Quantos segredos você consegue guardar?

Certa vez, saindo com uma guria, sentamos em um bar e começamos a conversar sobre a vida, sobre o que já tínhamos feito e quais eram os planos para o futuro. Era uma conversa agitada, cheia de riso e interesse: mal havíamos aberto a primeira garrafa de vinho. Nessa época ainda fumávamos. Em dado momento, contei da minha intenção de nunca mais me envolver num relacionamento. Ao que ela retrucou: “tu é uma pessoa tão inteligente, por que tu diz uma coisa dessas?”.

Mas isso é assunto para outro texto.

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O que me marca até hoje e que me marcou tanto naquela noite foi a simplicidade e facilidade com que a frase foi dita. Talvez seja assim que as pessoas realmente sinceras e articuladas se expressem, sem tantas douradas de pílula. Acho que talvez ela nem se recorde de ter me dito isso naquela noite, e não seria eu a ir lembrá-la (muito embora esteja fazendo exatamente isso agora). Somos amigos, rimos sempre que nos encontramos, e pelo menos eu guardo com carinho aquelas taças de vinho.

Nosso encontro foi por acaso; tudo que aconteceu depois, não. Strangers in the Night não poderia ser trilha para a nossa história, e ainda assim Sinatra poderia dizer uma palavra ou duas sobre tudo isso. “Strangers in the night, two lonely people”. Pessoas sozinhas, pessoas interessadas, estranhas e dispostas. Quando as luzes se apagavam, imperava o silêncio, no entanto.

E a gente sabe que quase nunca é assim.

Principalmente porque a noite – essa coisa que no horário de verão em terras portoalegrenses começa às 21h15, depois de um invariavelmente belo por-do-sol – não tem só um formato. Não depende da falta de luzes para acontecer. É um estágio entre dois corpos dividindo uma cama no meio do sábado, uma rede numa varanda isolada, com um pouco de silêncio. Aquele silêncio que também é conversa, como também é música. Aquele silêncio que desperta a vontade de dizer coisas tão difíceis de dizer no dia seguinte (obrigado, Alex).

Essas coisas, estava pensando justamente hoje nisso, são como uma – perdão pelo exemplo tão trivial – picada de mosquito. Que coça. Que incomoda. Que exigem uma atitude e que levam a uma só atitude: coçar. Ou falar, para deixar as metáforas triviais de lado.

Então falamos. Dividimos. Olhos fechados por vergonha ou apreensão. Testa franzida pela dúvida. Digitação rápida e enter imediato para escapar do vacilo que o overthink traz. “Foi, tá dito, agora a outra parte que lide”. Como uma batata quente (sai de mim, trivialidade), que vai acabar retornando pra ti.

Nós, essas pessoas que habitam e frequentam esse mundo, lidamos muito mal com o imperativo. Assim, sendo genérico mesmo. Não nos damos nada bem com a negativa, também. As duas coisas combinadas, então…

E é por isso que coçamos tanto a tal picada de mosquito. Por mais que saibamos no que aquilo vai dar, num pataco vermelho e irritado, que só pede mais unha. “Não coça” é motivo de risada. Como não coçar?

Como não falar?

A gente fala e pode até se arrepender, depois. Mas só depois.
Talvez nem se arrependa.
Talvez só fique se perguntando se usou as palavras certas, se era aquilo mesmo que se queria dizer.
Se valeu a pena o pataco vermelho todo irritado no meio do braço.
“What’s easy in the night is always such a bite in the morning light”, como diz a Ida Maria.

Mas, se como eu, tu também acha que coceira foi feita pra se coçar, talvez tu nem se pergunte nada.

Só espere passar.