Textos categorizados 'Literatura?'

Barcos de papel

Acordei com aquele som insistente na janela. As batidas, rápidas e secas, me disseram logo, e pela falta de luz, confirmei: estava chovendo. A idéia de me arrumar com banho gelado, tomar café sentindo cheiro de chuva e provavelmente chegar ao trabalho todo molhado não me foram bem aceitas. Há muito eu deixara de gostar da chuva como outrora. Era mais fácil para eu esquecer, e é agora mais fácil seguir que explicar. Embora eu tenha a clara percepção de que a água da chuva, mesmo a ácida, limpa e beatifica o corpo, não era aquela sensação boa que eu sentia naquele momento.

Levantei com um desgosto plácido e determinado a chegar atrasado ao trabalho, na vã esperança de que a chuva cedesse. Pelo contrário, parecia o replay do dilúvio divino. Água, água, água por todos os cantos, numa sinfonia de sons e texturas, de sentir e engolir de volta lembranças que queriam ser vomitadas no tapete encardido da sala.

No banho, enquanto ensaboava as costas, observei pela pequena janela do box que as árvores da rua que passava atrás do meu prédio estavam todas envergadas, com o vento da chuva. “Uma chuva de vento”, pensei, como há muito não via e há muito não pensava. As lembranças engolidas há pouco, no entanto, voltaram quando estava saindo o trabalho. Ao volante, passando marchas, conferindo velocidade, nível do óleo e essas coisas maquinais, olhei pela janela e vi os rastros finos da chuva forte escorrendo de leve. Então, não tive como segurar.

chuva
As primeiras lágrimas foram fracas, saindo de leve pelo canto dos olhos, embaçando os óculos. Logo, como se uma torneira tivesse sido aberta, passei a chorar copiosamente, mas sem soluçar, sem tremer, sem me alterar.

O choro tinha razão. Aquele traço fino de chuva na janela do carro me remeteu à lembrança mais forte da minha infância quando o assunto era chuva. Para mim, tudo ali era uma festa. Sempre leitor de tudo, estava acostumado a sonhar com poças de água que eu pudesse pisar. Fosse no colégio, fosse em casa.

Em casa era a vez dos banhos de chuva, andando de bicicleta sob o olhar atento e severo de meu pai. Na escola, era hora de desafiar a aderência dos meus tênis ao chão, correndo pelos corredores e quadras molhadas ou respingadas pela chuva. Vi muitos perdendo seus dentes ali, enquanto eu seguia no meu orgulho pueril de nunca ter sido derrotado pela chuva.

A minha derrota, porém, vinha sempre mais tarde. Apaixonado por todos os tipos de azuis, para mim era sempre fascinante perceber que em noites de chuva, ao invés de negro, o céu se torna vermelho, às vezes, levemente roxo. E essa cor, fascinante em todos os seus aspectos, numa pintura da época que deus fazia sentido para mim, me marcou profundamente. A lembrança marcante era de quando minha mãe ia me pegar no colégio. Fim de tarde, início de noite, a primeira parte da chuva do dia já caída, era hora de esperar minha mãe, sentado nas escadarias da escola. Ou então, de brincar, com barcos de papel recém-feitos, nas corredeiras intensas e perigosas da rede de esgoto que passava defronte ao meu colégio. Quando ela chegava, e tomava para si o peso da minha mochila, passava a mão em meus cabelos perguntando como havia sido meu dia, e calmamente abria para mim a porta do nosso velho carro, ali era hora de olhar para o céu e ser absorvido com total intensidade por aquele vermelho. Vermelho de chuva. Vermelho do céu. Meu vermelho, da minha infância, o único vermelho que me inebria, eu que tão fascinado sou pelos azuis.

Então, era por isso que eu chorava. Aquela cor, já esquecida, brotou em mim pelas finas linhas de água que desciam pela janela do meu carro. Não era bem a cor que tinha me aparecido, mas a imagem posterior, de quando eu entrava no carro de minha mãe. Eu sabia que à noite eu teria, assim como o retorno das chuvas com vento e das árvores inclinadas, o céu vermelho de chuva. Já não fazia sentindo saber ou lembrar porque eu não gostava mais de chuvas. Talvez fosse só orgulho bobo, declinar dos prazeres que aquelas águas caídas podem proporcionar. Valia mais à pena apreciar os momentos que eu já tinha vivido, principalmente quando eu era feliz, em que aquela cor estava presente, cheia de poesia e amor, atenção e carinho.

Texto originalmente publicado em algum dia de 2006 e minha homenagem à chuva da tarde de hoje.

Porque chuvas sempre me fascinaram, desde criança. E espero que sigam fascinando.

5 livros bons de dizer que leu

Eu tenho um sério problema com livrarias. Perco [ou ganho] um tempo absurdo lendo títulos, sinopses, cheirando os livros [sim, o cheiro dos livros é MUITO importante]. Invariavelmente eu comprava algum.

Também tenho um problema com livros. Gosto deles, das formas, dos tamanhos, dos cheiros… E gosto de lê-los, claro. Mas, principalmente, gosto de tê-los. Acumular livros nas prateleiras é algo que me fascina. Fico pensando naquelas bibliotecas particulares das grandes mansões, com livros ocupando paredes e mais paredes, uma boa poltrona para leitura e um original qualquer dentro de uma redoma…

Mas, contrariando minha sede por livros não-lidos, tive um surto e quase dupliquei a quantidade de livros lidos este ano. Devorei, inclusive, alguns clássicos, já que é sempre bom fazer aquela média de que lê livros legais.

Vamos então aos “5 livros bons de dizer que leu [e que você leu mesmo]“.

1- O MANÍACO DO OLHO VERDE, de Dalton Trevisan

Temos aqui um Dalton Trevisan, lançado agora em 2008. Contista ágil e doentio, o curitibano me fez ler 128 páginas em coisa de 4h, contando a volta pra casa, a ida e a volta do trabalho no dia seguinte. Ouvindo Radiohead. Não preciso dizer que a combinação foi corrosiva o suficiente para influenciar no meu sono. E como meu sono é uma espécie de entidade que pobres mortais não alcançam, este foi o máximo sinal de que algo [ou melhor, tudo] naquele livro mexeu comigo.

2- O GRANDE GATSBY, de F. Scott Fitzgerald

O meu primeiro Fitzgerald, mesmo que eu tenha “Suave é a Noite” desde a época da faculdade. Com a dica de uma ex-love affair, aceitei o desafio de encarar a narração do autor americano novamente. Foi uma decisão acertada, sem dúvida. Principalmente pela narração, que é fantástica, e pelos “aforismos” que Fitzgerald constrói como poucos. Lido num espaço de cinco dias, as últimas linhas das 252 páginas do O Grande Gatsby são de perder o fôlego e de ficar com a dolorosa sensação de que uma história se esvaiu.

3- O JOGADOR, de Fiódor Dostoiévski

Um dos pilares da moderna literatura russa, [junto com Gogol e Tolstoi], Dostoiévski tinha no realismo a sua casa, o seu lar. Retratar a sociedade em suas minúcias, em seus pequenos e grandes qualidades e defeitos era seu esporte predileto. As digressões do autor sempre enveredavam por caminhos que levavam ao conhecimento das idéias e convicções dos personagens.

Em O Jogador, essas digressões são fascinantes, pois abordam a mente corrompida de um viciado em jogos de azar e eterno apaixonado por uma mulher que o despreza. Desespero e angústia se misturam em cada uma das 174 páginas, consumindo o leitor até o gozo das últimas linhas.

4- PERGUNTE AO PÓ, de John Fante

Arturo Bandini é um loser de marca maior, mais loser que eu ou você, tenha certeza disso. Ainda assim, Bandini é um sujeito encantador, daqueles que você fica com pena por ele ser tão estúpido. Consegue-se até rir do quão quixotesco Arturo é.

Escritor, Bandini tem uma relação patética e muito forte com seu editor, a quem vê como uma entidade. Publicou uma única história, o conto ”O Cachorrinho Riu”, e se orgulha dela como se fosse a melhor coisa já escrita no Ocidente. Clássico dos clássicos, Pergunte ao Pó consegue esfregar na cara do leitor como é ruim viver com o olhar perdido do real.

Desnecessária, no entanto, a sua adaptação para o cinema. No filme, temos o irlandês Colin Farrell retratando o ítalo-americando Arturo Bandini.

5- HOMEM COMUM, de Philip Roth

Uma narrativa tão fantástica que li o livro em pouco menos de um dia. Tão fantástica que, nas últimas linhas, senti meu coração pulando algumas batidas. Tão fantástica que foi suficiente para mudar meu humor completamente. Philip Roth aborda a vida, as lembranças e os pequenos/grandes medos de um homem consciente de sua fragilidade.

Essa consciência, no entanto, não torna o livro óbvio ou cheio de clichês. A narrativa de Roth mantém o olhar do leitor apontado sempre para a próxima palavra, embora seja impossível não dar pausas dramáticas para respirar fundo, olhar para o tempo e pensar na vida. Aliás, ao fim do livro, pensar sobre a vida é o menor dos problemas.

I will sing a lullaby

Eu não consigo me controlar
Tenho um demônio na carne, no corpo
Sonho acordada na escuridão da minha cela,
Utilizo os dedos pra provocar sensações proibidas
Eu não sei explicar como isso acontece,
eu sinto um formigamento percorrer o meu corpo,
e algo se desprende, e caminha em direção a você.

[3 Na Massa - Pecadora] 

Mais uma vez sonhei com você. Não como da outra, em que a gente conversava e de repente você se afastava ao menor esboço de aproximação da minha parte. Não foi num bar, numa calçada ou num café perdido no tempo e nas ruas.

Era a casa de alguém próximo a mim, mas muito distante de você. Sonhei, e eu afirmava e dizia sorrindo que ia embora, ia embora de onde eu estava, de volta para os meus, os dos outros, o de sempre.

Sonhei que você aparecia na companhia dele, como se quisesse me forçar a ver que tudo ia bem. E bem que ia, não há razão para mentir. Mas com você lá e ele ali, alguma coisa daria muito errado.

Assim como eu desejei no dia que você recusou todos os meus convites, havia música e dança, além do melhor lubrificante social já inventado.

[essa parte pode ter sido inventada ou não]
Enquanto você não tirava os olhos das marcas nas paredes, ele observava os movimentos precisos dos pares de coxas femininas pelo cômodo, acompanhando a dança com interesse peculiar e libidinoso.

Você olhava as paredes, ele, as coxas, e eu, eu apenas observava você: na gentileza dos seus gestos esboçando um toque na massa que fazia papel de tinta, na precisão do teu traço, no entreabrir da tua boca, forçando a separação lenta e seca dos lábios, logo devidamente umedecidos com a tua língua cruel.
[/essa parte pode ter sido inventada ou não]

De lá te puxei para fora do lugar da dança, da música e da bebida e te pus nos braços, como não havia feito em nenhum outro momento. E assim, nos meus braços e sem explicações maiores, derramei em ti um pouco da saudade que minha boca sentia da tua. Um beijo demorado e suave, causador dum comentário perverso e animado de um dos meus, que passou.

Te pus no chão, cuidando para te pousar de leve. Então, defronte a mim, mais um beijo – no qual sorvi de volta a saudade que minha boca sentia da tua, mas que não te despertava emoção – um olhar, um suspiro e afinal a coragem para a pergunta.

- Por que você faz isso, _________?
- Porque eu sou assim.

…..

Acordei incomodado, como você me deixava. Um incômodo travestido de curiosidade: que raios de força é essa que não se acaba?

Foi então que eu levantei da cama, tomei meu banho, me vesti e saí para mais um dia de trabalho.

Paus, Copas, Ouros e Espadas

Eu não sei para onde eles foram, mas os ases do meu baralho de possibilidades de fuga dentro do que eu penso e do que eu sinto simplesmente sumiram.

Não há nem um motivo em especial. Só há uma certa dormência. Ou uma falta de saco. Não há abertura para que as coisas que eu queria imaginar, as histórias que eu não sei como externar e que eles quatro me facilitavam o caminho.

Assim, eu fico sozinho. Obrigado, Friedrich Wilhelm Nietzsche.