“Olha a cabeleira do Zezé…”

Eu podia dizer que começou quando duas gurias diferentes supuseram que eu era, na verdade, gay, e não hétero. Mas estaria sendo injusto e limitado, bem limitado. Começou antes de ser carinhoso com meus amigos-irmãos. Antes de dividir com amigos de trabalho que gostaria de ter uma saia. Ou antes de não achar problema algum achar alguns caras bonitos.

Começou com uma iluminação muito pessoal e, se não transferível, ao menos compartilhada com outros caras: não sou HOMEM como o HOMEM tradicional é pintado. Aquele, do estereótipo.

Você bem que conhece outros caras como eu. Caras que não curtem trabalhos manuais, caras que não se interessam por futebol, ou carros, muito menos esquemas táticos ou gambiarras mecânicas, caras que passam creme hidratante nos cotovelos, caras que abraçam e beijam amigos sem drama. Você sabe quem eles são porque na sua cabeça [seja você homem ou mulher] essas e outras, muitas outras possíveis características são de uma figura que não corresponde ao macho que você conhece, então ela logo se destaca. O engraçado é que esse destaque não joga qualquer luz sobre a figura. E se joga, a deixa ainda mais disforme.

E como a gente gosta de padronizar, encaixamos com urgência e de qualquer jeito aqueles que a gente não consegue classificar. Nem sempre é por mal [mas há quem faça, claro]. É porque estamos perdidos mesmo.

corpo-submetido

Durante muito, muito tempo os códigos e sinais que mulheres e homens emitiram foram muito bem delimitados. Quando as fronteiras se afrouxam e novos códigos são permitidos [sim, o verbo é esse], adotados e incorporados por estas e aqueles, todas as referências se perdem. É aqui que você lembra do clássico caso da amiga que xavecou um cara na balada a noite inteira para descobrir que ele era gay horas depois, por exemplo.

Essa crise de sexualidade é só mais uma das marcas da confusão que é essa época em que vivemos. Essa época em que não só as coisas e pessoas estão cada vez mais libertas para apenas SER, mas também uma época em que nossas referências, nosso passado, nossas tradições todas apontam para o tempo em que não havia liberdade alguma. Fomos criados para sermos HOMENS, agirmos, pensarmos, falarmos como machos, mas convenhamos que já estamos crescidos o suficiente para saber quão aprisionadora é essa imagem.

E daí nasce o conflito de identidade: sou homem mas quero usar saia, então não sou macho? Sou homem mas cuido das unhas, então não sou macho? Sou homem mas…

Até os filhos da nossa geração crescerem e terem outra impressão do que é ser HOMEM, teremos esse ~mar~ de confusão.

Falei ali em cima de como é aprisionadora a imagem do macho na vida de um cara em formação [e até já adulto, vamos e convenhamos] e lembro imediatamente da fala de uma amiga, de como a vida do homem branco, classe média e hétero está cada vez mais difícil – frase dona duma paleta de ironia viva e pulsante. E, olha, depois que se lê sobre a agressão que aconteceu na Henrique Schaumann na última segunda feira a gente fica com a impressão ainda mais forte de que a nossa existência tão androcêntrica tem força para se reforçar ad infinitum.

Porém [ai, porém], é tudo isso que está aí, toda essa cobrança por ser e parecer e agir como HOMEM, a atingir resultados e não mostrar fraquezas, que colabora para a perdição.

O que a gente precisa entender é que tudo bem estar perdido.

3 respostas em ““Olha a cabeleira do Zezé…”

  1. Jansen,
    A grande questão ainda é conviver com o diferente.
    Há principalmente uma cobrança do homem por uma fluidez (pós moderna? rs!) e para isso ele precisa abrir mão de algumas características de macho (moderno?).
    Quando pararmos de tentar colocar as pessoas nas gavetinhas com característica X ou Y, acho que uma boa parte dos problemas estariam resolvidos.
    Belissímo texto

  2. Meus 2 centavos: o que é ser homem/mulher não vai acabar com a evolução da sociedade, visto que o que representa cada gênero estará sempre mudando. Saia? Calça comprida? São todos passageiros. O que fica é a ignorância que marca nossa época. Espero que essa sim passe de uma vez pra outra.

    RESPOSTA
    Não podia ser mais correto, Menas.🙂

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