A mania voltou

Assino o feed de um dicionário online, o Priberam. Assinar feed de dicionário me causa – e deve causar – uma estranheza compreensível e provavelmente estou explicando o óbvio quando conto que esse feed manda para os assinantes um verbete por dia.

Considero um mimo super legal. Não é o tipo de informação que muda meu dia, como seria se me apresentassem a um blog com MP3s em boa qualidade da última turnê do Walkmen ou algo do tipo. É legal porque ajuda a manter viva aquela mania que eu tinha quando moleque de, sempre que ia ao dicionário procurar algum verbete, voltar de lá com pelo menos dois ou três novas palavras lidas. Era interessante entende-las, alimentava meu vocabulário e não me tomava mais do que três minutos.

Para um curioso quase patológico [se você me acha incômodo hoje, saiba que eu já fui bem pior], uma diversão e tanto. “O que será que significa ‘vil’?” Abria o imenso dicionário e descobria que além de ser um adjetivo que definia muito bem os mesquinhos, os desprezíveis e os infames, também era algo “de pouco valor, que se compra por baixo preço”. A brincadeira não precisava seguir as palavras abaixo ou acima. Muitas vezes, meu olho se perdia na página ao lado e lá ia eu descobrir que vingar, além de tirar ‘desforra’ [o que significaria ‘desforra’?], também significava “crescer, prosperar (vencendo obstáculos)”. Para um moleque de 10, 11, 12 anos, esse tipo de informação parece quase inútil. Não usaria nenhuma dessas palavras na hora do recreio, veja bem. Saber é que era legal.

Uma vez dei essa dica do dicionário num post do Papo de Homem que mandava conselhos para filhos num dia dos pais. Um amigo me recriminou: “que dica coxinha, mané vocabulário pra conquistar menina”. Não soube bem o que responder à época, mas aqui fica a lembrança: vocês lembram do Alfie, certo? “New word for the day” e tudo o mais?

Lembrei de toda essa história de dicionário porque essa semana comecei a ler [depois d’uma longa busca por texto que desse continuidade ao ritmo que Nada me faltará do Mutarelli me impôs e que passou por Dostoiévski, Jorge Amado e Gabeira] um livro chamado O professor e o louco, de Simon Winchester. Se você for esperto – ou daqueles que sucumbem à tentação de ler orelhas e quarta capas de livros – vai descobrir que se trata da história do relacionamento entre o editor do Oxford English Dictionary e um dos maiores colaboradores do compêndio. O pouquíssimo que o título não entrega, a quarta capa o faz. Claro, é daquelas histórias em que esses “detalhes” são nada mais que acompanhamentos do prato principal que é o desenrolar da trama. Mas este é um livro que fala sobre dicionários, da paixão das pessoas pelas palavras de um idioma, dos limiares da loucura. E esta combinação inesperada me permitiu finalmente encontrar o sucessor de Nada.

Comparando com o que eu era na infância e com o que os sujeitos são no livro, o que sou hoje é bem distante dos dois. A correria sentada a que nos submetemos todos os dias faz desse um dos feeds que mais ignoro. A tal ida ao dicionário também se tornou rara. Hoje, me bastam uns clics e tecs para ter o significado de qualquer palavra, coisa que acontece com muita freqüência quando se revisa e edita textos jornalísticos para uma revista de Cultura.

A moleza acabou outro dia, quando depois de passar o café, estava esperando a queridona terminar seu banho lendo mais um trecho do tal livro. No colo, o celular, conferindo a hora. Ai esbarrei numa palavra que não conhecia. Celular no colo virou busca de palavra em dicionários online. Depois da terceira, tendo que usar um teclado qwerty minúsculo e precisando conviver com a falta de versões mobile para esses sites, lembrei do minidicionário no quarto do Renan.

E o prazer/mania da busca pelas palavras voltou.

2 respostas em “A mania voltou

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