2ª carta

Olhei agora no relógio e me confundi. Pensei ter visto 00:00, mas sabe como esses relógios digitais confundem a gente… Já são 00:08.

Caso fosse 00:00, seria a hora convencionada a ser chamada como “hora do rabudo”. Nem dia nem noite.

Aqui é tudo meio assim… Meio termos…

São Paulo é feita por muitos deles. Outro dia fui ao HSBC Belas Artes, um cinema com boas opções de filme [estava passando até o Lolita do Kubrick, que deve ser bem melhor que a versão que saiu um ano aí...]. Fui assistir um filme pseudobobo, pseudo-sério, chamado Stranger The Ficcion, aka Killing Harold Crick [no Brasil, ele ficou com uma tradução literal do primeiro, “Mais estranho que a ficção”. Bola fora]. O filme em si é bem médio, bom e ruim. Acerta umas coisas, erra outras.

Por isso, ao sair da sessão, o dia ainda era claro [nota: aqui só escurece depois das 20h... mal/bem dessa terra que tem estações do ano], eu queria beber alguma coisa.

Tomei uma Malzebier e ganhei um conselho: “alguém com conversa fiada pra cima de você? Passe direto!”. Fácil entender a frieza dessa terra. As pessoas aprenderam a não dar confiança para os outros na rua. Seja um ladrão [bom!], seja alguém oferencendo uma revista de teatro ou uma feita por/para moradores de rua [médio...] ou alguém pedindo informações [ruim!].

O complicado mesmo é saber que o povo só aprende como vai para o trabalho. Outros tantos caminhos são ignorados. Nem os motoristas de ônibus sabem tudo. Os carros ricos e os táxis para executivos têm GPS no painel. Uma brasa, mora?

Mas esse ignorar é quase compreensível, sabendo que a cidade tem esse tamanho imbecil.

Outro dia fui fazer minha matrícula na especialização. Mais precisamente na quinta passada. A impressão que deu é de que choveu a noite toda, ‘terra da garoa’ é isso aí. Eu estava com meu dinheiro contado. Juntei as últimas moedas para tomar café e comprei um guarda-chuvas com elas. Vamos lá: 350 pila para a minha mansão + 477,27 para a facul. Zero reais para colocar no meu cartão de passe único [que une ônibus e metrô. Em duas horas você pode pegar até três conduções pelo preço de uma, se só ônibus, ou de uma e meio se for de ônibus e metrô. A passagem de ônibus é 2,30]. Peguei o metrô até a estação da Saúde, mas não me pergunte onde fica.

Lá, descobri onde pegava o ônibus para São Bernardo do Campo, onde fica a Metodista. Entrei no ônibus, encostei o cartão na leitora e nada!

O motorista então me diz que a passagem é diferenciada.. R$ 2,80 para 12,1 km. Justo.

Meto a mão nos meus 10 real de segurança [comida ou dinheiro do ladrão, o que aparecer primeiro]. 7,20 me sobram para comprar jornal do ABC para ver os classificados, voltar para Sampa e comer! Impossível. Eu teria que achar uma lotérica para retirar os oito conto que lá ficaram.

Na Metodista, faço minha matrícula, que fica só por 425!!! Ótimo, 50 reais inesperados! Eu estava salvo!!! My great luck strikes again!

“Teresina é com S e não com Z”, digo pra moça do cadastro. “É…? Ta, eu corrijo no sistema”. “Do Piauí, você?”. “É, nascido e formado lá”.

Resolvo tudo e fico feliz, uma alegria fudida me toma, me engole. “PUTAQUEPARIU! Eu vou fazer especialização em Jornalismo Cultural!!!”

Aviso a todos, compro jornal, pego ônibus, chego em Sampa [não se percebe a mudança de uma cidade para a outra...], almoço num botequim, chego na Abril, trabalho, casa. Feliz.

Sexta vem como dia de glória. Centenário de Victor Civita, fundador da Abril, meus cartões dos bancos chegam, salvo meu bonsai da morte. À noite, escrevo, penso, vejo, escuto e vou dormir perto da meia noite.

No meio do sono, sonho com um show do Caetano Veloso. Acaba o show, vou para o metrô e um segundo antes das portas fecharem entra um cara esbaforido. Era o Caê. “E aí, chateado com o show?”, perguntei.

A resposta eu não lembro. Só sei que do metrô eu sabia que estávamos no cruzamento da Ipiranga com a São João.

Aos poucos [de um dia para o outro], essa cidade vai se tornando a segunda melhor da América do Sul.

Pedro Jansen
09-10.02.07

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