Sobre fotos, tardes e mangueira com cajuína

Quero coisas, dias, momentos para mim de novo. Não assim como se eu não quisesse viver o que vem pela frente, não é isso, não mesmo. Eu te digo que não, por favor, acredite em mim.

O que eu digo é que alguns momentos ficam marcados na sua memória de um jeito delicadamente grosseiro, como se talhados em madeira pelo xilogravurista. Delicado mas grosseiro. O traço é gentil, mas o material é madeira, pesada e grossa.

A tarde no banco do jardim, a brincadeira com os cachorros, a ligação para reforçar o convite e cobrar a presença, a torta da avó para o amigo, o elogio, os destratos, a mensagem com mordidas, o sono durante o trabalho, as manhãs no parque, vendo crianças, vendo desenhos, dormindo no parque, os dias que vi amanhecer, a bebida barata e deliciosa, as noites tomando cervejas, tudo é motivo de uma saudade especial, que não maltrata mas que deixa aquele gosto “azedinho doce”, como a bala da infância. Sinto também saudade dessa bala, até a 7Belo voltou e a Azedinho Doce parece ter sumido para sempre.

E é assim que as coisas são, e assim como elas são, naturalmente desde sua criação e surgimento, um dia elas mudam.

Quando for hora de encarar a morte, se a lenda do filme da vida diante dos olhos realmente for verdadeira, creio que meu último suspiro vai ser bem longo. São tantas as coisas a serem vistas, tantas saudades boas. Coisas curiosas e chatas, tristes e felizes, dias de chuva em que não me sentia sozinho, dias de sol bons para andar de bicicleta e meu joelho não reclamava, finalmente aprender a andar de bicicleta sem as rodinhas de apoio, as primeiras aventuras, os pequenos delitos, as pinturas na parede… Coisas que hoje estão ali, congeladas na memória, esperando um gatilho qualquer para disparar tudo isso num filme que eu não canso de assistir. Um clássico da minha vida, uma câmera na mão e nenhuma idéia do que pudesse acontecer. Tudo apenas acontecia.

Um grande amigo outro dia me disse que eu estava muito nostálgico. Não sei bem o que acontece, mas ele está certo. Lembro dele ainda descobrindo os corredores da universidade, depois a amizade, a velha piada do show em que eu não o deixei na porta de casa, as outras tardes fazendo nada, aquela conversa infinita recheada de silêncio dedicado à leitura de um gibi antigo, as conversas e os cigarros acompanhando a amiga que ia embora, essas coisas que não se esquece e boas de lembrar. Nem faz mal nem maltrata nem nada. É bom de lembrar mesmo e a gente lembra até sem querer. Essas, inclusive, são as melhores memórias.

O dia em que a festa acabou cedinho no dia seguinte e tomamos um café numa padaria qualquer perdida entre a Augusta e a Bela Cintra, a volta para casa de estômago forrado, o sol forte cegando e esquentando a pele, o sono bom e longo, a canção da banda predileta no violão, o trevo, o cabelo cortado de repente, o cigarro predileto, a cerveja com coca cola, os shows, que delícia eram os shows, o baixo com a fita da cesta de café da manhã de longa data e nunca nunca esquecida, sempre comigo no primeiro baixo, depois no segundo, hoje na minha carteira, as canções, os pulos, as canções marcantes e inesperadas, todas as coisas que não se esquece e que é fantástico lembrar… Os almoços corridos no restaurante universitário, o picolé de creme de abacaxi depois, centavos por uma coisa tão gostosa… O primeiro cigarro, o primeiro maço, a descoberta do cigarro predileto, a visita à médica bonita, o disco bom da banda desconhecida, as doses de cachaça, o tira gosto de fruta verde, essas coisas que se faz quando se é jovem e se tem medo de tudo, tudo é novo. Coisas boas de todo dia e que vão sendo catalogadas na memória. Um imenso e desorganizado arquivo que, ainda bem, cresce todos os dias….

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