Do que é feito teu sangue?

sangue

Teu sangue, viscoso sangue, é feito de memória, angústia e um pouco de doenças do corpo e da alma.

Todo o grosso sangue que por ti escorre, todo ele carrega em si, misturado àquelas partes vermelhas e brancas, pedaços grandes de tudo que vê, ouve e sente. Se teu caráter é beligerante, capaz dele carregar também coriscos e faíscas.

Mas num dia de humilhação, dores e choro, ele não consegue, afina, e só carrega – a muito custo – a si mesmo, seco, duro, vazio.

Teu sangue, viscoso sangue, é feito de memória, angústia e um pouco de doenças do corpo e da alma.

Pra tirar a poeira do baixo

Já devo ter dito isso diversas vezes em diferentes lugares. As pessoas com quem já conversei sobre essa faceta da minha vida também já devem ter ouvido isso inúmeras vezes. Mas hoje eu assisti a esse vídeo aqui embaixo do Trail of Dead [valeu, Ian!] e tudo voltou. As lembranças, os objetivos, a dedicação. Voltou tudo, como fazia muito tempo que não voltava.

Bom, eu já tive uma banda. Uma banda de “rock alternativo”. Chamava-se nelson theresa cafe ["tudo minúsculo, com h no theresa e sem acento no cafe", como a gente gostava de explicar] e teve uma certa “projeção”, chegou a ter 150 pessoas na comunidade do Orkut, participou de comercial de televisão [olha o Engenheiros do Hawaii mostrando sua força aí], gravou uma demo nunca lançada ou finalizada, fez diversos shows, das mais diferentes formas [pockets, festivais, na chuva, em palcos grandes para quase ninguém, em bibocas para gente cheirando nosso suor]…

E dessa época, tudo que eu gosto mesmo de lembrar é que só rolavam mesmo coisas boas. Que a maior briga que tivemos [Jimbo, Daniel, Juca e eu] foi por um arranjo. Que houve uns meses em que fazíamos uma música a cada três ensaios. Que quando os turnos de trabalho se chocavam com os ensaios, passamos a almoçar mais cedo e ensaiar ao meio dia. Que a gente ficava putinho em não levar um tostão, mas se sentia a maior banda do mundo tocando só nossas músicas…

Isso foi em 2006. Ou melhor, até 2006, quando demos a pausa de fim de ano, eu saí de Teresina para São Paulo, a banda virou um trio, o Daniel foi pai [da "Katarina com K"], deixou a banda, que virou um duo, o Juca veio para Sampa e a banda virou uma lembrança incrível, fantástica, enebriante, que me ataca, toma, acomete e emociona sempre que vejo vídeos como esse aí de cima.

Disse outro dia aqui na redação que trocaria tranquilamente a vida de jornalista pela vida na estrada com uma banda. Ganhando uma grana justa e viajando para fazer show. Fechar o repertório na boca do palco. Compor na estrada. Escovar os dentes com cerveja [menos!]. Compor, arranjar, experimentar, jogar sinuca depois do ensaio…

As “possibilidades” são tantas quando se tem a música como profissão que é fácil se perder na inocência e na beleza da coisa. E é só disso que quero falar, então. Porque sei que meu talento de compositor ou de arranjador é limitado, eu gosto mais de Strokes que de Velvet Underground, toco baixo muito mal, me empolgo com facilidade. E, principalmente, sou certinho demais para tocar o foda-se, abraçar uma vida bandida e deixar o jornalismo assim, para trás. Teria que ser perfeito, e o perfeito não existe.

Como me disse o Dhuba numa conversa, certa feita, a única coisa que eu posso fazer é conciliar as duas paixões. Já tentei, mas sei que não com o afinco necessário ou justo. Então é isso. Vamos lá aproveitar as aulas que o irmão d’ela quer pra treinar aqueles cromatismos. Como é que se faz uma escala menor mesmo?

Do que é feito teu coração?

coração

É feito de carne o bravo coração e só por isso já é frágil em si.

Ele bate e apanha, ri e sofre, pula e veja só, suspira.

Teu coração, bravo coração, é responsável por tuas emoções e pela noite de bom sono, quando está leve, ou pela vigília eterna, quando teima em carregar em si mais do que o mundo já obriga.

É feito de carne o bravo coração.

Economizando na terapia

Vai parecer o cúmulo do óbvio, mas para economizar na terapia, tudo que você tem que fazer é encontrar alguém para conversar.

Claro que, para ser um substituto à altura do tratamento formal, o “alguém” deve ser uma pessoa da mais alta confiança. Ou uma pessoa com quem você se sinta à vontade para conversar por tempo e assuntos indefinidos.

Isso porque, mesmo eu nunca tendo pisado em um único consultório de terapeuta na vida [tirando aquela vez em que eu era guri, toquei fogo em uns papéis no quintal da minha avó e meio mundo de parentes achou que eu era o novo Nero e me levou no "psicólogo"], imagino que não se faça nada por lá além de conversar. Uma conversa expositiva, reveladora e incrivelmente capaz de fazer você lembrar das coisas mais distantes, frustrantes, alegres, … da sua vida, claro, mas ainda assim uma conversa.

Uma vantagem sobre o terapeuta é que na sala de casa, sentados ao janelão, vendo a noite correr, é permitido e incentivado abrir uma garrafa de vinho tinto, ou que servir uma rodada de bourbon, ou que se abra uma cerveja… Além de serem bebidas deliciosas [deu até sede], servem de lubrificante para a língua. Depois da terceira dose, é difícil impedir que as palavras escorreguem.

Com ela e comigo acontece porque somos muito curiosos, gostamos muito das histórias um do outro e falamos mais que a mulher da cobra [eu bem mais do que ela]. Então, é de praxe que um dos dois jogue na mesa a pergunta que vai conduzir a “sessão”. “Tu já se boicotou?”, perguntamos em uma dessas vezes. E foram horas e horas falando a respeito de boicote, de insegurança, de receio, de trabalhos antigos, revelando situações que nunca havíamos contado para mais ninguém.

Mas e o resultado? E os conselhos do terapeuta? E as anotações, as interpretações? Bem, entortando a música do Cidadão Instigado, às vezes tudo que você quer é conversar com alguém.

Um jeito diferente de usar o FormSpring

A onda pegou rapidão no Twitter essa semana. Como eu sou loser [ainda bem que não assino como especialista em redes/mídias sociais], nem sei dizer como surgiu, de onde veio, quem fez o primeiro e tudo o mais.

Sei que a info chegou até mim [se tem uma "teoria" que eu adoro é a de um professor lá da Faculdade de Jornalismo que dizia: se você não vai até a informação, ela acaba vindo até você - e tem coisa melhor pra isso que o Twitter? :) ] e, matutando de madruga com ela, chegamos à conclusão de que a ferramenta, por mais que esteja funcionando como um arremedo do caderno de confidências, com gente perguntando frivolidades, questionando limites sexuais e outras maravilhas, o Formspring.Me pode sim ter outras aplicações.

O blog Moda Para Homens, por exemplo, tem lá um perfil para responder sobre “moda e comportamento masculino”. Se você é um bronco e não sabe combinar nem camiseta com calça jeans e ainda assim quer sair bonitão por aí, pode mandar sua dúvida pra eles que a galera responde.

E isso é só uma possibilidade. Sugeri no Twitter o seguinte: e se uma professora de Ensino Médio abrisse um perfil no FormSpring para tira-dúvidas de seus alunos, será se funcionaria?

Pensando nisso, resolvi deixar meu perfil por lá com a seguinte proposta: posso te ajudar respondendo alguma coisa? mandaê, então!

Aí você pergunta: “mas o que você sabe o suficiente para ajudar alguém?” Sei lá, ué. Pergunta e a gente dá um jeito. Mas se você der um confere nos textos que eu já publiquei no Papo de Homem, vai sacar que eu me meto a entender de relacionamentos/mulheres. Quem sabe eu não possa te ajudar nisso?

Lembrando que um dos grandes chamarizes da ferramenta é que você pode mandar suas indagações anonimamente. Obviamente, abusos não serão permitidos. Pra todo o resto, fique à vontade. :)

UPDATE
Convido vocês, que leram esse texto até aqui, a se aventurarem da mesma forma e se disporem a ajudar a “internet”, criando um perfil no FormSpring e respondendo perguntas sobre as áreas que vocês dominam. Dividir é a real, e a melhor delas. :)