Reflexões durante um porre de mangueira com cajuína

Tudo que eu deixei pra trás me traz um vazio tão grande, me tira a paz, me dói demais

Eskimo – Canção Para Os Amigos

Se a solidão tem uma verdade, talvez a maior de todas seja: as coisas que a gente deixa pra trás são as que mais fazem falta. Você não se importa tanto em não ter conseguido seus objetivos, você talvez nem se dê conta de que esses tais objetivos não foram alcançados, as diretrizes mudam muito rápido para que a sua consciência consiga acompanhar.

O que incomoda mesmo é deixar de lado, meio que esquecendo [por ter que ocupar a mente com outras coisas], tudo aquilo que você já tinha conquistado. Provavelmente esse seja um pensamento pequeno, esquisito e incongruente. Mas dane-se. As coisas são assim mesmo. Embora muito se pense no futuro, a dor maior seria perder o referencial do seu passado.

O futuro é algo que não nos pertence [e também não pertence a Deus, caro leitor(a) beato(a)…]. O futuro é um conjunto de incertezas que nos faz apenas aceitar o que for acontecendo. Por que não adianta muito você se programar para que tudo saia do jeitinho que você quer. Definitivamente não adianta. É mais além, o buraco é mais embaixo.

Quando você dorme e não sabe o que vai fazer no outro dia, ou não sabe como vai fazer para dar conta do que já se tem programado para o outro dia, toda essa agonia é válida apenas para preparar seu coração para sustos maiores. São as doses extras de adrenalina antes de dormir [e que não te deixam pregar o olho] que te levam a aceitar melhor as merdas da vida. E essas merdas estão diretamente ligadas à broxante certeza de que o seu futuro não vai ser do jeito que você quis.

Claro que sempre se pode tomar uma cerveja no fim do dia e conversar sobre fotografia, futebol e mulheres, mas tudo isso é apenas uma maneira de desviar sua maneira da idéia principal de que tudo que você conquistou na sua vida ficou para trás. Toda a segurança que você um dia teve ficou em algum lugar do passado, por que agora é o momento em que o futuro começa a fazer das dele, se programando para quebrar suas pernas na próxima esquina.

E é nesse momento que as lembranças de um passado seguro, tranqüilo, feliz, são tão importantes. Quando você consegue lembrar que seu passado [ou as coisas deixadas para trás] te traz um vazio filho-da-outra, é aí que você se toca que esse vazio é o teu chão, é o que te segura. Ele é a tua outra dose extra de adrenalina para preparar o teu coração para a percepção mais clara [embora se insista em negar…] do futuro deixado para trás e da impossibilidade dele te esperar. Não, não vai mesmo.

Tudo que você deixou para trás, amigo, ficou lá. As coisas à frente não são seguras e então você só tem o presente. No fim das contas, você só tem o hoje. Só o hoje te possibilita decidir tudo que você quer fazer, deseja, consegue, ambiciona.

No hoje você pode tomar um porre, fumar um beck, trair seu marido, roubar uma maçã, perverter um menor de idade, fazer sexo com uma galinha, sem se preocupar efetivamente com o que vai acontecer no futuro e em que tipo de passado aquilo vai se transformar.

Pode ser que você seja vá pro trabalho ainda de porre e dê tudo certo [ou errado], pode ser que a polícia te pegue e te enquadre como usuário de maconha, pode ser que você seja traída em retorno. Pode ser que você mate sua fome e perca um pouco de dignidade, seja atacada por uma mãe raivosa ou ganhe um amante imberbe, mas duro como um touro, ou finalmente tenha um filho com um bico e algumas penas.

Mas nada pode definir exatamente como tudo aquilo vai ser processado. Pode ser que se der tudo certo, então esteja tudo realmente errado. Pode ser que você se ferre e isso sirva para iluminar seu caminho. Só que a principal verdade de tudo é ignorada: tudo isso vai trazer conseqüências, mas não se sabe quais. E nunca vai se saber até se tentar [ou até se ferrar…].

E assim o hoje se mostra como uma tela em branco, uma folha de papel ainda não escrita. Tudo aquilo pode se transformar em todas as outras coisas ao mesmo tempo.

Resta saber se você vai querer descobrir o que tem do outro lado.

Eu continuo covarde o suficiente para pensar nas conseqüências antes de fazer as coisas. E por isso o que eu deixei pra trás me traz um vazio tão grande.

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