Textos categorizados 'São Paulo'

Pode abrir o sorriso, mãe

Maldito seja o sumiço do Belchior. O chavão do rapaz latino-americando de 25 anos sem dinheiro no banco ou amigos importantes já era batido antes do bigodudo sair do interior e voltar às graças do falatório. Mas agora que ele virou eremita-tradutor-da-divina-comedia-recluso-quase-incomunicável, a citação está praticamente proibida em qualquer texto sobre idade, grana, relacionamentos e perspectivas que se preze.

Assim, mudo de tom, tema e discurso.

É ter paz quando por a cabeça no travesseiro, conseguir manter quente faz bem, perto. Parabéns, mamãe, seu projeto de homem feliz deu certo

EMICIDA – A Cada Vento

Todo dia um pouquinho, descobrindo a vida de família classe média, pagando o cartão de crédito chorando, guardando moeda no cofre para o presente de natal, procurando aliança significativa [e barata], dormindo à tarde para ficar acordado a madrugada inteira com ela, pedindo delivery de temaki à 01h da manhã, fazendo samba e amor, batendo perna na Paulista, planejando mochilão para a Europa, aprendendo a cozinhar, deixando e pegando na Rodoviária, construindo uma família, imaginando um lar, lavando a louça, aprendendo a cozinhar, comprando batedeira, assando o primeiro bolo de chocolate e outras felicidades dentre as tantas que a vida oferece.

Claro, nessa vida se encontra desafios que estão mais para tristezas paralisantes, mas é nesse momento que a fibra do sujeito se mostra.

E hoje, a minha se mostrou.

E agora são dois anos

Era madrugada de 26 de janeiro de 2007. No aeroporto estavam comigo minha mãe, minha irmã, um primo querido, alguns poucos amigos e ela. Sâo Paulo havia completado 453 anos dois dias antes e agora lá ia eu dar meu parabéns ao vivo e em cores.

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Minha mãe já não dizia mais grandes coisas, só me olhava. Eu podia sentir o aperto no peito dela. “Cuidado, meu filho. E boa viagem”. Assim, sem delongas, sem choro. Um último abraço na irmã [“cuida da mamãe, tá?”], outro nos amigos, um beijo demorado com sabor de lágrima e saudade nela e lá vim eu.

Durante este tempo todo em que estou por aqui, depois de ter passado por períodos dos mais diversos, intercalando solidão sofrida, andanças pela cidade, descoberta de pontos preferidos, saudade, saudade, saudade e saudade, eu finalmente me toquei de que não adianta reclamar de nada. Que o que adianta mesmo é simplesmente seguir, seja na vida, no trabalho, no amor. Seja sozinho ou mal acompanhado, o ônibus vai permanecer cheio, a chuva vai continuar de canivetes, o tempo vai seguir passando rápido demais.

Depois de certo tempo batendo perna por aí, quando consegui me orientar olhando apenas para um ponto qualquer da Avenida Paulista [e decorando a sequência de ruas que desembocam na Consolação], senti sim que São Paulo poderia me abraçar como filho.

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Na virada de 2007 para 2008, laços que não quero perder nunca, qualquer que seja a minha posição no globo, já estavam estabelecidos. Foi a primeira vez em que eu senti saudade de São Paulo, das suas ruas, avenidas, fumaças e barulhos. Foi o primeiro sinal de que me sinto realmente em casa por aqui.

Outros vieram com o passar do tempo. Como quando penso em ir morar no Rio de Janeiro, para ver minha sobrinha crescer, ou quando pensei em ir embora, e uma saudade bem típica da minha personalidade despontou.

Hoje, enquanto trabalho e comemoro dois anos de Sampa, fico feliz em pensar que não tenho data para deixar a paulicéia desvairada. Fico feliz de me sentir em cima do muro e não saber onde chamar de “lar”, não porque tenha que ser um ou o outro, mas porque podem ser os dois, Teresina e São Paulo.

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Afinal de contas, home is where your heart is. E uma parcela do meu já se sente à vontade para tirar o sapato e abrir a geladeira quando chega por estas bandas.

Que outros anos venham.

Mas que beleza de calor, hein?

A estação mais quente do ano tem seus encantos e escreve poemas visuais.

Como já dito inúmeras vezes, sou de uma cidade em que o calor domina. Em que é quente o tempo todo, todos os dias. Em que se sua mesmo estando parado. E onde não venta.

Assim, quando vim para São Paulo, finalmente pude comprovar o que são as chamadas frentes frias, mas, em destaque, as estações do ano. Verão, outono, inverno, primavera, verão… Tudo bem dividido, mesmo que tudo no mesmo dia. E quando se tem a possibilidade de encontrar pessoas empacotadas, de cachecol, capa de chuva e luvas – no inverno -, ver tudo se transformar para receber o calor do verão é uma honra.

Não que eu não goste de frio. Na real, adoro. Mas quando o verão e seu calor chegam, o que me chama a atenção são as mudanças no vestuário feminino. Ah, as mudanças de vestuário feminino.

De repente, as mangas somem e lá vem as alças, mostrando braços e ombros. As calças viram bermudas ou shorts e apresentam a nova estação às pernas. Os vestidos querem encontrar os joelhos e as saias se afastarem deles – ambos brincam com as formas das coxas e dos derrières. Os decotes querem dar um pouco de sol para os seios, tanto tempo aprisionados dentro de casacos e moletons. Os pés ganham liberdade nos chinelinhos e sandalinhas. Tudo tão encantador… E confortável também, claro. Com um calor intenso, que mulher gostaria de ter que encarar uma calça jeans ou um terninho? Conforto para o dia-a-dia para elas, prazer visual para nós.

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Eis então que caminhar pela cidade é uma deliciosa brincadeira para os olhos. Para onde olhar primeiro? Para a mocinha que caminha faceira pela Avenida Paulista, com as pernas dando bom dia aos passantes, ou para a mulher que oferece os braços enquanto amarra o cabelo?

Isso sem falar das cores, dos tecidos, dos cortes. Das flores, dos cheiros. Aliás, é a época dos diminutivos, dos vestidinhos, das blusinhas, das sainhas… Uma época em que os encantos físicos das mulheres se apresentam. E não quero ser açougueiro aqui, óbvio. Só me encanta a idéia das moças, garotas, jovens e mulheres voluntariamente nos oferecerem este espetáculo. Não é só um desejo por ver carne, é o prazer da visão.

O verão, mesmo que uma tormenta quando se pensa nas altas temperaturas que experimentamos, tem e mostra suas belezas. Não sei se as meninas adquirem a mesma “vantagem”, mas pense nisso quando for reclamar do calor de novo.

Texto originalmente publicado na minha coluna de hoje no Yahoo! Posts.

Um dia lindo de morrer

Quando eu lembro de ontem, arrepia.

Nos últimos fins de semana a coisa tem sido meio modorrenta. Grana curta, frio “rascante”, preguiça, os mesmo programas de sempre, novidades bloguísticas… Sempre havia um “bom” motivo para ficar embaixo das cobertas, vendo um filme ou inventando mais uma demanda para o dia-a-dia. Maquinar, sabe como é.

Daí que sexta-feira, ao chegar do trabalho, já havia uma programação definida: bar ver amiga de amigo + show de ska da banda de amigo de amigo. Acabou que, por preguiça, ficamos em casa, eu e o amigo Jader. Dhuba estava por ali, em posição de lótus na frente do video game, eu catei uma garrafa de Mangueira esquecida na geladeira e mandei cinco shots pra dentro. Jader fez o mesmo e terminou de secar a garrafa. Óbvio que isso fez a noite. Não precisamos sair pra outro lugar.

Daí começou o dia sagrado: o sábado.

1 – Acordar às 08h, sem ressaca, só com sede? Ponto para o sábado;
2 – Encontrar a família do amigo, depois de boas semanas de sumiço? Ponto para o sábado;
3 – Acompanhar amigo e mãe do amigo na concessionária, escolher o carango novo? Ponto para o sábado;
4 – Seguir para Sampa encontrar uma amiga do amigo, a gente finíssima, bem humorada, bonita, engraçada e disposta Francisca, tão charmosa quanto o nome? Ponto para o sábado;
5 – Bater perna na praça Benedito Calixto, num dia de clima ameno, jogar conversa fora, falar de Madonna, apostas, vinis, tomar um café e ver os preparativos finais para um casamento numa igreja do lado? Ponto para o sábado;
6 – Ligar para a amiga Carol Bazzo, a convocar para o show de China e Mombojó e receber pelo tom da voz dela um abraço ali mesmo, pelo celular? Ponto para o sábado;
7 – Bater perna pela Livraria Cultura, vendo, escolhendo e perdendo livros, testando o fantástico Manual do Xavequeiro, dividindo pequenos trechos de livros aleatórios e aforismos prediletos? Ponto para o sábado;

8 – Ver a noite esfriar rápido e mesmo assim seguir para a estação de Metrô Santa Cruz e assistir uma batalha de MCs no estilo 8 Mile, em que o irmão do Jader, mais conhecido como Mc Bino, mandou super bem? “Tem que ter suingue, tem que ter suingue, no Santa Cruz o metrô é o ringue”? Ponto para o sábado;

9 – Fazer o caminho do Metrô Santa Cruz até o StudioSP com o pretenso sonho de conseguir rimar como aqueles carinhas e no mínimo conseguir rir muito com as idiotices ditas, fazer esquenta num bar do lado, tomando uma Brahma geladíssima na fria noite de Sampa, ouvindo Calcinha Preta e Queen? Ponto para o sábado e
10 – Ir para o StudioSP para assistir a um show dos dois artistas pernambucanos que mais admiro, China e Mombojó, me acabar com as escolhas do DJ Tatá Aeroplano, vocalista da banda paulistana Jumbo Elektro [que mandou, no meio de tudo, um alucinado Tuareg, dos primeiros anos da Gal Costa], cantar praticamente todas as músicas, dançar, beber cerveja, gritar mesmo com a garganta inflamada, lembrar do primeiro show do Mombojó em Teresina e perceber a evolução dos “meninos”, finalmente ver um show do China, me divertir afu, sair do Studio completamente sem voz, sem pernas e sem uma gota de tristeza na mente? Ponto para o sábado.

Depois de muito tempo sem grandes idéias do que fazer no fim de semana, num dia só consegui programas variados e divertidos, com papos engraçados e sérios, longos e curtos, irônicos, mas bem humorados sempre. Há tempos eu não tinha um sábado tão empolgante assim, com tudo se encaixando, fluindo, apenas sendo. Conhecendo gente nova, reencontrando gente bacana… e pensando que a gente reclama mesmo pra ter o que achar ruim da vida. Drama bobo, entende?

Ontem foi um sábado tão bom que rendeu até pacto: “por sábados mais felizes”. Ontem? Ontem fez um sábado lindo de morrer.

4ª carta

Na parábola bíblica, Babel era a torre que queria chegar aos céus. Diante de tamanha afronta, Deus (ela mesmo, a Alanis) mandou um raio e ZIP!, mudou a língua de todo mundo e ficou cada um falando um idioma diferente.

No filme Babel, a língua é uma puta barreira para todos os personagens do filme. Inglês, espanhol, ‘marroquino’, japonês, linguagem de sinais, tudo é barreira para que as pessoas se entendam.

Claro!

Na cidade ‘babelística’ de São Paulo, a barreira é o silêncio. Tal como naquela festa relatada na Bravo! que li indo para Jeri [aquela, do Paulinho da Viola e do Arnaldo Antunes na capa], capa um está imerso no seu próprio MP3/MP4 que toca até 12h seguidas com a mesma pilha AAA [essas você encontra no Pão de Açúcar por R$ 6,29 o par].

Cada um está imerso numa realidade diferente de sons. Cada um está mais isolado ainda do outro, perdido entre Mombojó, Ludovic e Chico & Caetano [como eu], ou emocore, metal, samba, rap, hip hop, whatever

Os paulistas não tem costume de serem tão abertos ou educados [no nosso ponto de vista] quanto nós. Talvez seja o clima, os genes, ou apenas medo.

Eu já falei disso em outra carta, mas é tão marcante, tão presente, que o silêncio nem incomoda mais. Tenho medo de me tornar um deles.

A falta de alguém para conversar, beber a Absolut que está no meu guarda-roupa ou para apenas dividir o mesmo ambiente faz de mim recluso do meu silêncio.

Imagine você não ter com que ou porque falar durante horas seguidas. Imagine que eu não tenho ninguém para compartilhar os dez filmes que eu vi durante o Carnaval. Já não está doendo tanto assim. E só faz um mês que aqui estou.

Um dia, um pouco antes de começar na Abril, perguntei a um amigo o que eu deveria estar atento quanto aos paulistanos. “Eles são um povo que não acham legal quando você chega querendo abafar. Ouça e observe”, disse ele, mais ou menos isso.

E assim tenho feito. É como em “Little Miss Sunshine”: voto de silêncio e observação. Always.

Carnaval, carnaval, carnaval
Fico tão triste quando chega o carnaval

[Luiz Melodia]

Sabe que eu nem fico mais triste? Esse talvez tenha sido o Carnaval mais sereno da minha vida. Saudade? Claro! Mas a cada sessão, a cada filme, pessoas diferentes pediam licença para adentrar minha vida. Cada personagem vinha de um canto diferente, falava de um jeito diferente, pedia uma coisa diferente.

Essa novidade constante, essa coisa de histórias novas em todo canto, me deixava mais relaxado, mais tranqüilo. Cada rosto conhecido que eu não encontro em cada esquina que eu dobro me faz pensar melhor em cada passo que dou.

Uma coisa que me acalenta é que eu leio mensagens de celular, no msn ou e-mails escutando a voz de quem escreveu dentro da minha cabeça, como se ela lesse o texto.

E há vozes [sim, a sua...] que, mesmo não querendo, eu já começo a esquecer. E eu não quero isso. Juro!

Tenho uns postais bacanas para enviar. Do pub irlandês que fui outro dia, peguei 14. Preciso do endereço completo dos interessados.

E, por favor, não me deixe[m] esquecer sua[s] voz[es]. É isso que me enche de alegria.

Pedro Jansen
20.02.07

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