

Pra tirar a poeira do baixo

Já devo ter dito isso diversas vezes em diferentes lugares. As pessoas com quem já conversei sobre essa faceta da minha vida também já devem ter ouvido isso inúmeras vezes. Mas hoje eu assisti a esse vídeo aqui embaixo do Trail of Dead [valeu, Ian!] e tudo voltou. As lembranças, os objetivos, a dedicação. Voltou tudo, como fazia muito tempo que não voltava.

Bom, eu já tive uma banda. Uma banda de “rock alternativo”. Chamava-se nelson theresa cafe [“tudo minúsculo, com h no theresa e sem acento no cafe”, como a gente gostava de explicar] e teve uma certa “projeção”, chegou a ter 150 pessoas na comunidade do Orkut, participou de comercial de televisão [olha o Engenheiros do Hawaii mostrando sua força aí], gravou uma demo nunca lançada ou finalizada, fez diversos shows, das mais diferentes formas [pockets, festivais, na chuva, em palcos grandes para quase ninguém, em bibocas para gente cheirando nosso suor]…

E dessa época, tudo que eu gosto mesmo de lembrar é que só rolavam mesmo coisas boas. Que a maior briga que tivemos [Jimbo, Daniel, Juca e eu] foi por um arranjo. Que houve uns meses em que fazíamos uma música a cada três ensaios. Que quando os turnos de trabalho se chocavam com os ensaios, passamos a almoçar mais cedo e ensaiar ao meio dia. Que a gente ficava putinho em não levar um tostão, mas se sentia a maior banda do mundo tocando só nossas músicas…

Isso foi em 2006. Ou melhor, até 2006, quando demos a pausa de fim de ano, eu saí de Teresina para São Paulo, a banda virou um trio, o Daniel foi pai [da “Katarina com K”], deixou a banda, que virou um duo, o Juca veio para Sampa e a banda virou uma lembrança incrível, fantástica, enebriante, que me ataca, toma, acomete e emociona sempre que vejo vídeos como esse aí de cima.

Disse outro dia aqui na redação que trocaria tranquilamente a vida de jornalista pela vida na estrada com uma banda. Ganhando uma grana justa e viajando para fazer show. Fechar o repertório na boca do palco. Compor na estrada. Escovar os dentes com cerveja [menos!]. Compor, arranjar, experimentar, jogar sinuca depois do ensaio…

As “possibilidades” são tantas quando se tem a música como profissão que é fácil se perder na inocência e na beleza da coisa. E é só disso que quero falar, então. Porque sei que meu talento de compositor ou de arranjador é limitado, eu gosto mais de Strokes que de Velvet Underground, toco baixo muito mal, me empolgo com facilidade. E, principalmente, sou certinho demais para tocar o foda-se, abraçar uma vida bandida e deixar o jornalismo assim, para trás. Teria que ser perfeito, e o perfeito não existe.

Como me disse o Dhuba numa conversa, certa feita, a única coisa que eu posso fazer é conciliar as duas paixões. Já tentei, mas sei que não com o afinco necessário ou justo. Então é isso. Vamos lá aproveitar as aulas que o irmão d’ela quer pra treinar aqueles cromatismos. Como é que se faz uma escala menor mesmo?

Do que é feito teu coração?

coração

É feito de carne o bravo coração e só por isso já é frágil em si.

Ele bate e apanha, ri e sofre, pula e veja só, suspira.

Teu coração, bravo coração, é responsável por tuas emoções e pela noite de bom sono, quando está leve, ou pela vigília eterna, quando teima em carregar em si mais do que o mundo já obriga.

É feito de carne o bravo coração.