Arquivo para a categoria 'Dor-de-cotovelo'

Orfeu é falho

que fique claro
e eu te aviso assim, na tua cara.
olha, eu não podia nem dizer mais nada.
eu podia até ficar calado
mas os traços que fizestes nas minhas costas cortaram até o outro lado
[não sei se foi a ponta da unha ou a vontade de viver/ferir]
os traços passaram peito, tripas, um pulmão e meio, veio mais para a esquerda.
a sequência das coisas, quem você via pelo caminho, tudo talvez tenha se unido.
os teus encontros, as tuas coisas, os teus estados.
as coisas são todas assim, e por isso eu digo, na tua cara,
essa cara de quem ri como bandido que roubou o diamante maior.
todos esses riscos não passam da caneta mais escrota, da tinta mais viva que eu conheço.
a porra dessa tua caneta escreve e escreveu na minha alma o recado mais simples e imbecil do mundo:
“hás de me amar pra sempre, idiota!”

[draft de post perdido há MUITO tempo e hoje totalmente anacrônico]

I will sing a lullaby

Eu não consigo me controlar
Tenho um demônio na carne, no corpo
Sonho acordada na escuridão da minha cela,
Utilizo os dedos pra provocar sensações proibidas
Eu não sei explicar como isso acontece,
eu sinto um formigamento percorrer o meu corpo,
e algo se desprende, e caminha em direção a você.

[3 Na Massa - Pecadora] 

Mais uma vez sonhei com você. Não como da outra, em que a gente conversava e de repente você se afastava ao menor esboço de aproximação da minha parte. Não foi num bar, numa calçada ou num café perdido no tempo e nas ruas.

Era a casa de alguém próximo a mim, mas muito distante de você. Sonhei, e eu afirmava e dizia sorrindo que ia embora, ia embora de onde eu estava, de volta para os meus, os dos outros, o de sempre.

Sonhei que você aparecia na companhia dele, como se quisesse me forçar a ver que tudo ia bem. E bem que ia, não há razão para mentir. Mas com você lá e ele ali, alguma coisa daria muito errado.

Assim como eu desejei no dia que você recusou todos os meus convites, havia música e dança, além do melhor lubrificante social já inventado.

[essa parte pode ter sido inventada ou não]
Enquanto você não tirava os olhos das marcas nas paredes, ele observava os movimentos precisos dos pares de coxas femininas pelo cômodo, acompanhando a dança com interesse peculiar e libidinoso.

Você olhava as paredes, ele, as coxas, e eu, eu apenas observava você: na gentileza dos seus gestos esboçando um toque na massa que fazia papel de tinta, na precisão do teu traço, no entreabrir da tua boca, forçando a separação lenta e seca dos lábios, logo devidamente umedecidos com a tua língua cruel.
[/essa parte pode ter sido inventada ou não]

De lá te puxei para fora do lugar da dança, da música e da bebida e te pus nos braços, como não havia feito em nenhum outro momento. E assim, nos meus braços e sem explicações maiores, derramei em ti um pouco da saudade que minha boca sentia da tua. Um beijo demorado e suave, causador dum comentário perverso e animado de um dos meus, que passou.

Te pus no chão, cuidando para te pousar de leve. Então, defronte a mim, mais um beijo – no qual sorvi de volta a saudade que minha boca sentia da tua, mas que não te despertava emoção – um olhar, um suspiro e afinal a coragem para a pergunta.

- Por que você faz isso, _________?
- Porque eu sou assim.

…..

Acordei incomodado, como você me deixava. Um incômodo travestido de curiosidade: que raios de força é essa que não se acaba?

Foi então que eu levantei da cama, tomei meu banho, me vesti e saí para mais um dia de trabalho.

E o dia amanheceu em paz

Não, Arturo, nunca houve um mar. Você sonha e deseja, mas atravessa a terra desolada. Nunca verá o mar de novo. Era um mito em que certa vez acreditou. Mas tenho de sorrir, porque o sal do mar está no meu sangue e podem existir dez mil estradas sobre a terra, mas nunca irão me confundir, pois o sangue do meu coração sempre voltará para a bela fonte

John Fante – Pergunte ao Pó

A maldição, bendita maldição, continua.

I put a spell on you

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças

Aquela esperança de tudo se ajeitar
Pode esquecer
Aquela aliança, você pode empenhar
Ou derreter

Mas devo dizer que não vou lhe dar
O enorme prazer de me ver chorar
Nem vou lhe cobrar pelo seu estrago
Meu peito tão dilacerado

Aliás
Aceite uma ajuda do seu futuro amor
Pro aluguel
Devolva o Neruda que você me tomou
E nunca leu

Eu bato o portão sem fazer alarde
Eu levo a carteira de identidade
Uma saideira, muita saudade
E a leve impressão de que já vou tarde.

Verdade

Você é uma das poucas pessoas sem definição no meu msn. E provavelmente vai continuar assim.

Intrigante…

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