E agora são dois anos

Era madrugada de 26 de janeiro de 2007. No aeroporto estavam comigo minha mãe, minha irmã, um primo querido, alguns poucos amigos e ela. Sâo Paulo havia completado 453 anos dois dias antes e agora lá ia eu dar meu parabéns ao vivo e em cores.

sampa
Minha mãe já não dizia mais grandes coisas, só me olhava. Eu podia sentir o aperto no peito dela. “Cuidado, meu filho. E boa viagem”. Assim, sem delongas, sem choro. Um último abraço na irmã [“cuida da mamãe, tá?”], outro nos amigos, um beijo demorado com sabor de lágrima e saudade nela e lá vim eu.

Durante este tempo todo em que estou por aqui, depois de ter passado por períodos dos mais diversos, intercalando solidão sofrida, andanças pela cidade, descoberta de pontos preferidos, saudade, saudade, saudade e saudade, eu finalmente me toquei de que não adianta reclamar de nada. Que o que adianta mesmo é simplesmente seguir, seja na vida, no trabalho, no amor. Seja sozinho ou mal acompanhado, o ônibus vai permanecer cheio, a chuva vai continuar de canivetes, o tempo vai seguir passando rápido demais.

Depois de certo tempo batendo perna por aí, quando consegui me orientar olhando apenas para um ponto qualquer da Avenida Paulista [e decorando a sequência de ruas que desembocam na Consolação], senti sim que São Paulo poderia me abraçar como filho.

avenida-paulista

Na virada de 2007 para 2008, laços que não quero perder nunca, qualquer que seja a minha posição no globo, já estavam estabelecidos. Foi a primeira vez em que eu senti saudade de São Paulo, das suas ruas, avenidas, fumaças e barulhos. Foi o primeiro sinal de que me sinto realmente em casa por aqui.

Outros vieram com o passar do tempo. Como quando penso em ir morar no Rio de Janeiro, para ver minha sobrinha crescer, ou quando pensei em ir embora, e uma saudade bem típica da minha personalidade despontou.

Hoje, enquanto trabalho e comemoro dois anos de Sampa, fico feliz em pensar que não tenho data para deixar a paulicéia desvairada. Fico feliz de me sentir em cima do muro e não saber onde chamar de “lar”, não porque tenha que ser um ou o outro, mas porque podem ser os dois, Teresina e São Paulo.

sampa-2

Afinal de contas, home is where your heart is. E uma parcela do meu já se sente à vontade para tirar o sapato e abrir a geladeira quando chega por estas bandas.

Que outros anos venham.

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20 respostas em “E agora são dois anos

  1. Feliz e com o peito apertado. Ainda sinto algo um tanto angustiante quando você fala sobre Sampa e Terê. E tenho a impressão de que nunca vou deixar de sentir.

    RESPOSTA

    Pior que eu tenho a impressão que nunca vou deixar de falar. Mas numa frequência que tende a diminuir. :)

  2. todos os dias eu amo e odeio essa cidade. sabe aquela relação que é simplesmente impossível deixar de existir? não dá pra ser indiferente. ela me joga pra cima e pisa em mim… eu a abraço, me declaro e depois cuspo nela, de desprezo. a gente é 8 – 80.

    por isso, acho que não consigo deixá-la. sempre declaro meu amor por outras… rio, florianópolis, salvador.

    mas eu simplesmente não consigo me desligar dela.
    é o tipo de relação doentia…
    daquelas que fazem tão bem que a gente vicia.

    seja benvindo.
    sempre. diariamente.

    RESPOSTA

    Obrigado pela recepção, Gabriel. São Paulo é uma cidade que te mastiga. De pouquinho em pouquinho isso vai deixando de ser uma brutal tortura e passa a ser a mais deliciosa massagem. :)

  3. Isso, mata os amigos de susto falando que pensa em ir embora.
    Cuzão.
    Cara,a paulicéia já é tua. Perdeu o forte do sotaque, as histórias de Teresina diminuiram enquanto os contos paulistanos cresceram em sua história e, como você mesmo disse, já até sabe o nome das ruas nos arredores da Paulista (deus sabe como foi difícil, hahaha).

    A Paulicéia é tão tua quanto minha. Arranca o sapato, abre a geladeira e vamos bater um papo.

    8*

    RESPOSTA

    Deus sabe como foi difícil aprender a me situar na Paulista, cristosenhor. Ainda bem que eu pude contar com a tua ajuda, meu velho. :D

  4. Menino longe de casa, tornou-se homem.
    São Paulo transforma qualquer um.
    Seja para o lado bom ou para o negro da força… mas isso não importa, quando você chega determinado a vencer… e eu aposto as minhas maiores cartas que esse menino (younger brother forever)que ainda vai por essa cidade no chinelo…

    E quando acabar por aí… chega mais aqui no Rio, é mais perto que Terê…

    RESPOSTA

    Assim que o younger brother forever estiver devidamente abancado na civilização, Eva virá conhecer e se apaixonar por Sampa. E quando você decidir que é hora de bater em retirada do Rio, eu seguirei vocês.

  5. perdeu o forte do sotaque??? como asim, PEDRO JANSEN? marrapaz… to dizeno mermo!!! pode recuperar esse sotaque aí, viu… pq as histórias de teresina só tem graça com muito “minhagentchi” e “arr’maria”…. =*

    saudade, amore!

    RESPOSTA

    É tudo mentira, Linex!!! (A) [saudade, nega preta]

  6. Pense em tudo o que você fez. Todas as pessoas que conheceu, os livros que leu, as festas que curtiu, os caminhos que aprendeu. Tente se lembrar de todas as noites engraçadas, dos silêncios confortáveis, das saudades sufocadas, dos novos sabores.

    Sim, meu caro, 2 anos fazem toda a diferença. ;)

    RESPOSTA

    E estes dois anos são só o começo da caminhada, minha cara. Só o começo… Bonito vai ser acompanhar a sua. :)

  7. ótimo depoimento, Jansen. Tenho certeza que não somos os mesmos desde aquela tarde num porão na Vila Madalena (uiii), imagina em 2 anos de SP.

    Abração!

    RESPOSTA

    Meu Menezes, certamente não somos. E aquela tarde num porão perdido na Vila Madalena foi só uma das provas de que eu estava no lugar certo. :)

    Obrigado!

  8. Pô cara, eu já tenho vontade de morar por aí, e depois de ler esses posts sobre Sampa, aí que a vontade aumenta. hehe!

    Sucesso e parabéns pelos dois anos!

    RESPOSTA

    Venha e aproveite o que esta cidade tem pra te oferecer. :)

    Abraços!

  9. Pois é. São Paulo tem tantas caras, tantos jeitos, que acaba fazendo com que as pessoas se acostumem logo com ela.

    Felicidades pelos dois anos!

    RESPOSTA

    Verdade, Babi. Tudo isso faz com que você se veja por toda a cidade.

    Obrigado e volte sempre!

  10. Pingback: A gente é 8 ou 80 « Crônico

  11. Lendo o seu texto vi o jovem eu desembarcando aos 17 anos em Sampa, vindo do Rio de Janeiro. Dez anos depois, acabei no interior do Paraná. Parabéns, lindo texto.

    RESPOSTA

    Obrigado! O momento da chegada é realmente inesquecível, ainda mais quando o destino é São Paulo.

    Abraços!

  12. Há dois tipos de paulistanos: os nascidos e os adotados. São Paulo tem outra cor e outro sabor pra quem não nasceu aqui, mas adotou a cidade como lar. Também sofri de todas as dores e todos os amores por ela. E hoje não a troco por nenhuma outra. Nem mesmo pela minha adorada Brasília! E é bom saber que outras pessoas passaram pelo mesmo. Identificação total!

    Parabéns pelo blog!

    Caí de pára-quedas aqui hoje e já está nos meus favoritos.

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