Acabo de perder uma tia

Acabo de perder uma tia. Uma tia indiscreta, que no verão de 2001 constrangeu a mim e a seu afilhado-meu primo enquanto assistíamos ao Segundas Intenções na sala da casa dela. “Quem for virgem nessa sala levanta o braço!”. Éramos dois virgens, meu primo e eu. Outra vez perguntou na frente da minha avó-sua mãe, de minha mãe e de outros tios se eu já usava camisinha. Acho que nos constranger com perguntas sobre sexo era a maneira dela se sentir próxima dos sobrinhos. Vai saber, nunca soube. A gente nunca conversou muito. Ela era a nossa tia distante, que morava em Brasília e vinha passar férias na casa da minha avó e trazia caquis maduros e docinhos diferentes do planalto como se fossem jóias. Minha tia indiscreta me deu o amor pelo caqui.

Quem me contou da morte da minha tia indiscreta foi minha irmã. “A tia D’Deus morreu. Foi hoje à tarde”. Senti a peso da notícia nos ombros da minha irmã pelos soluços e o choro incontrolável. “Mamãe foi pra casa da vovó, tô indo pra lá”. Enquanto escrevia esse texto, minha mãe me ligou. Parecia bem. Minha avó, uma senhorinha de 90 anos, só acalmou agora, depois de um remedinho.

Quando meu avô faleceu, eu estava na metade da minha primeira semana de estágio nos Correios. Era uma manhã quente de não lembro que mês. “Meu filho, seu avô faleceu, venha pra casa da sua avó, ok?”. Ok, mãe. Me despedi dos colegas, recolhi minha mochila e sai do departamento. Nunca mais apareci. Da casa da minha avó, enquanto as tias zelavam e velavam o pai, peguei o carro da minha mãe e fui encontrar com minha irmã na saída da escola. Quando ela me viu, seu semblante mudou imediatamente. Ela sabia. Quando lhe sussurrei ao pé do ouvido que nosso vôzinho tinha falecido, ela não pode fazer mais senão me abraçar e chorar. Enquanto minha mãe tratava dos trâmites da despedida do patriarca da família, cuidei do que mais a família precisou.

Um senhor de 96 anos que finalmente descansou depois de uns anos lutando contra o câncer na próstata. No meu íntimo, prevaleceu a sensação de alívio. Meu avô era um cara da terra, plantou arroz até os 92 anos, comemos macaxeira e feijão plantado no seu sítio por anos. A primeira vez que chupei cana de açúcar ela havia sido plantada, colhida, descascada e cortada em nós pelo meu avô. A cada dia que ele passava no hospital, era um dia a menos cheirando a terra do sítio, chamando os cachorros de cachorro, ralhando com os moleques que atiravam nos passarinhos com baladeira. Quando ajudei a carregar o caixão do meu avô no cortejo para o enterro, derramei duas lágrimas, acho que pela minha avô. Acho que as mesmas duas lágrimas que derramei pelo meu pai quando minha avó faleceu e eu ainda era menino. No dia da missa de sétimo dia, minhas tias me acharam na rua, vestido para a igreja, tentando achar um jeito de jogar futebol na rua sem me sujar – ou me sujando pouco.

Já tem uns anos que o pai de um dos meus irmãos – o primo, afilhado da tia indiscreta que faleceu hoje – foi diagnosticado com câncer de boca em estágio um tanto avançado. A melhora que ele apresentou meses depois do diagnóstico foi só a rasteira do imprevisível. Quando ele faleceu, meu primo sumiu com a namorada. Não atendia o celular. Ela não atendia o celular. Nada. De madrugada, enquanto os parentes chegavam de longe e os amigos apareciam pra chorar e fumar na calçada da capela, levamos o primo-irmão-melhor amigo para tomar um refri e comer alguma coisa. Sentamos na porta duma loja de conveniência e conversamos até bem mais tarde daquela madrugada. No dia seguinte, abracei meu primo sem temer se lhe racharia as costelas de tanta força. Ele chorava, triste. Eu o abraçava, triste.

O mal desse século deve ser a nossa obsessão diária em amarrar tudo ao campo gravitacional do nosso umbigo. Foda-se. Qual será o meu problema? Não chorei pela minha avó paterna, não chorei pelo meu avó materno, não chorei pelo meu tio, não chorei pela minha tia. Não chorei pela tristeza do meu pai, nem da minha mãe ou da minha avó, ou de nenhuma das minhas tias, nem da minha irmã e abracei meu primo como se precisasse conter um novo big bang. O impacto da morte nunca me chocou ou emocionou ao ponto de me fazer verter lágrimas. Durante muito tempo pensei nisso como um sinal de que eu seria sempre o cara pronto a manter as rédeas apontando para o caminho certo. No meio do desespero e da dor de outros ao meu redor, aguentar firme me parecia a colaboração que o silêncio pedia. Que eu calado, abraçava. Nunca vou saber se isso é a verdade ou uma desculpa esfarrada para a minha insensibilidade…

Às vezes amanhece o dia e alguém que muita gente ama e admira morreu. Se for um artista de renome, alguém de história, temo sempre pelos contemporâneos seus. Quando o Paulo Autran foi recitar Rei Lear das nuvens para o chão, pensei imediatamente na Fernanda Montenegro. Agora que minha irmã me liga para chorar a partida de minha tia, meu coração se fecha ao pensar na madrugada detestável em que me vão me ligar para dizer que minha vózinha de 90 e muitos anos já não vai mais poder fazer aqueles comentários amorosos sobre tudo. Que farão de seus chapéus? Por que eu não choro quando alguém morre?

Minha tia indiscreta foi a primeira da família e a única tia a me ligar no dia do meu aniversário. Foi a última vez que nos falamos. Durante a ligação, senti aquele constrangimento típico de estar recebendo votos e desejos de saúde e sucesso de alguém de quem não era tão próximo. Ela não me pareceu doente, ou cansada, ou debilitada. Nunca soube da sua saúde como empecilho ou desgosto. Ela morava sozinha. Como minha avó e minha irmã devem estar tristes… Por que eu não choro quando alguém morre?

3 respostas em “Acabo de perder uma tia

  1. quando cheguei na casa da vovó, não sabia o que dizer. não se tem o que dizer quando só se ouve que ela morreu em casa, no lugar que ela mais amava e no quanto ela era teimosa por morar sozinha. chorei o necessário pra tirar a dor do peito e chegar tranquila pra atender nossa mãe e vó no que fosse preciso. chorei agora lendo o texto por pensar que não me despedi dela, não ouvi ela me chamando de gorda, analisando meu corpo. porque ela era indiscreta com todos. perguntando quando ia decidir emagrecer ou se já tinha menstruado. era a forma dela tá ligada aos sobrinhos, antenada.
    o meu maior medo é que eu não esteja perto da nossa mãe, da nossa vó.
    você sente, eu sei que sente. enquanto nós choramos, você escreve um lindo texto.

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