[sem título, só sorrisos #1]

Mal sabia eu, quando daquele post, quantas coisas ainda precisaríamos enfrentar, quantos bicos e dramas, noites e campanas, quantas dores e sabores ainda iríamos ter que derrotar.


Pois enfrentamos, derrotamos, saboreamos, diluímos e todos os dias celebramos a certeza naquele bom amor que sacode peitos, arfa nucas, eriça bocas e seca olhos que tanto tem para admirar, se instalou em nós com forca de desenho de criança nova e sons dos bichos saindo do inverno de São Paulo que nós dois tanto amamos ver pelo nosso janelão.

Parece um despropósito afirmar isso, posto que não há instrumentos que meçam tal feito: sinto cá dentro meu gostar por ti se transformar em matéria minha e ser extraído de mim em palavras, beijos e carinhos para espalhar por aí os sinais da minha paixão pelos teus dentes abertos e pelos teus olhinhos fechados em sorriso.

Sou um admirador teu, do teu juízo, dos teus impulsos, dos teus suspiros, do teu vocabulário vermelho, acompanhado das unhas nas costas; e da tua inteligência, sexy e provocante como o melhor dos decotes. Tu é, para mim, única e primeira. Parceira ímpar, mulher sem igual.

Hoje, se uma foto pudesse ser tirada do eu que habita entre minhas ideias, apareceriam nela só sorrisos. Todos de amor, pequena. Todos inspirados em você.

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Da arte de perder aviões e amar

Ontem minha sogra assistia a Antes do Por-do-Sol na sala enquanto eu e a queridona jantávamos na cozinha. Dava pra ouvir a Celine tocando ao violão “A Waltz for a Night” e ela e eu começamos a conversar sobre o filme, nuns olhares cúmplices de quem sabia que dali a uns cinco minutos o filme terminaria e então saberíamos como a sogra iria reagir ao desfecho da história [vou poupar aspas e indiretas, quem já viu sabe porque, quem não viu merece a surpresa].

Acaba o filme e sogra e filho [dela e nosso, história para outro post] vêm sentar com a gente à mesa. Aí divido o que já falava sobre o amor: todo mundo busca essa manifestação de completude e encontro. Sim, estou sendo genérico e até torço para que apareça alguém que me diga que não busca o amor, que não busca amar, preu saber como é isso.

Mas enfim, todo mundo busca o amor, todo mundo busca essa manifestação de completude e encontro, de forma tão urgente e cega, de forma tão necessária, e muitas vezes se esquece de como ele é caro. Não irei nem forçar uma teoria sobre o assunto, acho simplesmente que seja o caminho de todas as pessoas. Não sei da psicanálise, não sei da antropologia, só sei da experiência. Por isso a generalização sem medo de ser feliz ou triste. Por isso o desfecho realista da frase.

Queridona e eu temos muitos amigos e amigas nessa busca. Buscam o amor, buscam o parceiro, buscam a companhia. Lindo, digno, louvável. Apoio muito. Frases como “tô namorando!”, “encontrei alguém que me adora e que eu adoro”, “nunca me senti assim” e suas são variantes recebem meu aplauso mental.

Sou fã dos amores, já tive oportunidade de me sentir assim algumas vezes – no último ano tenho estado envolto nessas sensações de modo perene. Mas saca aquele VT que mostra primeiro uma cama balançando e vai jogando na tela uns dados sobre como vai nosso planeta, aquecimento e o escambau? Que termina com um casal sorrindo depois de um sexo gostoso [por isso a cama balançando] e um texto que diz algo como “o mundo está perto de se acabar em fogo e fúria e, mesmo assim, tem muita gente na pegada de colocar filhotes do mundo”? Pois é. Lembrem sempre de como o mundo é cruel, de como as pessoas são difíceis, que como o imprevisível sempre joga contra e não deixem de… amar. Porque o amor cobra seu quinhão, o amor anula, o amor te permite ser você [o que, decididamente, é ótimo e péssimo], espalha seus medos e defeitos, troca, o amor tem um preço [como tudo, na boa].

Só que quando vocês ouvirem a Celine tocando “A Waltz for a Night”, abram sempre um sorriso, por favor. O amor é uma coisa boa. Então se ele te convidar pra sentar e tocar um disco da Nina Simone enquanto prepara um chá, por favor, abra um sorriso. E fique.

A pequena fábrica de amores

Num fim de semana de setembro fui ao RJ e propositadamente deixei o crachá do meu motivo de viagem para minha sobrinha, a pequena-já-ficando-grande Eva.

– Pra quando você sentir saudades, Vida. O tio vai estar sempre por aqui
– Tá bom, tio

Eva é menina sensível e dona das frases mais desconcertantes. Como criança, ainda guarda a inocência que o mundo vai destruir logo logo, naquele processo também conhecido como amadurecimento. E é a inocência dela que me faz passar mal de tanto amor e saudade.

Como da vez em que, depois de um passeio pela Lagoa Rodrigo de Freitas, uma cabisbaixa sobrinha me acompanhava no banco de trás do carro de minha irmã, já no caminho da casa de meu pai.

– O que foi, Vida, porque você está tristinha?
– É por que você vai embora, tio

Um estremecer me sacudiu a alma, o olho turvou e o cheiro do cabelo dela me deixou sem jeito para dizer algo além de um “mas o tio volta logo, amor”.

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Somos tão unidos que ela nasceu um dia antes de mim. Este ano, quando da minha ligação de felicitações, a sinceridade dela explodiu como eu desejo que seja para sempre.

– Oi, Vida! Feliz aniversário!
– Brigada, tio!
– Tá boa a festa?
– Tá sim!
[em off, para a mãe que estava do lado]
– Mãe, eu quero ir brincaaar!
[responde a mãe]
– Fala com seu tio, Eva
[Eva volta a falar comigo]
– Oi, tio
– Hahaha, vai brincar, meu amor, vai!

Para que submeter a menina a ficar gastando tempo ao telefone se o bom mesmo era brincar de pique-esconde com as amigas da escola? E lá foi ela, com o coração leve e as pernas ágeis. No dia seguinte, no meu aniversário, uma ligação da irmã, e a voz da minha Vida surge de repente.

– Parabéns, tio!
– Meu amor, brigado!
– Te amo

Assim, sem meias palavras, sem vacilo.

Então hoje, de novo ao telefone, para desejar um feliz natal que ela ignorou [parece que as lições de budismo para crianças estão sendo bem dadas], um diálogo surge.

– Tio, sabe o crachá do Yahoo! que você deixou aqui?
– Sei, Vida, que tem?
– Sempre que eu fico com saudade de você eu dou um abraço nele

Dia após dia, a tatuagem no ombro esquerdo vai perdendo o jeito de mero pigmento impresso na pele e se torna uma marca de nascença.

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Eva é minha declaração de independência do sofrer, é meu passeio em dia de sol, é meu antídoto para todas as dores do mundo.