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“Não existem lugares, existem pessoas”

Como suspiros pregados no chão de terra, rio e pasto, observo as nuvens do alto dos 11.200m acima do nível do mar que essa aeronave me transporta de volta a São Paulo, assim como da primeira vez que fiz a viagem.

O que imaginava ser um leve enjôo, talvez ainda reflexo da farra do último sábado, se mostra agora mesmo um choro tranqüilo de saudade pura e boa. E de todas as imagens que vejo aqui dentro da minha cabeça, fica a do abraço último em você, meu amigo Rafa, que eu amo e admiro.

A proximidade da chegada me dá o choque de realidade costumeiro: a volta aos ônibus, ao metrô, aos bares tomando guaraná com laranja e falando amenidades, e paquerando as moças sem sucesso. O trabalho me espera e com ele a pá derradeira de areia sobre o fascínio que as férias de fim de ano têm.

De absurda e estranha maneira, dessa vez tive a fiel certeza de que meu coração e minhas raízes estavam assim em cima de um muro, como se eu fosse ainda teresinense por fascínio e amor cego e irrestrito, mas já não me reconhecesse imediatamente. Parece que há um esforço cada vez maior para me achar nas coisas e nos lugares. Ainda assim, a madrugada na Frei Serafim me encanta profundamente, acho o sono de Teresina a coisa mais encantadora do mundo.

Enquanto verto as lágrimas, o aperto no peito diminui e eu fico pensando mais no provincianismo da minha terra boa, que tem seus defeitos e belezas, gente que admiro, lugar quente que me deu um sangue cheio de corisco, do tipo ideal para lutar contra qualquer intempérie que seja, agora eu sei ser bem melhor molhar a face que sofrer com o estômago cheio de mariposas.

A casa de minha mãe agora tem paredes coloridas e pode ser clichê dos mais baratos, mas enchem a casa de vida. A sala tem um fundo salmão e o quarto de minha irmã, lilás, o de minha mãe um verde calmo. Meu quarto tem um travesseiro novo e a parede antes amarelada pelas tardes recostado agora são brancas de novo. Minha mãe é dessas mulheres felizes em ter o lar arrumado. Da outra vez que estive em Teresina, observei ainda estarem meus irmãos todos iguais, e Rafa retrucou que as mudanças apenas não eram perceptíveis. Em mim e em todos os outros. A cada vinda, tenho mais cara e jeito de visitante apenas, o que é perfeitamente compreensível. Não discuto nem acho de todo ruim, apenas respeito a ordem natural da vida. É assim mesmo.

Nesse momento em que já encaro pedaços de Sampa da minha janelinha do avião, fico feliz por minha alma ainda ter o repouso bom nos braços dos meus amigos-irmãos, na benção da minha mãe, na voz de minha irmã.

Certas coisas, graças aos deuses, não mudam nunca.

Até a próxima.

É pra sempre – acostume-se a isso

Rapaz, é complicado, esse lance de viver é complicado. Eu tenho medo, muito medo dessas pessoas que se conhecem profundamente, defeitos, razões, qualidades e carências com apenas 17, 18, 19 anos. Por que eu tenho só 23, sei que tem muito tempo pela frente, mas eu me sinto cobrado quando vejo esses prodígios. A gente aprende a mentir com o tempo.

E aí quando eu abro o Orkut e vejo que ele me diz que a sorte de hoje é que “O coração é mais sábio do que a razão”, eu digo é valha, pra usar uma expressão tão típica aos meus amigos de Teresina, eu digo é couro de pica, eu digo é foda-se. Que mentira descabida, deslavada.

Eu digo mesmo é que troco meu coração meio surrado [coisas de homem são sempre mais surradas, entendam] por uma garrafa de bebida alcoólica da preferência do interessado na peça rara. Ou troco por um fígado. Por que Jeremiah Russel foi embora, debandou, saltou do navio junto com os ratos, foi varrer calçadas em Paris e de repente eu me sinto seco por dentro, sem meus personagens, sem nomes, sem idéias para conto, me viciando em doces de padaria. Stella, Jam, Phoebe e Jan se foram, e eu sinto mais falta de Jam do que de mim mesmo. O Jeremiah era foda, cara, eu queria ser ele.

Fica em paz, mafriend.

É sempre preciso começar de novo, new borns são sempre sofridos, é sempre uma coisa nova a se acostumar. Parece que você sai do seu corpo, que é sua casa, passa um tempo fora e quando volta alguém mexeu nos móveis.