Uma fresta é suficiente*

À medida que o médico sentado diante de mim – numa cadeira visivelmente mais confortável que a minha – ia traduzindo o resultado da bateria de exames feitos às pressas, as letras do diagnóstico indecifrável iam se reorganizando em minha mente: “Você vai morrer em quatro meses”.

Não era possível sonhar mais com as férias de verão do ano seguinte; meu crepúsculo fora antecipado. Eram tantos planos… O principal era deixar o celular em casa e me refugiar por alguns dias numa prainha perdida. De lá, ver o solstício de inverno, celebrar os dias que tanto gosto. Agora, ó, nada mais. Talvez por isso minha fixação com a cadeira do médico: se é para escutar assim que a morte me espera, que seja pelo menos sentando num desses montes de couro cheirando a dinheiro, de braços acolchoados e encosto para a nuca, giratório, com rodas e reclinável. Não nessa cadeirinha de escritório.

“Já fale com a recepcionista para marcar nosso próximo encontro, ok? Quero acompanhar seu caso de perto. Boa sorte!”. Sorri para dona Expedita e disse adeus. Não marquei retorno, próxima consulta e, ainda na porta do consultório, quebrei o cartão do plano de saúde. Retorno pra que? Acompanhar de perto o que? Aquelas tais fases da perda e do luto me vieram à mente mas só consegui me fixar à aceitação. O que foi bom, já que negar, ter raiva, me deprimir ou negociar, nenhuma dessas ações me ajudaria. Preferi ignorá-las, trocá-las por uma passada no boteco às 15h. “Tá cedo pra uma caipirinha, moço?”, falei para o garçom sorridente e escutei a resposta que eu queria: “Isso depende mais da sua sede que da hora do relógio”.

Abracei que minha sede pedia uma caipirinha. “Com pouco açúcar e muita cachaça, tá?”, pedi – enquanto ele anotava o pedido no bloquinho e eu tirava da mão direita a aliança dourada. Busquei o celular na bolsa, digitei o número de César e… caixa postal. Que sorte prazenteira – e irônica, para dizer o mínimo. “Olha, não volta a me procurar, desisti do nosso casamento e estou indo embora da cidade. Tudo assim, apressado mesmo e sem explicação. Fica com Deus, quem sabe a gente não se esbarra?”. Pronto, noivado resolvido.

Até ali, tudo bem. Como eu lidaria com o desespero do César é que não havia me ocorrido. Que seja. Para as revistas que esperavam minhas reportagens eu sequer ligaria ou mandaria e-mail. Elas que dessem pela falta. Se desesperassem. Providenciassem um calhau. Eu que não arrancaria mais cabelo algum pensando em prazo. Pra que, se minhas férias se foram? Pra que, se as bocas das noites tinham muito mais para render sem o trabalho na equação? Eu queria mesmo era madrugadas perdidas nas mãos das ruas, nos braços de um estranho gentil, com pouca roupa, dançando com a lua. Eu queria o imprevisível. Quatro meses sem pensar o próximo passo. O próximo passo não é mais meu. Entende?

curva

Fiz o mesmo com todo o resto: academia, mestrado, e-mails da minha mãe, teatro, que libertador me livrar da prestação do carro, cancelar a internet, desligar o celular, as roupas que estavam na costureira eu doei, o defeito do ar condicionado virou charme; cartão de crédito e coleção de sapatos, mandei tudo às favas!, nada daquilo mais me seria motivo de preocupação.

Até porque minha caipirinha – “tá bem azedinha, viu, moça” – havia chegado e, com ela, um recado. “Sede de caipirinha às 15h de uma quarta. Quem poderá nos julgar?”.

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* Agradecimentos especiais a Dante Sasso e Renmero Rodriguez pela ajuda na edição e revisão.

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A certeza

Acredito que uma das coisas mais complicadas de se encarar seja a morte. Provavelmente por causa do meu ateísmo, que não me reserva nada para o post mortem, mas acho que até para os religiosos e crentes em geral.

Não é fácil, tenho certeza de que não é, encarar que seu tempo por essas paragens está chegando ao fim.

O problema não é bem tudo aquilo que você deixou de fazer, os lugares que você não viu, os sabores que você não sentiu. Eu não acho que seja isso. O complicado mesmo é a matéria, largar o diabo da matéria. Saber que essas coisas todas que você viveu e lutou tanto para ter estão indo.

É bem o que dizem: “caixão não tem gaveta”. Não, realmente não tem. Como o meu melhor amigo disse outro dia, por que arriscar desperdiçar cada possível sensação da vida apenas para viver mais cinco minutos? Bobagem, não?

Eu também acho, embora não consiga me convencer a detonar meu corpo em troca do imprevisível sabor do dobrar a esquina. O ponto é que alguém que ainda não atingiu a famosa ‘melhor idade’ consegue mensurar como é angustiante saber que o fim está próximo. Tive essa sensação muito clara quando eu vi uma entrevista do Saramago na Globo. Lá ele se dizia não temerário do fim.

A questão é que o cerne de tudo isso é muito mais além. Começa-se a ter saudade das coisas simples de tudo, de todo dia. Começa-se a pensar no que poderia ter sido e não foi, como o Maneco, pensa-se que o réquiem é para a sua morte, sim, que é a sua última ida ao trabalho, que alguns ficarão desamparados, que os jornais se acumularão no pé da porta e o pó vai tomar as prateleiras. Pensa-se que as palavras cruzadas vão ficar pela metade.

Para os pacientes terminais, encarar a morte talvez seja um alívio. É triste dizer isso, mas me parece mesmo. Sorry, baby. Bom, voltando: para eles talvez seja um alívio, batalhas foram perdidas e ganhas, mas a guerra, essa has gone. Não há quem culpar, o que não lima o sofrimento, claro. Mas quando se fica velho, todo dia que se acorda deve ser um novo pedido para acordar no dia seguinte.

E todo dormir é uma nova angústia sobre o que os sonhos te reservam. Talvez uma premonição de como será a partida?

Sinceramente, não sei. E espero um dia descobrir, por que quero ver como vai ser o futuro, o que o mundo e homem nos reservam. Mas a balança, todo dia, pesa um pouco mais para o lado de lá. Essa é uma certeza irrefutável. Triste certeza irrefutável.