Fogo Morto

A alma de Joaquina, na noite de lua, se embalava naquele pranto que queria tocar o coração de Deus. D. Amélia fechou a porta da cozinha. Dentro de sua casa havia uma coisa pior do que a morte. Não havia vozes que amansassem as dores que andavam no coração do seu povo. Viu a réstia que vinha do quarto dos santos, da luz mortiça da lâmpada de azeite. Caiu nos pés de Deus, com o corpo mais doído que o de Lula, com a alma mais pesada que a de Neném.
Acabara-se o Santa Fé

[José Lins do Rego – Fogo Morto]

Espelho-fenda-espaço-tempo

Reler José Lins do Rego é como acariciar uma criança que continua existindo somente dentro de mim. Os cabelos curtos, bem castanhos, retos a mando do pai, a pele branca e lisa, os joelhos esfolados, as mãos grossas e as unhas sujas.

Reler Zé Lins é como ter de novo o livro de folhas finas de seda com a obra completa, última herança literária da juventude da mãe, capa perdida no tempo, lombada bem legível: “José Lins do Rego – Obra Completa”.

Reler Fogo Morto, com todas as suas características sociais, do sofrer do homem, da rudeza dos espíritos, do consumo da alma pelo silêncio, é lembrar da criança que lia Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê, O Moleque Ricardo e Usina e se encantava com todas aquelas histórias de fazenda, que lembravam tanto o sítio do avô, as fugas proibidas para o rio, o pé no chão, as canas para chupar e o futebol com os meninos do caseiro.

Reler José Lins do Rego é como beijar a testa da criança deitada na cama que lê atenta aquelas histórias de um tempo que já não mais existe e acender a luz do quarto para que o menino possa ler em paz.