Eles fizeram de novo

 

O release tá lá no meu e-mail.

Depois de remixar Nude, agora é a vez de Reckoner.

To coincide with asking radio stations to think about playing Reckoner we are breaking up the tune into pieces for you to remix. After the insane response we got from the Nude remix stems and the site that was dedicated to your remixes, we thought it only fair to do the same with a tune that at least is in 4/4. [...]

A iniciativa de liberar Nude para ser remixada rendeu números absurdos. No release consta que foram 6.193.776 de visitantes únicos e mais de 29 milhões de page views no RadioheadRemix. Os 2.252 remixes subidos para o site geraram 1.745.304 de audições, 461.090 votos e absurdos 10.666 Terabytes em dados. O remix “vencedor”, feito pelo grupo canadense Holy Fuck, é bem bom e está disponível para download aqui.

Pois é, o grande lance de Nude é que a danada era uma música em 6/8 [sabe quando o artista grita "1,2,3,4!"? Então, nesta Thow Yorke gritaria "1,2,3,4,5,6!" e a música seguiria cabendo nessa contagem. Tente contar junto com a música e você vai entender tudo] e agora os caras resolveram aliviar. Colocaram Reckoner, uma tradicional 4/4, para ser remixada. 

É o mesmo site do outro concurso: RadioheadRemix e já veio com dois remixes de cara: um do produtor James Holden [bem bom] e outro do Dj/produtor Diplo [Radiohead dançante é insano]. A coisa funciona assim: o Radiohead lança como single as partes da música separadas – vozes, cordas, bateria… -,  o sujeito compra isso na Apple Store e monta seu remix. Remix montado, sobe pro site. Estando no site, vai para audição. Gostaram, as pessoas votam no seu remix. Os mais votados, o Radiohead escuta. Você tem até o dia 23 de outubro para mandar seu remix.

Em três horas que as partes de Reckoner estão à venda são mais 166 remixes [e contando]. Para completar, deste vez você pode divulgar seu remix através de um widget para seu perfil no Facebook, MySpace ou site pessoal…

Seja idéia do próprio grupo ou um de seus produtores, o fato é que o Radiohead sempre arruma maneiras interessantes de estar na mídia, de gerar buzz. E, antes de qualquer coisa, eu acho isso fantástico.

5 livros bons de dizer que leu

Eu tenho um sério problema com livrarias. Perco [ou ganho] um tempo absurdo lendo títulos, sinopses, cheirando os livros [sim, o cheiro dos livros é MUITO importante]. Invariavelmente eu comprava algum.

Também tenho um problema com livros. Gosto deles, das formas, dos tamanhos, dos cheiros… E gosto de lê-los, claro. Mas, principalmente, gosto de tê-los. Acumular livros nas prateleiras é algo que me fascina. Fico pensando naquelas bibliotecas particulares das grandes mansões, com livros ocupando paredes e mais paredes, uma boa poltrona para leitura e um original qualquer dentro de uma redoma…

Mas, contrariando minha sede por livros não-lidos, tive um surto e quase dupliquei a quantidade de livros lidos este ano. Devorei, inclusive, alguns clássicos, já que é sempre bom fazer aquela média de que lê livros legais.

Vamos então aos “5 livros bons de dizer que leu [e que você leu mesmo]“.

1- O MANÍACO DO OLHO VERDE, de Dalton Trevisan

Temos aqui um Dalton Trevisan, lançado agora em 2008. Contista ágil e doentio, o curitibano me fez ler 128 páginas em coisa de 4h, contando a volta pra casa, a ida e a volta do trabalho no dia seguinte. Ouvindo Radiohead. Não preciso dizer que a combinação foi corrosiva o suficiente para influenciar no meu sono. E como meu sono é uma espécie de entidade que pobres mortais não alcançam, este foi o máximo sinal de que algo [ou melhor, tudo] naquele livro mexeu comigo.

2- O GRANDE GATSBY, de F. Scott Fitzgerald

O meu primeiro Fitzgerald, mesmo que eu tenha “Suave é a Noite” desde a época da faculdade. Com a dica de uma ex-love affair, aceitei o desafio de encarar a narração do autor americano novamente. Foi uma decisão acertada, sem dúvida. Principalmente pela narração, que é fantástica, e pelos “aforismos” que Fitzgerald constrói como poucos. Lido num espaço de cinco dias, as últimas linhas das 252 páginas do O Grande Gatsby são de perder o fôlego e de ficar com a dolorosa sensação de que uma história se esvaiu.

3- O JOGADOR, de Fiódor Dostoiévski

Um dos pilares da moderna literatura russa, [junto com Gogol e Tolstoi], Dostoiévski tinha no realismo a sua casa, o seu lar. Retratar a sociedade em suas minúcias, em seus pequenos e grandes qualidades e defeitos era seu esporte predileto. As digressões do autor sempre enveredavam por caminhos que levavam ao conhecimento das idéias e convicções dos personagens.

Em O Jogador, essas digressões são fascinantes, pois abordam a mente corrompida de um viciado em jogos de azar e eterno apaixonado por uma mulher que o despreza. Desespero e angústia se misturam em cada uma das 174 páginas, consumindo o leitor até o gozo das últimas linhas.

4- PERGUNTE AO PÓ, de John Fante

Arturo Bandini é um loser de marca maior, mais loser que eu ou você, tenha certeza disso. Ainda assim, Bandini é um sujeito encantador, daqueles que você fica com pena por ele ser tão estúpido. Consegue-se até rir do quão quixotesco Arturo é.

Escritor, Bandini tem uma relação patética e muito forte com seu editor, a quem vê como uma entidade. Publicou uma única história, o conto “O Cachorrinho Riu”, e se orgulha dela como se fosse a melhor coisa já escrita no Ocidente. Clássico dos clássicos, Pergunte ao Pó consegue esfregar na cara do leitor como é ruim viver com o olhar perdido do real.

Desnecessária, no entanto, a sua adaptação para o cinema. No filme, temos o irlandês Colin Farrell retratando o ítalo-americando Arturo Bandini.

5- HOMEM COMUM, de Philip Roth

Uma narrativa tão fantástica que li o livro em pouco menos de um dia. Tão fantástica que, nas últimas linhas, senti meu coração pulando algumas batidas. Tão fantástica que foi suficiente para mudar meu humor completamente. Philip Roth aborda a vida, as lembranças e os pequenos/grandes medos de um homem consciente de sua fragilidade.

Essa consciência, no entanto, não torna o livro óbvio ou cheio de clichês. A narrativa de Roth mantém o olhar do leitor apontado sempre para a próxima palavra, embora seja impossível não dar pausas dramáticas para respirar fundo, olhar para o tempo e pensar na vida. Aliás, ao fim do livro, pensar sobre a vida é o menor dos problemas.

Um dia lindo de morrer

Quando eu lembro de ontem, arrepia.

Nos últimos fins de semana a coisa tem sido meio modorrenta. Grana curta, frio “rascante”, preguiça, os mesmo programas de sempre, novidades bloguísticas… Sempre havia um “bom” motivo para ficar embaixo das cobertas, vendo um filme ou inventando mais uma demanda para o dia-a-dia. Maquinar, sabe como é.

Daí que sexta-feira, ao chegar do trabalho, já havia uma programação definida: bar ver amiga de amigo + show de ska da banda de amigo de amigo. Acabou que, por preguiça, ficamos em casa, eu e o amigo Jader. Dhuba estava por ali, em posição de lótus na frente do video game, eu catei uma garrafa de Mangueira esquecida na geladeira e mandei cinco shots pra dentro. Jader fez o mesmo e terminou de secar a garrafa. Óbvio que isso fez a noite. Não precisamos sair pra outro lugar.

Daí começou o dia sagrado: o sábado.

1 – Acordar às 08h, sem ressaca, só com sede? Ponto para o sábado;
2 – Encontrar a família do amigo, depois de boas semanas de sumiço? Ponto para o sábado;
3 – Acompanhar amigo e mãe do amigo na concessionária, escolher o carango novo? Ponto para o sábado;
4 – Seguir para Sampa encontrar uma amiga do amigo, a gente finíssima, bem humorada, bonita, engraçada e disposta Francisca, tão charmosa quanto o nome? Ponto para o sábado;
5 – Bater perna na praça Benedito Calixto, num dia de clima ameno, jogar conversa fora, falar de Madonna, apostas, vinis, tomar um café e ver os preparativos finais para um casamento numa igreja do lado? Ponto para o sábado;
6 – Ligar para a amiga Carol Bazzo, a convocar para o show de China e Mombojó e receber pelo tom da voz dela um abraço ali mesmo, pelo celular? Ponto para o sábado;
7 – Bater perna pela Livraria Cultura, vendo, escolhendo e perdendo livros, testando o fantástico Manual do Xavequeiro, dividindo pequenos trechos de livros aleatórios e aforismos prediletos? Ponto para o sábado;

8 – Ver a noite esfriar rápido e mesmo assim seguir para a estação de Metrô Santa Cruz e assistir uma batalha de MCs no estilo 8 Mile, em que o irmão do Jader, mais conhecido como Mc Bino, mandou super bem? “Tem que ter suingue, tem que ter suingue, no Santa Cruz o metrô é o ringue”? Ponto para o sábado;

9 – Fazer o caminho do Metrô Santa Cruz até o StudioSP com o pretenso sonho de conseguir rimar como aqueles carinhas e no mínimo conseguir rir muito com as idiotices ditas, fazer esquenta num bar do lado, tomando uma Brahma geladíssima na fria noite de Sampa, ouvindo Calcinha Preta e Queen? Ponto para o sábado e
10 – Ir para o StudioSP para assistir a um show dos dois artistas pernambucanos que mais admiro, China e Mombojó, me acabar com as escolhas do DJ Tatá Aeroplano, vocalista da banda paulistana Jumbo Elektro [que mandou, no meio de tudo, um alucinado Tuareg, dos primeiros anos da Gal Costa], cantar praticamente todas as músicas, dançar, beber cerveja, gritar mesmo com a garganta inflamada, lembrar do primeiro show do Mombojó em Teresina e perceber a evolução dos “meninos”, finalmente ver um show do China, me divertir afu, sair do Studio completamente sem voz, sem pernas e sem uma gota de tristeza na mente? Ponto para o sábado.

Depois de muito tempo sem grandes idéias do que fazer no fim de semana, num dia só consegui programas variados e divertidos, com papos engraçados e sérios, longos e curtos, irônicos, mas bem humorados sempre. Há tempos eu não tinha um sábado tão empolgante assim, com tudo se encaixando, fluindo, apenas sendo. Conhecendo gente nova, reencontrando gente bacana… e pensando que a gente reclama mesmo pra ter o que achar ruim da vida. Drama bobo, entende?

Ontem foi um sábado tão bom que rendeu até pacto: “por sábados mais felizes”. Ontem? Ontem fez um sábado lindo de morrer.

Força estranha

Então você abre seu e-mail menos de 5h depois que foi dormir e se depara com o mesmo mailing de sempre, com “ofertas imperdíveis” de uma certa loja virtual.

Ok, você pensa, não deve ser nada demais, vou apagar essa josta como eu costumo fazer com todo e-mail deles que chega. Mas não, algo te diz que aquele é diferente, que há um motivo especial para abrir o e-mail.

Então você abre. E a página carrega. E aí você lê: “Para você conseguir realizar um desejo, estamos enviando um lembrete de um dos produtos da sua Lista de Desejos. Mas não se esqueça de manter sua lista sempre atualizada: assim o Submarino pode continuar a lembrá-lo de seus desejos.”

E era o anúncio que o DVD “Live in London”, show do The Cardigans gravado em Londres no meio da turnê do “The First Band on the Moon”, estava novamente disponível. Com 5% de desconto.


Sabe a força estranha citada no título? É simples, pal. A força estranha que me ataca nesse momento é o consumismo: “De onde eu vou tirar R$35,91 no meio do mês pra comprar esse DVD?”.

Sofro.

Orfeu é falho

que fique claro
e eu te aviso assim, na tua cara.
olha, eu não podia nem dizer mais nada.
eu podia até ficar calado
mas os traços que fizestes nas minhas costas cortaram até o outro lado
[não sei se foi a ponta da unha ou a vontade de viver/ferir]
os traços passaram peito, tripas, um pulmão e meio, veio mais para a esquerda.
a sequência das coisas, quem você via pelo caminho, tudo talvez tenha se unido.
os teus encontros, as tuas coisas, os teus estados.
as coisas são todas assim, e por isso eu digo, na tua cara,
essa cara de quem ri como bandido que roubou o diamante maior.
todos esses riscos não passam da caneta mais escrota, da tinta mais viva que eu conheço.
a porra dessa tua caneta escreve e escreveu na minha alma o recado mais simples e imbecil do mundo:
“hás de me amar pra sempre, idiota!”

[draft de post perdido há MUITO tempo e hoje totalmente anacrônico]