3ª carta

Na Bahia já é Carnaval desde o fim de semana passado. Festa dos excessos, dizem. Festa dos prazeres, acho.

Em 2005, pude trabalhar na avenida, entrevistando pessoas, passistas, empurradores de carro alegórico… Pude ver, inclusive, o Bloco Lissosomos, levando maracatu torto para a Marechal Castelo Branco, com uma mocinha vestida de manhã à frente do tal bloco de organelas lisas. Vi também o Coisa de Nêgo e suas cores, seus tambores, suas danças, suas crenças.

Vi muita coisa, comi panelada, e algodão-doce. Pouco dormi.

Em 2006, a Casa de Vovó e o Castelo dos Indecentes foram a pauta, com direito a liseira braba, e ainda assim uísque, cerveja, vinho e outros baratos mais. Teve panelada, Pirata, palhaços, bloco de sujo e muita rave. Fazer buraco no chão, ver o dia amanhecer, a lua, céu, o sol, o mar. Coisas demais.

Dois mil e sete vem para ser um ano igaul ais da minha infância. Sem folia, sem bebida, sem panelada, sem rave, sem maracatu, sem nada demais. Com livros, cinema, shows, coisas diferentes. Com a Paulista só pra mim. Com tempo de ser boêmio, andar de metrô, pensar na vida, tomar chá de cidreira.

Sem passistas, sem amigos, se amanhecer na praia.

Já viram roqueiro sentindo nostalgia de carnavais passados? Que coisa mais louca… Mas vejamos: se eu estou com nostaldia do que ainda nem começou, talvez o Carnaval já faça parte de mim. Vai saber.

Meu bonsai voltou a viver. Está verde, com terra bem úmida, vistoso. Meu quarto (minha mansão), por sua vez, está uma fuzarca que não se entende.

Finalmente desisti que minhas roupas ficassem limpas sozinhas. Já é hora de lavá-las… Só que não agora, não já… Nesse momento, enquanto o Ludovic toca no MP3 Player (essa benção da tecnologia), eu só penso em como as pessoas daqui da pensão devem ser mais solitárias que eu.

Claro que eu também penso em 1001 outras cosias, mas, às vezes, só às vezes, é bom falar da dor alheia.

A colônia piauiense conhecida foi quase toda para fora de São Paulo. E embora ainda haja alguém por aqui, é daddo o direito e o dever de se ficar sozinho. “Uma viagem de auto-conhecimento”, disse eu para a Sâmula. Engraçado que hoje eu entrei no MSN e por algum treco qualquer, meu nick do último dia em Teresina apareceu. “Amanhã, 03h, todo mundo no aeroporto para um último abraço”, ou qualquer coisa que o valha. E desde pequeno eu sou assim, king of drama. Lembro de uma vez, eu pequeno no RJ e dizer para uma tia minha, um dia antes de voltar para Teresina: “vamo na praia, tia, um último banho de mar”. E ela, retrucando ligeira: “último não, meu filho. Você ainda vai tomar muitos banhos de mar”. E ela estava certa, embora hoje eu rejeite a praia e seu calor insuportável.

Penso agora, e mais precisamente em um tempo que eu não sei, que eu vou, sim, dar ainda muitos outros abraços. Não há razão para pensar que os poucos que o vôo adiantado da GOL me permitiu dar foram os últimos.

“Nem uma lágrima derramei por você”, e eu agora penso que a saudade não vai me levar ao choro. E agora é uma palavra boa para se usar.

Por que na quinta eu conheci a Fernanda, senhora mãe da prima de um amigo, que estudou na UNB em 1970! Ela lutou contra a ditadura e outras coisas mais, E ela é foda, sóbria, lúcida (não no sentido de não-esclerosada, mas de certa do que vê e pensa) e tudo que ela me falou de conscientização, movimento estudantil e afins me fez pensar no CA, nas minhas escolhas e no que eu faço hoje.

Eu gosto de pensar que eu teria lutado, lutado bastante, gritado, bradado nas ruas, jogado pedras, bolas de gude na cavalaria, feito e acontecido. Hoje, algumas coisas me cansaram, simplesmente. Me tornei mais um deles (com ressalva, por eu tenho meus princípios, porra!), mas pelo que a tia Fernanda disse, do alto da sua sobriedade, é que cada momento deve ser respeitado. Se hoje você quer isso e amanhã não mais, desde que isso não mude seu caráter, está tudo bem. Não há certo nem errado.

“Eu não faria disso um problema”. E assim a vida segue.

Pedro Jansen
16.02.07

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