Observe um grande homem vivendo

São 10h da noite de um domingo chuvoso. O grande homem passa pela portaria, primeiro o cão, depois ele sempre de calça jeans e camisa social de mangas curtas. Fala pouco, o homem; o cão também não ladra.

Seguem em silêncio pelas calçadas, ele com o saco de plástico no bolso de trás da calça esperando o alívio do amigo. Esticando as pernas ao fim do fim de semana. Ele e o cão. Este não é o primeiro cão a passear com este grande homem. Outro, um cocker spaniel preto com branco, também passeou muito até o dia em que sumiu – provavelmente morreu. Tenho a impressão de que nunca saberei seus nomes, o grande homem deve sempre dizer que vai passear “com o cachorro”.

Quem cruza com o grande homem não imagina o bom humor que ele carrega. Está em segredo. Esse clima é um dos temas mais recorrentes das conversas que ele puxa, mas nunca o único. Também há as encomendas pelo correio, os recados do síndico, as confusões da rua, as faltas das diaristas, o empréstimo de ferramentas. O grande homem não deve nem faz muito o estilo dele conversar com todo mundo.

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Os que acordam bem cedo para ver as manhãs nascendo também escutam o grande homem subindo e descendo, recolhendo o lixo dos andares. Mais tarde um pouco é hora de ensaboar todas as escadarias e bodejar contra a passagem dos moradores. Aqui e acolá se rebela contra o síndico velhote, muito embora saiba que nada pode fazer. O grande homem é resignado.

Uma vez por ano o grande homem some e fica no lugar dele um arremedo. Sentimos falta dele, do seu bom humor. O arremedo também passeia com o cão do grande homem, há a suspeita de que são amigos. O grande homem e seu substituto, fique claro. Ao arremedo, o cão late. Muito.

Uma fresta é suficiente*

À medida que o médico sentado diante de mim – numa cadeira visivelmente mais confortável que a minha – ia traduzindo o resultado da bateria de exames feitos às pressas, as letras do diagnóstico indecifrável iam se reorganizando em minha mente: “Você vai morrer em quatro meses”.

Não era possível sonhar mais com as férias de verão do ano seguinte; meu crepúsculo fora antecipado. Eram tantos planos… O principal era deixar o celular em casa e me refugiar por alguns dias numa prainha perdida. De lá, ver o solstício de inverno, celebrar os dias que tanto gosto. Agora, ó, nada mais. Talvez por isso minha fixação com a cadeira do médico: se é para escutar assim que a morte me espera, que seja pelo menos sentando num desses montes de couro cheirando a dinheiro, de braços acolchoados e encosto para a nuca, giratório, com rodas e reclinável. Não nessa cadeirinha de escritório.

“Já fale com a recepcionista para marcar nosso próximo encontro, ok? Quero acompanhar seu caso de perto. Boa sorte!”. Sorri para dona Expedita e disse adeus. Não marquei retorno, próxima consulta e, ainda na porta do consultório, quebrei o cartão do plano de saúde. Retorno pra que? Acompanhar de perto o que? Aquelas tais fases da perda e do luto me vieram à mente mas só consegui me fixar à aceitação. O que foi bom, já que negar, ter raiva, me deprimir ou negociar, nenhuma dessas ações me ajudaria. Preferi ignorá-las, trocá-las por uma passada no boteco às 15h. “Tá cedo pra uma caipirinha, moço?”, falei para o garçom sorridente e escutei a resposta que eu queria: “Isso depende mais da sua sede que da hora do relógio”.

Abracei que minha sede pedia uma caipirinha. “Com pouco açúcar e muita cachaça, tá?”, pedi – enquanto ele anotava o pedido no bloquinho e eu tirava da mão direita a aliança dourada. Busquei o celular na bolsa, digitei o número de César e… caixa postal. Que sorte prazenteira – e irônica, para dizer o mínimo. “Olha, não volta a me procurar, desisti do nosso casamento e estou indo embora da cidade. Tudo assim, apressado mesmo e sem explicação. Fica com Deus, quem sabe a gente não se esbarra?”. Pronto, noivado resolvido.

Até ali, tudo bem. Como eu lidaria com o desespero do César é que não havia me ocorrido. Que seja. Para as revistas que esperavam minhas reportagens eu sequer ligaria ou mandaria e-mail. Elas que dessem pela falta. Se desesperassem. Providenciassem um calhau. Eu que não arrancaria mais cabelo algum pensando em prazo. Pra que, se minhas férias se foram? Pra que, se as bocas das noites tinham muito mais para render sem o trabalho na equação? Eu queria mesmo era madrugadas perdidas nas mãos das ruas, nos braços de um estranho gentil, com pouca roupa, dançando com a lua. Eu queria o imprevisível. Quatro meses sem pensar o próximo passo. O próximo passo não é mais meu. Entende?

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Fiz o mesmo com todo o resto: academia, mestrado, e-mails da minha mãe, teatro, que libertador me livrar da prestação do carro, cancelar a internet, desligar o celular, as roupas que estavam na costureira eu doei, o defeito do ar condicionado virou charme; cartão de crédito e coleção de sapatos, mandei tudo às favas!, nada daquilo mais me seria motivo de preocupação.

Até porque minha caipirinha – “tá bem azedinha, viu, moça” – havia chegado e, com ela, um recado. “Sede de caipirinha às 15h de uma quarta. Quem poderá nos julgar?”.

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* Agradecimentos especiais a Dante Sasso e Renmero Rodriguez pela ajuda na edição e revisão.

Vôo rasante*

“O homem do conserto não vem?”

A pergunta era a última que Marta me deixara. Escrita num post-it, colada na geladeira, a caligrafia da sardenta me fez lembrar de como era bom o nosso encontro, o “m”, o “e” e o “m” todos grudados por um só movimento de punho – exatamente como era nosso abraço que chamava um beijo e que atraia as pélvis.

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Com o tempo, com a realidade imutável daquelas letras tão juntas quanto eu e Marta estávamos – e estaríamos – separados, o retangulozinho amarelo com 22 consoantes e vogais e um ponto de interrogação deixou de ser a última coisa que nos ligava para se tornar a única. Marta se fora há muito tempo.

(dentro da geladeira um vidro de maionese contemplava a beleza de duas quentinhas esquecidas numa prateleira; perto dali, uma platéia de latas de cerveja esperava ansiosa pela minha hora de dormir)

Ainda assim eu continuava a olhar o tal post-it. Sentia uma atração parecida com a de Gal sofrendo de amor em Hotel de Estrelas. “Dessa janela sozinha, olhar a cidade me acalma. Estrela vulgar a vagar. Rio e também posso chorar”. Era bem assim mesmo que eu me sentia: uma mistura entorpecente de saudade, resiliência, perseverança, conflito e distração. Aqueles riscos eram a minha janela, minha cidade, minha estrela. Meu ponto de referência. A última coisa que me atava a Marta.


Sabe, eu também gosto de olhar as nuvens às vezes. Escolho um ponto de referência, algo bem duro e imóvel, talvez um prédio, talvez um coração, talvez uma lembrança, e se o vento está muito forte ou pelo menos forte o suficiente você consegue ver o céu correr, passar apressado com aqueles chumaços de sonho disforme a reboque. E nessas horas, como o astrônomo que viu pela primeira vez a magnitude do universo se desenrolando por todos os lados e ao infinito, sinto a paz de ser uma centelha, breve e fugaz. O eterno é feito de outra matéria.

Marta tinha um livro predileto, sacado da biblioteca de seu pai quando ela era ainda apenas uma guriazinha loura, sem esfolados na alma. Lia Fernão Capelo Gaivota todos os anos se esbaldando em nostalgia real e sabedoria questionável. Eu gostava de algumas alegorias do livro, aquela coisa de voar e voar tentando sempre atingir o nível de excelência seguinte. A ruptura. A coragem. Gostava do que ela me contava, sendo exato.

Um dia Marta se chegou pra mim no corredor de casa e fez menção de falar, mas só chorou. Um choro quente, salgado além da conta [os intervalos entre um pranto e outro interferem na salinidade das lágrimas?], interrompido por suspiros bem infantis. Como que para anular a impressão, Marta se recompôs, passou para as costas uma mochila que o criado-mudo escondera e falou olhando bem para mim:

“Vê se chama alguém pra ver esse barulho na geladeira, de noite fica insuportável…”.

Tirou um chaveiro do bolso, abriu a porta, deixou a chave no criado-mudo e sumiu.

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* Vôo rasante é o primeiro texto produzido na oficina literária ministrada por Evandro Affonso Ferreira e Juliano Garcia Pessanha, no Espaço Revista Cult.

“Olha a cabeleira do Zezé…”

Eu podia dizer que começou quando duas gurias diferentes supuseram que eu era, na verdade, gay, e não hétero. Mas estaria sendo injusto e limitado, bem limitado. Começou antes de ser carinhoso com meus amigos-irmãos. Antes de dividir com amigos de trabalho que gostaria de ter uma saia. Ou antes de não achar problema algum achar alguns caras bonitos.

Começou com uma iluminação muito pessoal e, se não transferível, ao menos compartilhada com outros caras: não sou HOMEM como o HOMEM tradicional é pintado. Aquele, do estereótipo.

Você bem que conhece outros caras como eu. Caras que não curtem trabalhos manuais, caras que não se interessam por futebol, ou carros, muito menos esquemas táticos ou gambiarras mecânicas, caras que passam creme hidratante nos cotovelos, caras que abraçam e beijam amigos sem drama. Você sabe quem eles são porque na sua cabeça [seja você homem ou mulher] essas e outras, muitas outras possíveis características são de uma figura que não corresponde ao macho que você conhece, então ela logo se destaca. O engraçado é que esse destaque não joga qualquer luz sobre a figura. E se joga, a deixa ainda mais disforme.

E como a gente gosta de padronizar, encaixamos com urgência e de qualquer jeito aqueles que a gente não consegue classificar. Nem sempre é por mal [mas há quem faça, claro]. É porque estamos perdidos mesmo.

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Durante muito, muito tempo os códigos e sinais que mulheres e homens emitiram foram muito bem delimitados. Quando as fronteiras se afrouxam e novos códigos são permitidos [sim, o verbo é esse], adotados e incorporados por estas e aqueles, todas as referências se perdem. É aqui que você lembra do clássico caso da amiga que xavecou um cara na balada a noite inteira para descobrir que ele era gay horas depois, por exemplo.

Essa crise de sexualidade é só mais uma das marcas da confusão que é essa época em que vivemos. Essa época em que não só as coisas e pessoas estão cada vez mais libertas para apenas SER, mas também uma época em que nossas referências, nosso passado, nossas tradições todas apontam para o tempo em que não havia liberdade alguma. Fomos criados para sermos HOMENS, agirmos, pensarmos, falarmos como machos, mas convenhamos que já estamos crescidos o suficiente para saber quão aprisionadora é essa imagem.

E daí nasce o conflito de identidade: sou homem mas quero usar saia, então não sou macho? Sou homem mas cuido das unhas, então não sou macho? Sou homem mas…

Até os filhos da nossa geração crescerem e terem outra impressão do que é ser HOMEM, teremos esse ~mar~ de confusão.

Falei ali em cima de como é aprisionadora a imagem do macho na vida de um cara em formação [e até já adulto, vamos e convenhamos] e lembro imediatamente da fala de uma amiga, de como a vida do homem branco, classe média e hétero está cada vez mais difícil – frase dona duma paleta de ironia viva e pulsante. E, olha, depois que se lê sobre a agressão que aconteceu na Henrique Schaumann na última segunda feira a gente fica com a impressão ainda mais forte de que a nossa existência tão androcêntrica tem força para se reforçar ad infinitum.

Porém [ai, porém], é tudo isso que está aí, toda essa cobrança por ser e parecer e agir como HOMEM, a atingir resultados e não mostrar fraquezas, que colabora para a perdição.

O que a gente precisa entender é que tudo bem estar perdido.

~ we’ve been had ~

Quantas vezes a gente já não parou pra pensar naquela manhã da taça de vinho esquecida no braço do sofá que cheirava a gato, no meio de uma manhã quente do fim de janeiro? Quantas vezes?

Sempre que ouço A good woman is hard to find, meu radar procura por ti. Tu é a minha referência maior de mulher, encontrada ~ por acaso ~ nessa internet tão vasta, vasta internet… Da taça de vinho para a madrugada de ontem, quando pensávamos na lista de músicas para a tua festa de aniversário, muita coisa aconteceu. Óbvio. Que bom – imagina três anos e meio de amor e vida dividida pra não acontecer nada?

Da taça pra cá teu espírito, respiro e agir se mostraram pra mim e me apresentaram uma mulher que não só é forte, como gosta do ser forte, de ter rédeas nas mãos, de tocar a própria vida. Um exemplo de determinação, de parceria. Uma bon vivant romana, minha romaninha [ainda tenho que te providenciar um estoque infinito de penas de faisão…].

Daquela taça de vinho, daquela música ouvida enquanto nos pegávamos por todo o apartamento, pra hoje, teu aniversário, todo tipo de obstáculos foram enfrentados, e as mais loucas provas de verdade amorosa foram postas em prática. Eu não sabia de nada disso quando sai daquela padoca no Itaim depois de ter conversado com meu roommate e anunciar a minha partida. Ao entrar na tua vida e me tornar teu [pode falar marido? (;], a gente não sabia bem o que ia encontrar e são desses muitos encontros que o nosso amor é feito.

Todos os dias é possível descobrir coisas novas a seu respeito. A meu respeito. Todas são maravilhosas? Não. Ainda assim, o que é a vida senão um compilado caótico de experiências que te enlouquecem e maravilham?

Sou louco e maravilhado ao teu lado. Os teus trejeitos mais íntimos, aquele sofrer pela fome na alta madrugada ou o desejo de tomar só mais um drink, ou ainda a preguiça de sair de casa para fazer compras… Estarmos juntos me ofereceu conhecer você de forma profunda e inesquecível – ainda que incompleta. Tudo que acontece é bom. Até o ruim, o péssimo, o duvidoso. Se você insiste – e a vida é uma insistência diária – com o amor, o retorno vem. Nem sempre o dedo é verde no plantio da paixão [lembra de quando eu acordava breguíssimo e me declama e derramava nas mais pavorosas e bobas declarações de amor? acho que no fim das contas essa época nunca passou (;]. É a insistência que leva à verdade. Ainda que elas sejam muitas [que bom que as nossas são as que nos fazem ficar juntos e felizes] e nem todas nos façam sorrir.

E como é bom estar ao teu lado e dividir contigo o riso, o choro, a fatura de cartão de crédito de quatro dígitos, a volta pra casa de madrugada, a viagem de carro até o litoral desconhecido, falar sobre o ultraromantismo da adolescência, descobrir teu canto, tocar pra ti cantar, te fazer sorrir e que pena se tantas vezes já te fiz chorar.

Que bom te ter ao meu lado. Que bom que você existe e vive plena. Estou meio que envolto em lágrimas agora [verdade] porque é difícil não pensar na gente e não se emocionar. As pessoas [“essa entidade chamada ‘eles'”] têm uma preconcepção do que é o amor como uma coisa envolta em névoa e com castelos Disney, com cristal por todos os lados. Se ao menos eles soubessem as rasteiras que a vida nos dá para que o sorriso tenha o sabor perfeito…

Obrigado por tudo, vida minha. E que feliz que estamos mais um ano da tua vida juntos. Que feliz… (:

“Turn emotion to devotion”

We all hail hail from rock and roll!
[The Von Bondies, in It Came From Japan (2001)]

O Lester Bangs de Almost Famous errou a mão no drama quando disparou para um William Miller esperto mas ainda pouco malandro que “it’s just a shame you missed out on rock ‘n’ roll. […] It’s over. You got here just in time for the death rattle. Last gasp. Last grope.”

À revelia da sentença de Bangs, ainda vamos muito bem de rock ‘n’ roll, obrigado, porque o passado é uma roupa que não nos serve mais e hoje até o funk carioca pode bater no peito para chamar o sangue roqueiro à luta.

Essa é uma visão bem otimista, diriam muitos que conheço. Claro, e com toda razão: o modelo de rock ‘n’ roll que Bangs condena à morte é aquele que ainda não se subvertera à indústria, ao entretenimento, à fórmula.

Não precisamos elevar a linha de corte sempre, pelo menos. Algumas vezes precisamos apenas de um Big Muff. OU de um bom riff. Mesmo que você tenha a impressão de já ter ouvido aquilo. Iggy Pop? “Amen!!!”

~ publicado originalmente em 2009 ~

“Vocês não estão entendendo nada!”

As imagens falam por si, as declarações complementam o que as imagens não dão conta e o o “well” de Caetano ao fim do vídeo é o denominador comum mais interessante e inescapável do que foi a Tropicália: um movimento de vanguarda, incompreendido, que “tomou de assalto” a cultura brasileira e se fartou com tudo que quis e cuspiu sem cerimônia o que não lhe interessava.

Desde já muito ansioso pelo resultado final e, como bom piauiense, curioso por saber como vão tratar Torquato Neto no meio de todo esse resgate histórico.