A pequena fábrica de amores

Num fim de semana de setembro fui ao RJ e propositadamente deixei o crachá do meu motivo de viagem para minha sobrinha, a pequena-já-ficando-grande Eva.

– Pra quando você sentir saudades, Vida. O tio vai estar sempre por aqui
– Tá bom, tio

Eva é menina sensível e dona das frases mais desconcertantes. Como criança, ainda guarda a inocência que o mundo vai destruir logo logo, naquele processo também conhecido como amadurecimento. E é a inocência dela que me faz passar mal de tanto amor e saudade.

Como da vez em que, depois de um passeio pela Lagoa Rodrigo de Freitas, uma cabisbaixa sobrinha me acompanhava no banco de trás do carro de minha irmã, já no caminho da casa de meu pai.

– O que foi, Vida, porque você está tristinha?
– É por que você vai embora, tio

Um estremecer me sacudiu a alma, o olho turvou e o cheiro do cabelo dela me deixou sem jeito para dizer algo além de um “mas o tio volta logo, amor”.

eva-i

Somos tão unidos que ela nasceu um dia antes de mim. Este ano, quando da minha ligação de felicitações, a sinceridade dela explodiu como eu desejo que seja para sempre.

– Oi, Vida! Feliz aniversário!
– Brigada, tio!
– Tá boa a festa?
– Tá sim!
[em off, para a mãe que estava do lado]
– Mãe, eu quero ir brincaaar!
[responde a mãe]
– Fala com seu tio, Eva
[Eva volta a falar comigo]
– Oi, tio
– Hahaha, vai brincar, meu amor, vai!

Para que submeter a menina a ficar gastando tempo ao telefone se o bom mesmo era brincar de pique-esconde com as amigas da escola? E lá foi ela, com o coração leve e as pernas ágeis. No dia seguinte, no meu aniversário, uma ligação da irmã, e a voz da minha Vida surge de repente.

– Parabéns, tio!
– Meu amor, brigado!
– Te amo

Assim, sem meias palavras, sem vacilo.

Então hoje, de novo ao telefone, para desejar um feliz natal que ela ignorou [parece que as lições de budismo para crianças estão sendo bem dadas], um diálogo surge.

– Tio, sabe o crachá do Yahoo! que você deixou aqui?
– Sei, Vida, que tem?
– Sempre que eu fico com saudade de você eu dou um abraço nele

Dia após dia, a tatuagem no ombro esquerdo vai perdendo o jeito de mero pigmento impresso na pele e se torna uma marca de nascença.

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Eva é minha declaração de independência do sofrer, é meu passeio em dia de sol, é meu antídoto para todas as dores do mundo.

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13 respostas em “A pequena fábrica de amores

  1. tenho sorte também com meus primos pequenos, apesar da família me dar sérias restrições de que eu aprove sua criação…

    mas não vou longe, pensar na infância… a pureza das crianças nos encanta, mas o que me emociona ainda mais são os adultos que conseguem demonstrar afeto semelhante, se não igual.

    não é preciso nem abrir a boca e gritar aos quatro ventos “eu te amo”. quando você recebe um amigo e coloca o cd favorito dele pra tocar sem ele pedir (mesmo não sendo sua banda favorita), ou num abraço de despedida, por exemplo, você percebe isso. 😉

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