Sempre pode ser pior

“Soma is what they would take when hard times opened their eyes, saw pain in a new way”
[The Strokes - Soma]

Quando tinha meus 10, 11 anos eu ia todas as manhãs para a casa da minha avó paterna, estudar com uma tia que passava férias imensas em Teresina. Licença prêmio, chamava.

E como a casa da minha avó ficava numa altura boa da 24 de Janeiro, pertinho do cruzamento com a Joaquim Ribeiro, ia de lá para o Diocesano, minha escola por 11 anos.

Nessa época, meu pai almoçava na casa da minha avó, era mais próximo do trabalho dele, lá no centro, do lado da Praça Rio Branco, nas Pernambucanas.

Um dia eu não entendi nada. Ainda nem tinha tomado banho para ir para a escola e ele já havia chegado para o almoço. Disse um “oi” para ele, a figura séria e serena do meu pai caminhando pelo corredor da casa de minha avó. Ele sentou numa poltrona da sala, tirou os sapatos, as meias, trocou de roupa e foi fazer qualquer coisa que não lembro.

Daquele dia em diante ele não trabalhou mais, estava “aposentado”.

Quando eu fui dispensado do meu primeiro e esquecido estágio, eu mal conseguia me controlar. Disse um tímido “tchau, foi bacana trabalhar com vocês” para a redação – que fez cara de quem já sabia o que estava rolando – e saí. E, olhando para a Frei Serafim, chorei.

Mas eu só tinha 19 anos, a faculdade inteira pela frente e muitas coisas para aprender e fazer. E foi isso que fiz. Posso até me orgulhar do fato de que dos meus estágios posteriores o único que não saí por minha vontade foi de um jornal de saúde que faliu por falta de anunciantes. De todos os outros aprendi tudo que havia para aprender e enfim segui.

Depois disso tudo, ser demitido não é das piores coisas do mundo. Dá um certo desânimo, mas poderia ser bem, bem pior. Pelo menos eu não comprei meus presentes de aniversário, nem minha nova câmera, nem passagens para Teresina, nem garrafas de vodca boa, nem aquele fusquinha azul-calcinha… O teste do anjo da guarda no último domingo foi fichinha para o que ele me fez no último mês. E para o que ele me fez ontem.

Como diz o Noite Ilustrada, e muito bem repete minha amiga Karine, “reconhece a queda e não desanima. Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

E é isso.