A vida vem; a gente fica rindo

A louça não está lavada porque deu preguiça, agora que falta tão pouco para terminar o Harry Potter e o Enigma do Príncipe.

Na sala, feito de sofá está um dos colchões de casal da casa, os três pufes [um que é ideal para sentar à tarde e ler um bocado], a tv apoiada em três bancos, o video game, o aparelho de dvd, o decoder da tv a cabo, o modem e o roteador no chão, os dvds de volta ao armário.

Um conjunto de panelas novo, um conjunto de facas novo, um monte de copos novos, uma vida inteira nova que vai se encaixando aos poucos. Primeiro a cozinha, embora falte o filtro, mais panos de prato e os bancos de volta. Não quisemos comprar tudo de uma vez [ficou faltando um monte de talheres propositalmente desencontrados e mais pratos, fundos] para não cansar os olhos com as mesmas referências. “Vários espíritos para decorar e montar uma casa, senão ela terá os ares de apenas um sábado”.

Um sono pra matar o sono, uma chuva para matar o tempo, um copo de tubaína para matar a sede. Você acorda para almoçar, almoçamos pensando, assistimos filme dormindo, domingo pedindo cachimbo e passeio na avenida. Malvados que somos, demos a ele muita faxina e encontros sabidos na passagem de um quarto para outro, da sala para a cozinha, de lá para cá.

Saindo da cozinha, a máquina de lavar roupas, compra vibrada e aplaudida. Agora falta o rack [possivelmente roxo], um sofá e, mesmo contra todas as minhas chatices, um tapete.

Supermercado para o almoço, frango assado com farofa e arroz branco [a receita, que dispensa arroz parboilizado e se agarra àquele outro tipo – ainda sou um cozinheiro meio fajuto -, foi me ensinada por ela]. Meu primeiro arroz. Solto, leve e com um pouco de pregado, como minha mãe não gostava de me deixar comer quando pequeno. Frango de padaria + farofa + arroz branco? Uma seca infeliz, sanada com a sugestão de um tomate, que logo vira salada com uma cebola. “Era só metade, guri”, chia. É, sou muito iniciante mesmo.

Antes de saber quantas xícaras de água adiciono à panela para preparar o arroz, já quero saber um jeito de adicionar um pouco de suco de maracujá à receita sem deixar louco o óleo. Tal qual um senhor Miyagi, que manda “wax on, right hand. wax off, left hand. wax on, wax off. breathe in through nose, out the mouth. wax on, wax off. don’t forget to breathe, very important”, ela puxa a minha orelha para a importância do básico. “Primeiro aprenda a receita, depois incremente”. Yes, sensei.

Mas agora eu cozinho, cuido da casa [ainda de um jeito que deixa a desejar, claro], olho a tarde passar ou dormir, trabalho de novo com jornalismo, reclamo junto com o porteiro do prédio pela primavera que nunca vem, dou um tempo na padoca na frente de casa para ouvir os balconistas discutirem o jogo do domingo, aproveito para matar uma abacatada e um misto quente.

Como não tem nada de ruim acontecendo na internet, nenhum dossiê ou texto mais robusto a ser escrito, nem argumentos a serem apresentados, então parece muito que minha vida [nossa vida] tem caminhado para aquele momento em que a câmera dos clássicos se distancia do casal que se beija, aspirando o desejo de “e viveram felizes para sempre”.  Sinto que agora começo a minha família, o meu clã, os meus.

E, até o próximo odioso e adorado conflito – responsável por parte dos risos, choros, gritos e afagos, essa será a cena que quero que nos ilustre.

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8 respostas em “A vida vem; a gente fica rindo

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